Preço da soja atinge maior nível desde 2023 com demanda da China e retenção de produtores
Indicadores do Cepea avançam aos maiores patamares nominais em mais de três anos, enquanto compras domésticas e externas sustentam o mercado; safra recorde nos EUA limita ganhos em Chicago
Publicado em: 24/08/2026 às 11:40hs
Os preços da soja ganharam força no mercado brasileiro, impulsionados pela demanda firme das indústrias, pela continuidade das compras chinesas e pela menor disposição dos produtores para negociar. O movimento levou os principais indicadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) aos maiores patamares nominais desde abril de 2023.
A valorização, entretanto, não provocou uma aceleração generalizada dos negócios. Produtores continuam seletivos, enquanto compradores tentam conciliar a necessidade de recompor estoques com pedidas mais elevadas. A distância entre os valores oferecidos e os pretendidos pelos vendedores mantém a comercialização limitada em diversas regiões.
No cenário externo, a soja iniciou a semana próxima da estabilidade na Bolsa de Chicago. A perspectiva de uma safra recorde nos Estados Unidos, estimada pela Pro Farmer em mais de 124 milhões de toneladas, limita os avanços. Por outro lado, as compras da China, as incertezas climáticas e a valorização do milho oferecem sustentação às cotações.
Indicadores da soja atingem maior nível desde abril de 2023
O Indicador CEPEA/ESALQ Paranaguá e o Indicador CEPEA/ESALQ Paraná alcançaram os maiores valores nominais diários desde abril de 2023.
Segundo o Cepea, a alta reflete o aquecimento simultâneo da demanda doméstica e externa. Indústrias brasileiras aumentaram as aquisições para recompor estoques e garantir matéria-prima, enquanto a China permanece ativa nas importações.
Ao mesmo tempo, a oferta disponível no mercado spot diminuiu. Parte dos produtores prefere aguardar novas altas antes de liberar volumes maiores, especialmente diante das incertezas sobre a oferta mundial na temporada 2026/27.
A possibilidade de impactos do El Niño sobre importantes regiões produtoras também fortalece a postura cautelosa dos vendedores.
Demanda chinesa sustenta mercado internacional
A China continua exercendo papel decisivo na formação dos preços da soja. Na semana anterior, o país adquiriu grandes volumes da safra nova dos Estados Unidos, surpreendendo parte dos participantes do mercado.
Os registros de vendas norte-americanas alcançaram aproximadamente 1,4 milhão de toneladas, com compradores chineses respondendo por cerca da metade desse volume.
Segundo informações acompanhadas pelo Grupo Labhoro, a China já teria adquirido aproximadamente 10 milhões de toneladas das 25 milhões de toneladas de soja mencionadas durante a última reunião bilateral entre os países.
A perspectiva de continuidade dessas compras ajuda a compensar as expectativas de elevada produção norte-americana e atua como fator de sustentação para os contratos futuros.
Pro Farmer projeta safra recorde de soja nos Estados Unidos
Na sexta-feira (21), após o fechamento dos mercados, a Pro Farmer divulgou sua estimativa nacional para a safra norte-americana de soja. O levantamento apontou a possibilidade de uma produção recorde, superior a 124 milhões de toneladas.
A contagem de vagens ficou abaixo dos níveis excepcionalmente elevados observados na temporada anterior. No entanto, a umidade adequada do solo pode favorecer o desenvolvimento das lavouras durante as etapas finais do ciclo.
Os números reforçaram a percepção de que os Estados Unidos poderão colher uma grande safra, ampliando a oferta internacional no último trimestre de 2026.
O resultado da Pro Farmer criou um contraponto às preocupações climáticas observadas durante a turnê pelas áreas produtoras. Algumas amostras coletadas ao longo da semana haviam indicado desempenho menos favorável, mas a projeção nacional final confirmou uma perspectiva robusta.
Soja perde força em Chicago após alta semanal
Depois de acumular valorização superior a 3% na semana anterior, a soja iniciou a segunda-feira (24) com pequenas perdas na Bolsa de Chicago.
Por volta das 7h30, os contratos recuavam entre 1 e 1,5 ponto. O vencimento novembro de 2026 era cotado próximo de US$ 12,38 por bushel, enquanto março de 2027 operava ao redor de US$ 12,57.
Mais tarde, novembro ampliou moderadamente as perdas e era negociado a US$ 12,34 por bushel, com queda próxima de 0,40%.
