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Resistência a herbicidas avança no Brasil e genética das plantas daninhas explica evolução do problema

Brasil já soma 61 casos confirmados envolvendo 29 espécies; pressão de seleção e repetição de mecanismos de ação estão entre os fatores que favorecem a evolução da resistência no campo


Publicado em: 21/09/2026 às 08:00hs

Resistência a herbicidas avança no Brasil e genética das plantas daninhas explica evolução do problema

A resistência de plantas daninhas aos herbicidas vem ganhando importância nos sistemas produtivos brasileiros. Segundo levantamento divulgado pelo Comitê de Ação à Resistência aos Herbicidas (HRAC-BR), o Brasil contabiliza 61 casos confirmados de resistência, envolvendo 29 espécies de plantas daninhas.

Entre as espécies identificadas estão algumas das principais plantas daninhas presentes nas lavouras brasileiras, como capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), capim-amargoso (Digitaria insularis), buva (Conyza spp.), caruru (Amaranthus hybridus), picão-preto (Bidens spp.), amendoim-bravo ou leiteiro (Euphorbia heterophylla) e azevém (Lolium multiflorum).

O avanço do problema está relacionado a um processo evolutivo que começa antes mesmo da aplicação do herbicida. A diversidade genética natural existente dentro das populações de plantas daninhas faz com que alguns indivíduos apresentem, em baixa frequência, características que conferem menor suscetibilidade ou resistência a determinados mecanismos de ação.

Herbicida não cria resistência, mas seleciona plantas resistentes

Uma das principais informações para compreender o fenômeno é que o herbicida não cria a resistência na planta daninha.

O produto exerce uma pressão de seleção sobre uma população que já apresenta variabilidade genética. Quando um determinado mecanismo de ação é utilizado repetidamente, as plantas suscetíveis tendem a ser controladas, enquanto indivíduos que apresentam características de resistência têm maior possibilidade de sobreviver e se reproduzir.

“O ponto fundamental é entender que o herbicida não cria resistência. Ele funciona como um agente de seleção. Quando determinado mecanismo de ação é utilizado repetidamente, as plantas suscetíveis são controladas, enquanto aquelas que naturalmente possuem características de resistência têm maior chance de sobreviver e se reproduzir”, explica Roberto Toledo, Gerente de Produtos Herbicidas da Ourofino Agrociência e Conselho Executivo Consultivo do HRAC-BR.

Com a repetição desse processo ao longo das gerações, a proporção de indivíduos resistentes pode aumentar dentro da população.

Como a pressão de seleção acelera a resistência

O HRAC-BR define a pressão de seleção como um fator externo capaz de alterar a frequência de determinados genes dentro de uma população.

No caso das plantas daninhas, a utilização repetitiva de uma mesma estratégia de controle pode funcionar como um filtro sucessivo.

A cada aplicação, indivíduos suscetíveis são eliminados, enquanto aqueles que apresentam características de resistência podem permanecer na área. Se esses sobreviventes produzirem sementes, parte de seus descendentes poderá carregar as mesmas características.

Ao longo das gerações, uma característica inicialmente encontrada em poucos indivíduos pode se tornar cada vez mais frequente na população.

Esse processo ajuda a explicar por que determinados mecanismos de ação podem perder eficiência quando são utilizados de forma repetitiva e sem integração com outras estratégias de manejo.

Escapes recorrentes exigem investigação

A ocorrência de plantas que sobrevivem à aplicação de um herbicida não significa automaticamente que exista resistência.

No entanto, quando os escapes se repetem, especialmente envolvendo a mesma espécie e após aplicações realizadas corretamente, o cenário merece investigação.

“Quando começam a surgir escapes recorrentes, principalmente da mesma espécie e após aplicações realizadas corretamente, é necessário investigar. Continuar utilizando sucessivamente o mesmo mecanismo de ação pode aumentar ainda mais a pressão de seleção e tornar o problema mais complexo nas safras seguintes”, afirma Toledo.

A identificação adequada da causa dos escapes é importante para evitar que uma eventual falha de controle seja tratada apenas com o aumento da frequência de aplicações.

Três fatores influenciam a evolução da resistência

De acordo com o HRAC-BR, três fatores estão diretamente relacionados ao risco de evolução da resistência em uma população de plantas daninhas:

  • Pressão de seleção exercida pelo herbicida;
  • Frequência inicial dos genes associados à resistência;
  • Densidade da população da planta daninha.

