Safra de milho de Mato Grosso bate recorde de 58 milhões de toneladas, mas produção pode cair 7,5% em 2026/27
Área maior e produtividade elevada impulsionaram a colheita de 2025/26; para o próximo ciclo, El Niño ameaça janela de plantio, enquanto consumo das usinas de etanol deve superar exportações pela primeira vez
Publicado em: 02/09/2026 às 10:30hs
A produção de milho de Mato Grosso alcançou o recorde de 58,04 milhões de toneladas na safra 2025/26, consolidando o estado como principal referência nacional no cultivo do cereal. O volume representa crescimento de 4,69% em relação às 55,43 milhões de toneladas colhidas na temporada anterior.
Os dados foram consolidados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) no novo relatório de Oferta e Demanda. O desempenho histórico foi sustentado pela ampliação da área plantada, pelas condições climáticas favoráveis e pelo avanço da produtividade média das lavouras.
Para a safra 2026/27, entretanto, o cenário é mais cauteloso. Embora a área destinada ao milho possa registrar novo crescimento, a produtividade e a produção tendem a recuar diante dos riscos associados ao El Niño, à janela de semeadura e à possibilidade de menor disponibilidade de chuvas.
Área plantada e produtividade garantem safra recorde de milho
A área cultivada com milho em Mato Grosso chegou a 7,43 milhões de hectares na temporada 2025/26, avanço de 2,41% sobre a safra anterior. A produtividade média foi consolidada em 130,11 sacas por hectare, crescimento de 2,23% na comparação com as 127,27 sacas por hectare obtidas em 2024/25.
A combinação entre expansão da área e maior rendimento permitiu que o estado acrescentasse aproximadamente 2,61 milhões de toneladas à produção anual.
Segundo o analista de milho do Imea, Gabriel Brandão, o resultado demonstra a capacidade produtiva das lavouras mato-grossenses e reflete as boas condições registradas durante o ciclo.
“Tivemos uma combinação bastante favorável nesta temporada, com aumento de área e uma produtividade acima da observada no ciclo anterior. Isso permitiu que Mato Grosso atingisse um novo recorde de produção”, explica.
Chuvas prolongadas favoreceram desenvolvimento das lavouras
A colheita do milho segunda safra 2025/26 foi encerrada em Mato Grosso no dia 21 de agosto. O prolongamento das chuvas nas principais regiões produtoras favoreceu o desenvolvimento das plantas e o enchimento dos grãos.
Apesar de perdas pontuais em áreas semeadas fora da janela considerada ideal, o desempenho geral das lavouras foi suficiente para elevar a produtividade estadual e conduzir a produção a um novo recorde.
O resultado reforça a importância do clima para o milho segunda safra, cultivado majoritariamente depois da colheita da soja. Alterações no calendário da oleaginosa podem reduzir o período disponível para a implantação do cereal e ampliar a exposição das lavouras à estiagem.
Produção de milho pode recuar para 53,68 milhões de toneladas
A primeira projeção do Imea para a safra 2026/27 indica aumento moderado de 0,59% na área plantada, que deverá alcançar 7,48 milhões de hectares. O crescimento, entretanto, pode não ser suficiente para evitar a redução da produção.
A produtividade média foi estimada inicialmente em 119,64 sacas por hectare, queda de 8,05% diante do resultado obtido em 2025/26. Caso essa previsão se confirme, Mato Grosso deverá colher 53,68 milhões de toneladas, recuo de 7,50% em relação ao recorde da temporada atual.
A projeção mais conservadora considera os riscos climáticos e os possíveis impactos do El Niño sobre o calendário agrícola do estado.
El Niño pode encurtar janela do milho segunda safra
A eventual atuação do El Niño aparece como um dos principais fatores de atenção para os produtores. O fenômeno pode alterar o regime de chuvas e atrasar o plantio da soja, cultura que antecede o milho segunda safra em grande parte das propriedades de Mato Grosso.
Um ciclo mais longo da soja reduziria o intervalo disponível para semear o milho dentro da janela ideal. O atraso elevaria a possibilidade de as lavouras enfrentarem temperaturas mais altas e menor disponibilidade hídrica durante fases importantes, como florescimento e enchimento dos grãos.
“Para a próxima safra, o produtor precisa estar mais atento ao planejamento. Um eventual atraso na soja pode encurtar a janela do milho e, posteriormente, uma antecipação do fim das chuvas, acompanhada de temperaturas elevadas, pode aumentar o risco de estresse hídrico. Por isso, neste primeiro momento, trabalhamos com uma perspectiva de produtividade mais conservadora”, afirma Brandão.
Etanol de milho transforma mercado de Mato Grosso
Além dos desafios produtivos, o mercado mato-grossense passa por uma mudança estrutural com a expansão das indústrias de etanol de milho. A demanda das usinas está ampliando o processamento local e reduzindo a dependência dos embarques internacionais para absorver a produção estadual.
Na safra 2025/26, o consumo interno de milho em Mato Grosso foi estimado em 23,27 milhões de toneladas. Para 2026/27, a projeção alcança 27,04 milhões de toneladas, crescimento de 16,23%.
Se a estimativa for confirmada, o consumo dentro do estado ultrapassará as exportações pela primeira vez. O movimento representa uma mudança importante na destinação do milho produzido em Mato Grosso.
“O milho produzido no estado está encontrando cada vez mais espaço dentro de Mato Grosso. A expansão da indústria cria uma demanda interna mais firme e muda a relação entre o que é destinado ao mercado doméstico e o que segue para exportação”, destaca o analista.
Exportações de milho podem cair mais de 27%
Enquanto o processamento interno avança, as exportações de milho de Mato Grosso devem diminuir. O Imea estima que os embarques passem de 24,10 milhões de toneladas em 2025/26 para 17,50 milhões de toneladas na safra 2026/27.
A redução projetada é de 27,39%, equivalente a aproximadamente 6,60 milhões de toneladas. Parte dessa queda está relacionada ao aumento da demanda das usinas de etanol, mas a perspectiva de menor produção também deve limitar a disponibilidade para o mercado externo.
O redirecionamento do cereal para a indústria estadual pode fortalecer a demanda regional, influenciar os preços e alterar as estratégias de comercialização dos produtores.
Estoques de milho devem ficar 55,77% menores
A combinação de menor produção, avanço do consumo interno e redução das exportações tende a deixar os estoques mais apertados ao final da próxima temporada.
Para 2026/27, o Imea projeta estoque final de 285,08 mil toneladas, volume 55,77% inferior ao estimado para o encerramento da safra 2025/26.
A disponibilidade mais enxuta pode aumentar a sensibilidade dos preços a problemas climáticos, atrasos no plantio ou mudanças na demanda industrial. O cenário também exige atenção redobrada no planejamento da comercialização e na contratação antecipada de insumos.
“Estamos entrando em uma temporada em que a oferta tende a ser menor, enquanto a demanda interna continua crescendo. Esse cenário reforça a necessidade de acompanhamento do mercado, tanto por parte do produtor quanto dos demais agentes da cadeia”, conclui Gabriel Brandão.
Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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