Exportações de soja do Brasil devem atingir 114 milhões de toneladas em 2026, projeta ANEC
Safra recorde impulsiona embarques, mas custos elevados e restrição ao crédito acendem alerta sobre a rentabilidade do produtor e o ritmo de crescimento do agronegócio brasileiro
Publicado em: 07/08/2026 às 11:50hs
O Brasil segue consolidando sua posição como maior potência mundial na exportação de soja, mas o avanço da produção convive com um cenário cada vez mais desafiador para os produtores rurais. Apesar da expectativa de embarques recordes em 2026, a elevação dos custos de produção, as margens apertadas e a limitação do crédito rural podem reduzir o ritmo de expansão da agricultura brasileira nos próximos anos.
De acordo com o Informativo Mensal da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC), as exportações brasileiras de soja totalizaram 12,2 milhões de toneladas em julho, enquanto o line-up de agosto aponta embarques próximos de 9,7 milhões de toneladas, acompanhando o comportamento sazonal da comercialização e abrindo espaço para a intensificação das exportações da segunda safra de milho.
Nos sete primeiros meses de 2026, o país já embarcou 84,8 milhões de toneladas, volume superior às cerca de 80 milhões de toneladas registradas no mesmo período de 2025. Com uma safra estimada em mais de 180 milhões de toneladas, a ANEC mantém a projeção de 114 milhões de toneladas exportadas até o final do ano, consolidando um novo recorde para o setor.
Produção cresce, mas rentabilidade preocupa
Embora os números das exportações permaneçam robustos, a entidade destaca que o agronegócio enfrenta um ambiente econômico mais complexo do que nos últimos anos.
Segundo levantamento realizado pela ANEC em Mato Grosso, principal estado produtor de soja do país, o custo médio de produção atingiu aproximadamente US$ 423,31 por tonelada, enquanto a receita obtida com as exportações ficou em US$ 417,01 por tonelada. Ou seja, produzir soja para exportação passou a gerar margens negativas em diversas situações.
Na avaliação da entidade, o aumento do endividamento dos produtores, aliado à redução da disponibilidade de crédito e ao estreitamento das margens, tende a limitar a expansão da área cultivada e da produção nas próximas safras.
A ANEC ressalta que isso não significa interrupção do crescimento da agricultura brasileira, mas indica que a expansão dificilmente ocorrerá no mesmo ritmo observado ao longo da última década.
Milho ganha espaço nas exportações
Com o avanço da colheita da segunda safra, o fluxo logístico começa a migrar da soja para o milho.
Apesar de atrasos pontuais provocados pelas chuvas em algumas regiões, a colheita alcançou 69,1% da área nacional no início de agosto. Em estados como Mato Grosso, onde mais de 95% da safra já havia sido colhida, os resultados superaram as expectativas de produtividade. Já no Paraná, as geadas trouxeram preocupação, embora as lavouras tenham mantido boas condições gerais.
As exportações de milho somaram 2,9 milhões de toneladas em julho, enquanto o line-up de agosto prevê embarques próximos de 4,1 milhões de toneladas, volume que ainda poderá ser revisado ao longo do mês.
Mercado internacional sustenta preços da soja
O mercado externo também favoreceu a valorização da oleaginosa durante julho.
Segundo análise elaborada pela S&P Global Energy em parceria com a ANEC, os preços FOB da soja brasileira ultrapassaram US$ 500 por tonelada, alcançando os maiores níveis em mais de dois anos e meio.
O movimento foi impulsionado pela alta dos contratos futuros negociados na Bolsa de Chicago, pela firmeza dos prêmios nos portos brasileiros e pela forte demanda internacional, especialmente da China. Entretanto, as margens negativas das indústrias chinesas de esmagamento limitaram parte das compras ao longo do mês, reduzindo a liquidez em determinados períodos.
Além da demanda consistente, preocupações climáticas sobre a safra norte-americana deram sustentação aos preços internacionais da soja, enquanto os prêmios nos portos brasileiros permaneceram elevados, reforçando a competitividade do produto nacional no mercado global.
Indústria de processamento enfrenta margens negativas
Se, por um lado, o mercado exportador foi beneficiado pela valorização dos preços, por outro, a indústria brasileira de processamento de soja segue enfrentando dificuldades.
A elevação do custo da matéria-prima, somada à forte concorrência das exportações, reduziu a rentabilidade das esmagadoras nacionais. O relatório cita inclusive discussões sobre antecipação de paradas de manutenção em algumas unidades devido às margens consideradas insuficientes.
Analistas da S&P Global Energy avaliam que as margens futuras permanecem negativas e podem limitar o crescimento do processamento de soja no Brasil durante a temporada 2025/26.
China segue como principal destino da soja brasileira
No comércio internacional, a China permanece amplamente como o maior comprador da soja brasileira.
Entre janeiro e julho de 2026, o país asiático respondeu por 71% das exportações nacionais da oleaginosa. Espanha, Tailândia, Turquia, Irã, Paquistão, México e Vietnã aparecem na sequência entre os principais destinos do produto brasileiro.
Perspectivas para o restante de 2026
A expectativa da ANEC permanece positiva para as exportações brasileiras de grãos ao longo do segundo semestre, sustentadas pela elevada disponibilidade de soja, pelo avanço da comercialização do milho safrinha e pela continuidade da demanda internacional.
Entretanto, a entidade reforça que o principal desafio para o agronegócio brasileiro não está na capacidade de produzir ou exportar, mas na recuperação da rentabilidade do produtor rural. O aumento dos custos, o endividamento e as restrições ao crédito podem comprometer novos investimentos e reduzir o ritmo de crescimento da produção nas próximas safras, tornando a eficiência econômica um dos temas centrais para a competitividade do setor.
Fonte: Portal do Agronegócio
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