Importações de fertilizantes nitrogenados caem 20% e acendem alerta para a safrinha
Compras brasileiras de ureia, sulfato e nitrato de amônio registram o menor volume desde 2019, enquanto estoques avançam lentamente e riscos internacionais pressionam o mercado
Publicado em: 14/09/2026 às 20:00hs
A queda das importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados aumentou a preocupação com a recomposição dos estoques para as próximas safras. Entre janeiro e agosto de 2026, as compras externas de nitrogênio contido em ureia, sulfato de amônio e nitrato de amônio ficaram aproximadamente 20% abaixo do volume registrado no mesmo período de 2025.
De acordo com análise da StoneX, esse foi o menor resultado para os oito primeiros meses do ano desde 2019. O recuo ocorre justamente antes do período em que o Brasil costuma acelerar as aquisições dos insumos destinados, principalmente, ao plantio do milho safrinha.
Para Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, o ritmo atual exige atenção porque o País se aproxima da segunda safra de milho sem uma recuperação consistente dos estoques.
“Esse cenário acende um alerta para o mercado brasileiro, que está cada vez mais próximo da safrinha, enquanto a recomposição dos estoques de fertilizantes nitrogenados parece avançar em ritmo muito lento”, afirma.
Importações de ureia recuam 23% no Brasil
A ureia, principal fertilizante nitrogenado utilizado no mercado brasileiro, apresentou uma das maiores retrações. Entre janeiro e agosto, o Brasil importou aproximadamente 2,8 milhões de toneladas, queda de 23% em relação ao mesmo período de 2025.
No caso do nitrato de amônio, a redução chegou a 25% na comparação anual. As compras de sulfato de amônio também contribuíram para que o volume total de nitrogênio importado permanecesse abaixo dos anos anteriores.
Os números indicam que os importadores precisarão ampliar as contratações nos próximos meses para recompor os estoques e aproximar as aquisições dos níveis observados em outros ciclos.
Uma eventual concentração das compras em um intervalo mais curto, porém, pode elevar a concorrência por cargas, pressionar os preços e aumentar os riscos logísticos.
Compradores aguardam preços mais baixos
A desaceleração das importações pode estar relacionada à expectativa de condições mais favoráveis no mercado internacional. Parte dos compradores estaria adiando a contratação de cargas diante da possibilidade de aumento da oferta global e redução dos preços.
“Suspeita-se que os compradores brasileiros estejam aguardando condições mais favoráveis para realizar suas aquisições, buscando preços menores e um cenário menos turbulento para tomar suas decisões”, explica Pernías.
A estratégia pode gerar economia se as cotações recuarem, mas exige atenção aos prazos de transporte, desembarque, armazenamento e distribuição dos fertilizantes até as regiões produtoras.
Quanto mais próxima estiver a janela de aplicação, menor será a margem para enfrentar atrasos nos portos ou dificuldades na contratação de fretes.
Exportações de ureia da China podem aumentar
A possibilidade de a China ampliar as exportações de ureia está entre os principais fatores acompanhados pelos compradores brasileiros.
Uma nova rodada de embarques chineses aumentaria a disponibilidade do produto no comércio internacional e poderia exercer pressão negativa sobre as cotações. Esse cenário ajudaria importadores que ainda precisam garantir parte dos volumes destinados às próximas safras.
A eventual queda dos preços, entretanto, não está assegurada. Custos elevados de produção e riscos geopolíticos continuam oferecendo sustentação ao mercado de fertilizantes nitrogenados.
Estreito de Ormuz e gás natural pressionam nitrogenados
Entre os fatores de risco estão a redução do tráfego pelo Estreito de Ormuz e as incertezas relacionadas ao conflito e às negociações entre Estados Unidos e Irã.
A região tem importância estratégica para o transporte mundial de energia e fertilizantes. Restrições à navegação podem comprometer a disponibilidade de cargas, elevar os custos dos fretes marítimos e ampliar os prêmios de risco.
O mercado também acompanha a valorização do gás natural, uma das principais matérias-primas empregadas na fabricação de fertilizantes nitrogenados. O aumento do custo energético pode limitar a produção e reduzir o espaço para quedas mais expressivas nos preços.
A evolução do conflito durante o quarto trimestre será determinante para as condições de oferta e logística no mercado internacional.
Estados Unidos podem ampliar disputa por fertilizantes
Outro risco para os compradores brasileiros é a aproximação do período de recomposição dos estoques no Hemisfério Norte.
“Conforme os meses avançam, aproxima-se também o período de recomposição dos estoques para a próxima safra norte-americana”, destaca Pernías.
Caso os Estados Unidos e outros grandes consumidores intensifiquem as aquisições, a concorrência por ureia, sulfato de amônio e nitrato de amônio poderá aumentar. Esse movimento tende a reduzir a disponibilidade de cargas e fortalecer os preços.
O Brasil pode ficar mais exposto caso concentre suas compras no mesmo período, especialmente se os estoques internos permanecerem baixos.
Atraso nas compras eleva risco para a safrinha
O mercado brasileiro enfrenta uma decisão delicada. De um lado, aguardar pode permitir a contratação de fertilizantes a preços menores, sobretudo se a China ampliar suas exportações de ureia e o ambiente geopolítico apresentar melhora.
De outro, a demora aumenta a exposição a problemas logísticos, custos energéticos elevados e maior concorrência internacional. Também reduz o tempo disponível para que os produtos cheguem às propriedades antes das aplicações.
Para produtores e distribuidores, a estratégia de compra deverá considerar não apenas o preço internacional, mas também a disponibilidade física, o prazo de entrega e a necessidade nutricional das lavouras.
Com importações 20% menores e a safrinha se aproximando, a velocidade da recomposição dos estoques será um dos principais fatores para o mercado brasileiro de fertilizantes nitrogenados nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
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