Atraso nas compras de fertilizantes ameaça abastecimento e pode elevar custos para produtores brasileiros
Especialistas alertam que importações abaixo do esperado e concentração da demanda nos próximos meses podem pressionar logística, preços e disponibilidade de produtos essenciais para soja e milho.
Publicado em: 11/08/2026 às 16:00hs
O mercado brasileiro de fertilizantes entra em uma fase de atenção diante do ritmo mais lento das importações e da postergação das compras por parte dos produtores rurais. Especialistas alertam que a concentração da demanda nos próximos meses pode provocar gargalos no abastecimento, pressionar preços e dificultar a entrega de produtos dentro das janelas ideais de aplicação.
O alerta foi apresentado durante o Conexão SCA Brasil, realizado no dia 30 de julho, encontro que debateu os impactos da geopolítica, da logística internacional e do comportamento das importações sobre a cadeia de fertilizantes no Brasil.
Segundo analistas, o cenário exige maior planejamento por parte dos agricultores, principalmente para culturas de grande consumo de nutrientes, como soja e milho.
Importações de fertilizantes registram queda em 2026
De acordo com Marcelo Soto, Head de Operações e Inteligência de Suprimentos da SCA Brasil Aliança, apesar dos avanços na diversificação dos países fornecedores, o volume importado pelo Brasil segue abaixo do esperado para o período.
Dados apresentados no evento mostram que, entre janeiro e julho de 2026, as importações brasileiras recuaram em importantes produtos:
- Ureia: queda de 32% em relação ao mesmo período de 2025;
- MAP (fosfato monoamônico): redução de 24%;
- Nitrato de amônio: retração de 43%.
Para o especialista, o atraso nas aquisições pode gerar uma corrida de compradores em busca dos mesmos produtos, aumentando a pressão sobre fornecedores, portos e empresas responsáveis pela mistura e distribuição dos fertilizantes.
Concentração da demanda pode gerar gargalos logísticos
A principal preocupação do mercado é que muitos produtores deixem as compras para um período mais próximo da necessidade de uso.
“Quando um grande número de compradores entra ao mesmo tempo em busca dos mesmos produtos, a oferta se torna mais restrita, os fornecedores ampliam suas margens e cresce o risco de atrasos nas entregas”, explicou Soto.
Segundo ele, o problema pode ser mais significativo para produtos estratégicos utilizados nas próximas safras, especialmente nitrogenados, fosfatados e potássicos.
Além do risco de aumento dos preços, a concentração das compras pode comprometer a disponibilidade de determinados fertilizantes, principalmente aqueles que dependem de cadeias internacionais mais sensíveis.
Mercado internacional mantém preços pressionados
A especialista em Precificação de Agricultura e Fertilizantes da Argus Media, Renata Cardarelli, destacou que parte dos riscos geopolíticos já foi incorporada aos preços internacionais, mas ressaltou que os fertilizantes nitrogenados continuam altamente vulneráveis a mudanças no cenário global.
Segundo ela, a ureia permanece como um dos produtos mais voláteis do mercado.
“Em momentos de maior tensão internacional, os preços podem subir rapidamente, assim como recuar em curto espaço de tempo. Ainda assim, o cenário atual aponta para uma tendência de preços firmes”, avaliou.
Entre os fatores que influenciam o mercado global estão:
- conflitos no Oriente Médio;
- guerra entre Rússia e Ucrânia;
- políticas de exportação da China;
- leilões de compra realizados pela Índia;
- redução da oferta em grandes países produtores;
- custos logísticos internacionais.
Tensões geopolíticas aumentam riscos para importadores
Outro ponto de atenção envolve possíveis restrições ao transporte marítimo internacional, especialmente em rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz.
Segundo Renata, qualquer interrupção relevante no fluxo de cargas pode provocar impactos imediatos sobre fretes, disponibilidade de produtos e custos finais para países importadores, como o Brasil.
O mercado também acompanha o aumento das compras brasileiras para a segunda safra de milho, movimento que pode elevar a disputa por fertilizantes nos próximos meses.
Planejamento passa a ser estratégia para produtores
Diante do cenário de incertezas, especialistas recomendam que os produtores evitem decisões baseadas exclusivamente na expectativa de queda dos preços.
A orientação é adotar uma estratégia de gestão de risco, considerando:
- acompanhamento dos indicadores internacionais;
- análise das relações de troca entre produtos agrícolas e fertilizantes;
- avaliação antecipada da necessidade de compra;
- negociação com fornecedores capazes de garantir entrega fora dos períodos de maior pressão logística.
“O melhor momento para comprar fertilizantes não depende apenas da cotação do dia, mas da combinação entre planejamento, disponibilidade do produto e gestão de riscos”, afirmou Marcelo Soto.
Fertilizantes seguem como ponto estratégico para o agronegócio brasileiro
Com a dependência do Brasil das importações para atender grande parte da demanda interna, o mercado de fertilizantes continua sendo um dos pontos mais sensíveis para a competitividade do agronegócio nacional.
A capacidade dos produtores de antecipar decisões, monitorar o mercado e garantir o abastecimento será determinante para reduzir impactos sobre custos de produção e preservar a eficiência das próximas safras de grãos.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias