Soja sobe em Chicago e sustenta preços no Brasil, mas custos, frete e clima ameaçam rentabilidade da safra 2026/27
Demanda chinesa, menor disponibilidade no mercado interno e expectativa pelo relatório do USDA fortalecem as cotações, enquanto produtores enfrentam despesas de até R$ 5 mil por hectare, atraso das chuvas e riscos fitossanitários
Publicado em: 10/09/2026 às 11:40hs
O mercado da soja voltou a ganhar força nesta quinta-feira (10), sustentado pela recuperação dos contratos futuros na Bolsa de Chicago, pela demanda chinesa nos Estados Unidos e pela baixa disponibilidade do grão no mercado físico brasileiro. Apesar das cotações firmes, os custos de produção, o frete, as incertezas climáticas e a pressão de pragas colocam a rentabilidade da safra 2026/27 no centro das decisões dos produtores.
Na Bolsa de Chicago (CBOT), os principais vencimentos operavam em alta durante a manhã. O contrato novembro de 2026 chegou à região de US$ 13,20 por bushel, enquanto o vencimento maio de 2027, referência importante para a comercialização da nova safra brasileira, superava US$ 13,40 por bushel.
A valorização cria oportunidades para a fixação antecipada de preços, mas exige atenção às margens. Com despesas elevadas e crédito mais caro, o produtor precisa avaliar o custo total da lavoura antes de aproveitar as janelas de comercialização oferecidas pela combinação entre Chicago, dólar e prêmios de exportação.
Demanda da China fortalece soja em Chicago
A demanda permanece como um dos principais fatores de sustentação das cotações internacionais. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) informou vendas privadas de 340 mil toneladas de soja norte-americana para a China, além de outras 100 mil toneladas destinadas a compradores não revelados.
O mercado também acompanha as condições das lavouras no Meio-Oeste dos Estados Unidos. O tempo quente e seco em áreas produtoras aumentou as dúvidas sobre o potencial de rendimento, levando consultorias a revisar para baixo algumas projeções de produtividade.
Os investidores ajustam suas posições antes da divulgação do novo relatório mensal de oferta e demanda do USDA, prevista para sexta-feira (11), às 13h, no horário de Brasília. O documento poderá trazer alterações nas estimativas de produção, produtividade e estoques norte-americanos.
Além da soja em grão, milho, trigo e farelo de soja também registraram valorização, reforçando o movimento positivo das commodities agrícolas. A alta do petróleo, em meio às tensões no Oriente Médio, acrescentou suporte às cotações, ao mesmo tempo que ampliou a preocupação com custos logísticos e inflação global.
Pouca soja disponível sustenta preços no Brasil
No mercado brasileiro, a oferta restrita mantém os preços da soja em patamares elevados, principalmente nos portos. Segundo a Safras & Mercado, os produtores que ainda possuem estoques demonstram pouca disposição para vender e aguardam propostas mais atrativas.
A postura firme dos vendedores amplia a diferença entre os valores pedidos e as ofertas apresentadas pelos compradores. As indústrias de esmagamento enfrentam dificuldades para originar matéria-prima, cenário que mantém os diferenciais locais fortalecidos.
Em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, a saca de 60 quilos avançou de R$ 153,00 para R$ 153,50. Em Santa Rosa, também no território gaúcho, o preço passou de R$ 154,00 para R$ 154,50.
No Paraná, Cascavel registrou alta de R$ 149,00 para R$ 150,00 por saca, mesmo valor observado em Castro. Em outras regiões, as cotações apresentaram estabilidade: R$ 144,00 em Rondonópolis, no Mato Grosso; R$ 145,00 em Dourados, no Mato Grosso do Sul; e R$ 145,00 em Rio Verde, Goiás.
Nos portos, Paranaguá avançou de R$ 160,00 para R$ 161,00 por saca. Em Rio Grande, as referências passaram de R$ 161,00 para R$ 161,50, com negócios pontuais alcançando R$ 162,00.
Rio Grande do Sul mantém preços firmes
O Rio Grande do Sul permanece entre as praças mais valorizadas do Sul do País. A demanda das indústrias de esmagamento ajuda a sustentar as cotações, apesar dos impactos das geadas sobre culturas de inverno, especialmente trigo, milho e canola.
