Soja sobe no Brasil e em Chicago, mas negócios seguem lentos com clima nos EUA e demanda chinesa no radar
Mercado da soja ganha força com resultados do Pro Farmer abaixo do esperado, compras da China e dólar mais fraco, enquanto preços internos avançam em importantes regiões produtoras
Publicado em: 20/08/2026 às 11:24hs
O mercado da soja iniciou a quinta-feira (20) sustentado por uma combinação de fatores internacionais e domésticos. Na Bolsa de Chicago (CBOT), os contratos futuros mantêm trajetória de alta pelo quarto pregão consecutivo, impulsionados principalmente pelas incertezas sobre o potencial produtivo da safra norte-americana, pelos resultados preliminares do Pro Farmer Crop Tour e pela demanda chinesa.
No Brasil, a valorização dos futuros em Chicago também favorece a formação das referências internas. Apesar disso, os negócios seguem em ritmo lento, com produtores e compradores adotando postura cautelosa diante das diferenças de preços entre regiões, dos custos logísticos, do câmbio e dos prêmios de exportação.
Soja avança em Chicago e supera US$ 12 por bushel
Na manhã desta quinta-feira, os contratos da soja operavam novamente em alta na CBOT. Por volta das 7h50, pelo horário de Brasília, os principais vencimentos registravam ganhos entre 3,25 e 4,75 pontos.
O contrato com vencimento em novembro era negociado próximo de US$ 12,41 por bushel, enquanto março de 2027 alcançava US$ 12,60 por bushel.
O movimento dá continuidade à forte valorização registrada na quarta-feira (19), quando a soja encerrou o pregão com ganhos superiores a 1%.
Na sessão anterior, o contrato novembro fechou a US$ 12,37 1/4 por bushel, alta de 20,50 centavos de dólar, equivalente a 1,68%. O vencimento janeiro terminou em US$ 12,51 1/4, avanço de 19,75 centavos, ou 1,60%.
Entre os derivados, o farelo também apresentou valorização expressiva. O contrato dezembro fechou a US$ 325,60 por tonelada, alta de US$ 6,80, enquanto o óleo de soja avançou 0,33 centavo, para 69,96 centavos de dólar por libra-peso.
Clima nos Estados Unidos mantém mercado em alerta
O principal combustível para a alta da soja em Chicago continua sendo o clima nas áreas produtoras dos Estados Unidos.
Chuvas intensas registradas em partes do Corn Belt aumentaram as dúvidas sobre o potencial produtivo das lavouras justamente em uma etapa importante para a definição das produtividades.
Os primeiros resultados do Pro Farmer Crop Tour reforçaram essa preocupação. Os levantamentos realizados em diferentes regiões indicaram números de produtividade e contagem de vagens abaixo dos registrados no ano anterior em algumas áreas importantes.
Em Illinois, um dos principais estados produtores de soja dos Estados Unidos, a contagem média chegou a 1.430,77 vagens por área de aproximadamente um metro quadrado, resultado 3,3% inferior ao levantamento realizado em 2025. Apesar da queda, o número ainda ficou acima da média dos três anos anteriores.
Em Iowa, outro estado estratégico para a produção norte-americana, também foram observadas contagens de vagens inferiores às registradas no ano passado em algumas das áreas avaliadas.
Os resultados preliminares do tour também chamaram atenção para o milho. Em estados visitados anteriormente, como Ohio, Dakota do Sul, Nebraska e Indiana, os números de produtividade ficaram abaixo dos observados na safra anterior e, em determinados casos, também abaixo das estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Mercado aguarda conclusão do Pro Farmer
Os participantes do mercado agora aguardam os resultados finais do Crop Tour para avaliar com maior precisão o potencial da safra norte-americana.
O relatório semanal de vendas para exportação do USDA, previsto para esta quinta-feira, também está entre os principais indicadores acompanhados pelos traders.
A combinação de clima, resultados de campo, demanda externa, derivados firmes e petróleo valorizado vem reduzindo a pressão vendedora sobre a oleaginosa e abrindo espaço para novas máximas nos contratos futuros.
Demanda chinesa também sustenta a soja americana
Além do clima, a demanda chinesa pela soja dos Estados Unidos contribui para o ambiente positivo em Chicago.
A China permanece como um dos principais compradores mundiais da oleaginosa, e sinais de manutenção ou aumento das compras ajudam a sustentar as cotações internacionais.
Outro fator favorável aos preços é o comportamento do dólar frente a outras moedas. Uma moeda americana mais fraca tende a melhorar a competitividade dos produtos agrícolas dos Estados Unidos no mercado internacional, favorecendo as exportações e dando suporte aos contratos negociados em Chicago.
