Soja responsável: certificação cresce 80%, mas expansão depende de remuneração ao produtor
Marina Muscolo, diretora-executiva da RTRS, defende compromissos de compra, divisão dos custos e inclusão de pequenos agricultores para ampliar a produção certificada no mundo
Publicado em: 03/11/2026 às 13:30hs
A ampliação da produção de soja responsável depende de investimentos no campo acompanhados por remuneração, previsibilidade comercial e compromissos de compra. A avaliação é de Marina Muscolo, diretora-executiva da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS), que aponta a distribuição dos custos e benefícios da sustentabilidade como um dos principais desafios para expandir a certificação.
Segundo os dados apresentados pela entidade, o volume de soja certificada pela RTRS alcançou 11,2 milhões de toneladas em 2025, recorde que representa crescimento de 80% em relação a 2024. No mesmo período, o consumo de material certificado chegou a 8,1 milhões de toneladas, avanço de 8,1%.
Para Muscolo, os resultados demonstram capacidade de expansão, mas reforçam a necessidade de conectar o aumento da oferta ao reconhecimento dessas práticas pelos compradores.
Participação da soja certificada ainda é limitada
Apesar dos avanços tecnológicos, do aprimoramento do monitoramento ambiental e da criação de padrões de produção responsável, a certificação ainda alcança uma parcela restrita da soja produzida mundialmente.
Durante a Conferência Internacional da RTRS de 2026, o especialista em inovação e pensamento sistêmico Mark Stevenson apresentou a estimativa de que a soja certificada pelo padrão RTRS corresponde a aproximadamente 1,9% da produção global.
O percentual se refere especificamente à certificação RTRS. Embora existam outras iniciativas de sustentabilidade, Muscolo considera que o dado evidencia o desafio de ampliar o alcance das práticas verificadas de produção responsável.
Custos da certificação precisam ter retorno comercial
A obtenção e a manutenção da certificação exigem recursos para adequações nas propriedades, organização de documentos, auditorias e aperfeiçoamento da gestão.
Na avaliação da diretora-executiva, esses investimentos precisam resultar em benefícios concretos para quem produz. Compradores e indústrias, por sua vez, devem contribuir com remuneração e mecanismos que ofereçam maior previsibilidade para a continuidade das práticas certificadas.
O desafio, portanto, envolve criar condições comerciais para que o produtor consiga manter a certificação ao longo do tempo. Sem esse equilíbrio, o crescimento da oferta pode encontrar dificuldades para se consolidar.
Pequenos produtores são essenciais para ampliar a soja responsável
A inclusão de agricultores de menor escala ocupa posição central nessa discussão. Segundo a RTRS, mais de 90% dos produtores certificados pela organização são pequenos produtores, reunindo mais de 84 mil agricultores, principalmente na Índia e em Uganda.
Muscolo destaca a certificação em grupo como uma experiência que ajuda a ampliar o acesso. Ainda assim, defende a redução de barreiras e a adaptação dos mecanismos às diferentes condições de produção.
A expansão da soja responsável, nessa perspectiva, exige instrumentos que possam ser adotados por propriedades com distintos tamanhos, estruturas e capacidades de investimento.
Rastreabilidade precisa estar associada à verificação de práticas
As mudanças no comércio internacional também aumentam a importância da comprovação da origem da soja. Na análise de Muscolo, regulamentações como o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) ampliam a atenção sobre rastreabilidade e monitoramento das cadeias.
Imagens de satélite, bases geoespaciais e sistemas digitais contribuem para acompanhar alterações no uso da terra e identificar riscos. Entretanto, a executiva ressalta que o atendimento a exigências regulatórias, isoladamente, não assegura uma cadeia plenamente sustentável.
Para gerar resultados ambientais, sociais e econômicos, essas ferramentas precisam estar vinculadas a critérios confiáveis, processos de verificação e decisões efetivas. Nesse contexto, a certificação pode oferecer uma estrutura de avaliação das práticas produtivas e fortalecer a confiança entre fornecedores e compradores.
Cooperação na cadeia é caminho para ganhar escala
Com base na experiência acumulada pela RTRS ao longo de duas décadas, Muscolo defende que sustentabilidade e competitividade sejam trabalhadas de forma conjunta. A conservação dos recursos naturais, argumenta, está ligada à continuidade da atividade agrícola e à capacidade de adaptação dos negócios.
A executiva também destaca a necessidade de ampliar a cooperação entre produtores, empresas, instituições financeiras, varejistas e sociedade civil, com responsabilidades mais equilibradas entre os participantes.
Para ela, o próximo passo é transformar o crescimento da certificação em uma mudança estrutural: tornar a produção responsável mais acessível, economicamente viável e consolidada na cadeia global da soja.
Com base em análise de Marina Muscolo, diretora-executiva da Mesa Redonda da Soja Responsável (RTRS).
Fonte: Portal do Agronegócio
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