Para a safra 2026/27, a Emater projeta redução da área destinada à soja no estado, mas possibilidade de crescimento da produção. A expectativa considera a recuperação do rendimento por hectare e um cenário climático potencialmente menos prejudicial às lavouras.
Em Santa Catarina, a procura das fábricas de ração também oferece suporte ao mercado. No Paraná, entretanto, a falta de umidade ainda limita o avanço efetivo da semeadura em algumas áreas, mesmo com a abertura oficial do calendário de plantio prevista para 11 de setembro.
Custo da soja chega a R$ 5 mil por hectare em Mato Grosso do Sul
No Mato Grosso do Sul, o custo para implantar a lavoura de soja alcança aproximadamente R$ 5 mil por hectare. O aumento das despesas com fertilizantes, defensivos, sementes, máquinas e crédito reduz a margem de segurança da atividade.
Diante desse cenário, produtores ampliam o uso de instrumentos como contratos futuros, operações de barter e financiamentos para proteger o orçamento e assegurar a compra de insumos.
A valorização da soja, portanto, não representa automaticamente aumento da rentabilidade. O resultado financeiro depende da relação entre produtividade, preço de venda, custo por hectare e condições contratadas para o crédito e os insumos.
Frete amplia diferença entre interior e portos
Em Mato Grosso, a logística continua exercendo forte influência sobre a formação dos preços. A distância entre as regiões produtoras e os principais terminais de exportação pode gerar diferença próxima de R$ 30 por saca entre as cotações do interior e dos portos.
Essa disparidade limita o aproveitamento integral das altas externas pelo agricultor mato-grossense. Mesmo quando Chicago e os preços portuários avançam, parte da valorização é absorvida pelos custos de transporte.
O quadro pode se tornar ainda mais sensível diante das tensões geopolíticas, que elevam a volatilidade do petróleo, afetam os combustíveis e aumentam os riscos para as cadeias internacionais de suprimento.
Mosca-branca e calendário da safrinha exigem atenção
Além dos custos e da logística, produtores de Mato Grosso monitoram a presença da mosca-branca desde a germinação da soja. A ocorrência da praga nas fases iniciais pode exigir aplicações adicionais de inseticidas e elevar o custo de manejo.
O calendário também exerce pressão sobre as decisões. Em muitas propriedades, a soja precisa ser semeada e colhida dentro de uma janela específica para permitir o plantio posterior do milho safrinha ou do algodão.
A falta de chuva pode atrasar a implantação da oleaginosa e comprometer a segunda safra. Por outro lado, antecipar o plantio sem umidade adequada aumenta o risco de falhas na germinação e necessidade de replantio.
Dólar e cenário externo completam formação dos preços
O dólar comercial operava em alta de 0,19%, cotado a R$ 5,1204, enquanto o Dollar Index avançava 0,18%, aos 99 pontos. A valorização da moeda norte-americana reforça a competitividade das exportações brasileiras e contribui para sustentar as cotações em reais.
Nos mercados internacionais, as bolsas asiáticas encerraram o pregão sem direção única. O índice de Xangai caiu 0,43%, enquanto o Nikkei, do Japão, avançou 0,20%. Na Europa, Paris subia 0,18% e Frankfurt ganhava 0,11%, enquanto Londres recuava 0,29%.
O petróleo WTI para outubro era negociado a US$ 97,52 por barril, com valorização de 1,53%. O movimento refletia as preocupações com o Oriente Médio e seus possíveis impactos sobre a oferta de energia e o transporte global.
Alta abre janela de comercialização, mas produtor deve proteger margem
A recuperação da soja em Chicago, combinada com o dólar acima de R$ 5,10 e a oferta limitada no mercado interno, mantém aberta uma janela estratégica para a comercialização da safra 2026/27.
O ambiente, porém, exige cautela. Custos elevados, crédito restrito, fretes pressionados, riscos climáticos e possibilidade de aumento das despesas fitossanitárias podem reduzir o ganho proporcionado pela valorização da commodity.
A recomendação é que o produtor avalie a margem líquida e considere vendas escalonadas, travas de preços e operações de troca por insumos. Mais do que buscar a cotação máxima, o desafio será assegurar rentabilidade e reduzir a exposição às oscilações de Chicago, do câmbio e do clima ao longo da temporada.
Fonte: Portal do Agronegócio
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