A interação entre esses fatores pode determinar a velocidade com que indivíduos resistentes passam a representar uma parcela maior da população.

Por isso, o manejo da resistência precisa considerar não apenas o produto utilizado, mas todo o sistema de produção.

Repetição do mesmo mecanismo de ação aumenta a pressão de seleção

Entre as práticas que podem favorecer a evolução da resistência estão o uso sequencial do mesmo herbicida ou de produtos com o mesmo mecanismo de ação.

A ausência de rotação de culturas, a dependência exclusiva do controle químico e a permanência de plantas que escaparam do tratamento também podem contribuir para aumentar a pressão de seleção.

Quando sobreviventes permanecem na área e conseguem completar seu ciclo reprodutivo, existe a possibilidade de ampliar a presença das características associadas à resistência nas gerações seguintes.

O desafio, portanto, não está apenas em controlar a planta daninha na safra atual, mas também em evitar que indivíduos sobreviventes contribuam para aumentar o problema no futuro.

Rotação de culturas e mecanismos de ação ajudam no manejo

A diversificação é apontada como uma das estratégias para reduzir a pressão de seleção.

Nesse contexto, o manejo da resistência não deve considerar apenas a substituição do nome comercial de um herbicida ou a troca isolada de ingrediente ativo.

É necessário conhecer os mecanismos de ação disponíveis e estruturar programas de manejo que diversifiquem as ferramentas utilizadas ao longo do sistema produtivo.

“A recomendação é pensar a área como um sistema. Sempre que tecnicamente possível, devemos trabalhar com diferentes mecanismos de ação, planejar a rotação de ingredientes ativos e integrar ferramentas químicas a práticas culturais e mecânicas. Quanto maior a diversidade de estratégias, menor a dependência de uma única ferramenta de controle”, destaca Toledo.

A estratégia envolve, portanto, a combinação de diferentes métodos para diminuir a dependência de uma única forma de controle.

Manejo integrado reduz dependência do controle químico

A resistência de plantas daninhas não deve ser enfrentada exclusivamente com mais aplicações de herbicidas.

A proposta apresentada pelo especialista é integrar diferentes ferramentas de manejo, combinando estratégias químicas com práticas culturais e mecânicas.

A diversificação busca reduzir a pressão exercida continuamente sobre a população de plantas daninhas e, consequentemente, diminuir as condições que favorecem a seleção de indivíduos resistentes.

Esse planejamento precisa ser considerado ao longo das diferentes safras, e não apenas depois que uma falha de controle já ocorreu.

Por que aumentar as aplicações pode não resolver o problema?

O aumento do número de aplicações, isoladamente, não necessariamente elimina o risco de evolução da resistência.

Quando as aplicações continuam utilizando o mesmo mecanismo de ação, a pressão de seleção pode permanecer elevada. Dessa forma, indivíduos menos suscetíveis que sobrevivam aos tratamentos podem continuar contribuindo para a formação das gerações seguintes.

Para Toledo, compreender a origem genética da resistência muda a estratégia de enfrentamento do problema.

“Não existe uma solução baseada exclusivamente em aumentar o número de aplicações. O caminho está em reduzir a pressão de seleção e evitar que os indivíduos resistentes tenham condições de dominar a população. É um trabalho de planejamento que começa antes da aplicação e precisa continuar ao longo das safras”, conclui.

Resistência a herbicidas exige planejamento de longo prazo

O avanço dos casos de resistência no Brasil reforça a necessidade de uma abordagem integrada para o controle de plantas daninhas.

Com 61 casos confirmados envolvendo 29 espécies, o desafio envolve algumas das principais plantas daninhas encontradas nas lavouras brasileiras.

A genética natural das populações, associada à pressão de seleção provocada pelo uso repetitivo de determinados mecanismos de ação, ajuda a explicar a evolução do fenômeno.

Nesse cenário, o manejo da resistência passa pela diversificação das estratégias, rotação de mecanismos de ação, integração entre métodos de controle e eliminação adequada das plantas que escapam aos tratamentos.

Para o produtor rural, a principal preocupação deixa de ser apenas o controle imediato das plantas daninhas e passa a incluir a preservação da eficiência das ferramentas disponíveis para as próximas safras.

Fonte: Portal do Agronegócio

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