O movimento foi atribuído principalmente à realização de lucros depois dos ganhos recentes. A expectativa de grande produção nos Estados Unidos e a queda do petróleo também pressionaram as cotações.
Alta do milho limita perdas da soja
Embora a perspectiva de safra recorde pressione a soja, a valorização dos demais grãos impede uma queda mais acentuada.
Os contratos futuros do milho subiam quase 3% em Chicago depois que a Pro Farmer estimou uma produção norte-americana significativamente inferior à projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
O avanço do milho oferece sustentação indireta à soja por aumentar a competitividade entre as commodities, principalmente nas decisões de plantio e na composição das rações.
O trigo também operava em alta, influenciado pelas incertezas envolvendo a guerra entre Rússia e Ucrânia e pelos possíveis impactos sobre os embarques no Mar Negro.
Dólar e prêmios sustentam preços no Brasil
No mercado brasileiro, a valorização recente foi limitada pela queda do dólar observada na semana anterior. Nesta segunda-feira, a moeda norte-americana apresentava leve recuperação, mas encontrava dificuldade para superar a faixa de R$ 5,15.
O dólar comercial avançava 0,14%, cotado a R$ 5,1495. O Dollar Index, que compara a divisa norte-americana com uma cesta de moedas fortes, subia 0,11%, aos 98,981 pontos.
A valorização dos prêmios de exportação compensou parte da pressão cambial e manteve as referências firmes nos portos.
Segundo a Safras & Mercado, o basis — diferença entre o preço local e a referência de Chicago — permanece fortalecido. Mesmo assim, o spread entre as ofertas dos compradores e as pedidas dos vendedores continua elevado, restringindo a liquidez.
Negócios seguem limitados no mercado brasileiro
O mercado físico encerrou a semana anterior com preços firmes, mas baixo volume comercializado. Os produtores mantiveram uma postura seletiva, enquanto indústrias e exportadores evitaram acompanhar integralmente as pedidas.
A ausência de consenso sobre os preços reduz o número de negócios. Os vendedores enxergam potencial para novas altas, apoiados pela demanda chinesa, pelos prêmios e pelas incertezas climáticas.
Já os compradores consideram o tamanho das safras brasileira e norte-americana e procuram evitar aquisições concentradas após a recente valorização.
Com Chicago em realização de lucros e o dólar oscilando próximo da estabilidade, a tendência é de continuidade das negociações pontuais.
Soja alcança R$ 155 em Paranaguá
No levantamento da Safras & Mercado, a saca de 60 quilos avançou de R$ 153,50 para R$ 155 em Paranaguá, no Paraná.
No porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, a referência recuou de R$ 155 para R$ 154,50.
As diferenças entre os portos refletem prêmios, disponibilidade regional, custos logísticos, demanda dos exportadores e datas de embarque.
Levantamento da TF Agroeconômica apontou referências de R$ 154 em Paranaguá e de R$ 153 em Rio Grande na sexta-feira. As divergências resultam de horários, condições de pagamento, prazos de entrega e metodologias distintas de coleta.
Preços da soja avançam no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, as referências permaneceram firmes nas principais regiões produtoras.
Ijuí registrou alta de 0,69%, com a saca cotada a R$ 145. Cruz Alta e Santa Rosa apresentaram referências próximas de R$ 147, enquanto Passo Fundo ficou ao redor de R$ 145.
Outro levantamento indicou pequenas correções em algumas praças. Passo Fundo passou de R$ 147 para R$ 146,50, enquanto Santa Rosa recuou de R$ 148 para R$ 147,50.
As variações confirmam um mercado regionalizado, no qual prazo, qualidade, logística e destino da mercadoria alteram os valores efetivamente negociados.
Soja chega a R$ 154 em Santa Catarina
Em Santa Catarina, São Francisco do Sul avançou 0,65%, alcançando R$ 154 por saca.
Em Palma Sola, a cotação subiu 1,51%, para R$ 134,50. Rio do Sul permaneceu estável em R$ 133.
A diferença entre o porto e o interior está relacionada ao custo de transporte, à distância dos corredores de exportação e à demanda regional das indústrias.
Indicador do Paraná sobe para R$ 146,70
No Paraná, o Indicador CEPEA/ESALQ avançou 0,31%, chegando a R$ 146,70 por saca. O preço médio estadual calculado pelo Departamento de Economia Rural (Deral) subiu 0,74%, para R$ 132,73.