Preços da soja sobem no mercado brasileiro
A valorização internacional começa a se refletir nas principais praças produtoras brasileiras. Entretanto, o ritmo de comercialização permanece limitado.
Segundo referências da TF Agroeconômica, o mercado físico apresentou valorização em importantes regiões na quarta-feira (19), mas as diferenças entre as praças continuam expressivas.
A logística, especialmente a distância até os portos, permanece como um dos principais componentes da formação dos preços.
Rio Grande do Sul registra novas altas
No Rio Grande do Sul, os preços voltaram a subir.
As referências indicadas foram:
- Ijuí: R$ 143,00 por saca;
- Cruz Alta: R$ 146,00;
- Santa Rosa: R$ 146,00;
- Passo Fundo: R$ 144,00;
- Porto de Rio Grande: R$ 153,00.
Com a safra 2025/26 já encerrada, o mercado gaúcho continua apresentando diferença relevante entre as referências do interior e do porto.
Essa distância de preços evidencia o peso da logística na formação das cotações e ajuda a explicar a cautela dos vendedores.
Paraná acompanha valorização da soja
No Paraná, o Departamento de Economia Rural (Deral) registrou valorização em praticamente todas as praças monitoradas.
As referências chegaram a:
- Cascavel: R$ 141,00 por saca;
- Maringá: R$ 143,00;
- Ponta Grossa: R$ 145,00;
- Paranaguá: R$ 152,50.
O indicador Cepea/Esalq Paranaguá acumula valorização de 4,65% em agosto, enquanto os contratos negociados na B3 também acompanharam o movimento positivo observado no mercado internacional.
A diferença entre os preços do interior e de Paranaguá, mais uma vez, evidencia a importância da logística e dos custos de transporte na composição da remuneração ao produtor.
Mato Grosso mantém mercado regionalizado
Em Mato Grosso, principal estado produtor de soja do Brasil, as cotações também avançaram, embora o comportamento permaneça regionalizado.
Segundo referências do Imea, os preços chegaram a:
- Rondonópolis: R$ 141,50 por saca;
- Campo Verde: R$ 140,50;
- Primavera do Leste: R$ 140,50.
A diferença entre algumas regiões do estado supera R$ 15 por saca, mostrando como a localização, a disponibilidade de transporte e a distância dos corredores de exportação continuam determinantes para o mercado.
Em Mato Grosso do Sul, Dourados e Maracaju apresentaram referências de R$ 142,50 por saca, enquanto Campo Grande, Chapadão do Sul e Sidrolândia ficaram em torno de R$ 141,00.
Santa Catarina mantém grande diferença entre interior e porto
Em Santa Catarina, não houve nova referência nominal pública verificável, permanecendo as cotações divulgadas anteriormente.
São Francisco do Sul estava em R$ 153,00 por saca, enquanto Palma Sola apresentava referência de R$ 130,50 e Rio do Sul, de R$ 130,00.
A diferença de aproximadamente R$ 19 por saca entre algumas localidades do interior e o porto demonstra novamente o impacto da logística sobre a formação dos preços.
Câmbio e prêmios continuam decisivos
Apesar da força de Chicago, o comportamento da soja brasileira não depende exclusivamente das bolsas internacionais.
O dólar, os prêmios de exportação, os custos de frete e a disponibilidade de produto nos diferentes polos produtores continuam sendo determinantes para definir quanto o produtor recebe pela saca.
Por isso, uma alta em Chicago pode não ser integralmente transferida para o mercado físico brasileiro, especialmente quando há pressão negativa em outros componentes da formação de preços.
Produtor mantém cautela nas vendas
O cenário atual favorece uma postura mais seletiva dos produtores brasileiros.
Com a soja em alta em Chicago e preços internos apresentando recuperação em importantes regiões, muitos vendedores preferem acompanhar a evolução do mercado antes de ampliar as negociações.
Ao mesmo tempo, compradores seguem atentos às margens de esmagamento, exportação e reposição, o que contribui para manter o volume de negócios abaixo do potencial em algumas praças.
Perspectivas para a soja
No curto prazo, clima nos Estados Unidos, resultados finais do Pro Farmer Crop Tour, vendas externas do USDA, demanda chinesa, dólar e petróleo devem continuar determinando o comportamento dos preços da soja.
Se os próximos levantamentos confirmarem perdas ou redução do potencial produtivo norte-americano, o mercado poderá manter o prêmio climático e sustentar os contratos em Chicago.
No Brasil, entretanto, a intensidade da transmissão dessa valorização para o produtor dependerá principalmente do câmbio, dos prêmios de exportação e das condições logísticas.
Para o agronegócio brasileiro, o cenário representa uma combinação de preços internacionais mais firmes e mercado físico ainda cauteloso, deixando a comercialização dependente da relação entre Chicago, dólar e disponibilidade regional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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