Em Cascavel, as referências variaram entre R$ 144 e R$ 145,50, conforme as condições consideradas nos diferentes levantamentos. A maior indicação representou valorização de 1,04%.
No porto de Paranaguá, as cotações ficaram entre R$ 154 e R$ 155 por saca.
Mato Grosso do Sul registra altas generalizadas
Os preços também avançaram em Mato Grosso do Sul. Dourados e Maracaju alcançaram R$ 144 por saca, com valorização de 1,05%.
Campo Grande e Chapadão do Sul chegaram a R$ 143, ambos com alta de 1,42%. Em Sidrolândia, a referência ficou em R$ 142,50.
Outro levantamento indicou R$ 135,50 em Dourados, diferença que pode estar relacionada a prazos, impostos, modalidade de entrega e período de negociação.
A capacidade de armazenagem permanece como fator relevante no estado. Em regiões com déficit de silos, como São Gabriel do Oeste, produtores podem enfrentar maior pressão logística e financeira para comercializar a produção.
Logística amplia diferenças em Mato Grosso
As oito praças de Mato Grosso acompanhadas pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) encerraram o período em alta.
Rondonópolis alcançou R$ 143 por saca, enquanto Campo Verde e Primavera do Leste registraram R$ 142. Em Sorriso, a referência ficou em R$ 138.
Levantamento realizado sob condições comerciais diferentes indicou R$ 138 em Rondonópolis. A distância entre os valores reforça a influência da localização, do frete, do prazo de entrega e do destino da soja.
Em Goiás, Rio Verde apresentou indicação próxima de R$ 138 por saca.
Estratégia recomenda venda escalonada da soja disponível
Diante da valorização, a estratégia sugerida pela TF Agroeconômica é evitar tanto a venda integral dos estoques quanto a manutenção de toda a produção sem proteção.
Para a soja da safra 2025/26, a indicação é comercializar inicialmente entre 20% e 30% do volume disponível. No Paraná, a faixa entre R$ 146 e R$ 148 por saca é apontada como referência para uma primeira rodada de vendas.
Entre R$ 150 e R$ 152, o produtor poderia negociar uma nova parcela. Caso os preços alcancem entre R$ 153 e R$ 155, a comercialização poderia ser ampliada.
Acima de R$ 155 por saca, a análise considera prudente realizar uma parcela importante dos estoques, preservando apenas o volume compatível com a capacidade financeira e de armazenagem da propriedade.
Nova safra exige mais cautela nas fixações
Para a soja da safra 2026/27, a recomendação é adotar maior paciência e limitar as vendas antecipadas a uma parcela entre 10% e 20%.
A comercialização poderia ser ampliada caso os contratos em Chicago superem US$ 12,50 por bushel. Uma nova etapa de fixação seria avaliada acima de US$ 12,70.
A estratégia busca proteger uma parte dos custos sem comprometer volume excessivo antes da definição da produtividade. Esse cuidado ganha importância diante dos riscos climáticos associados ao El Niño e das incertezas sobre custos, crédito e disponibilidade de insumos.
Cooperativas, exportadores e indústrias reforçam proteção
Para cooperativas, o cenário favorece compras seletivas combinadas com hedge e comercialização escalonada.
Cerealistas devem manter estoques moderados e giro mais rápido, evitando compras excessivas baseadas apenas na expectativa de continuidade da demanda chinesa.
Exportadores podem ampliar a originação, desde que protejam as margens e acompanhem os prêmios, o dólar e os custos logísticos.
Esmagadoras e indústrias tendem a elevar a cobertura gradualmente, avaliando de forma conjunta os mercados de soja em grão, farelo e óleo. A queda do petróleo, por exemplo, pode afetar o óleo de soja e a competitividade dos biocombustíveis.
Demanda sustenta soja, mas safra dos EUA limita avanço
O mercado da soja atravessa um momento de equilíbrio entre fundamentos positivos e fatores de pressão.
De um lado, a demanda chinesa, as compras das indústrias brasileiras, os prêmios de exportação e a retenção dos produtores sustentam os preços. As preocupações com o El Niño também reduzem o interesse dos vendedores em antecipar grandes volumes.
Do outro, a perspectiva de safra recorde nos Estados Unidos e a realização de lucros em Chicago limitam novas altas.
Nesse ambiente, a comercialização tende a permanecer seletiva. Vendas graduais e proteção de margens ganham importância diante de um mercado que oferece preços mais elevados, mas continua sujeito às oscilações do dólar, do clima, dos prêmios portuários e da demanda internacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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