Etanol de milho transforma mercado brasileiro e consumo deve atingir 27 milhões de toneladas
AgroInfo 2026, do Rabobank, aponta demanda doméstica recorde, exportações menores e preços sustentados; El Niño e expansão do setor de biocombustíveis elevam incertezas para a safra 2026/27
Publicado em: 31/08/2026 às 20:00hs
O crescimento acelerado do consumo doméstico está redesenhando o mercado brasileiro de milho. Mesmo com a produção praticamente estável na safra 2025/26, a demanda das indústrias de etanol, aves e suínos continua avançando e ocupa um espaço cada vez maior no balanço nacional do cereal.
A indústria de etanol de milho aparece como principal vetor dessa transformação. O setor deverá consumir aproximadamente 27 milhões de toneladas do grão em 2026, volume equivalente a cerca de 20% de toda a produção brasileira.
A análise faz parte da edição de agosto do AgroInfo 2026, relatório elaborado pelo RaboResearch, área de inteligência e pesquisa do Rabobank. Segundo o banco, a nova dinâmica reduz a disponibilidade para exportação, fortalece os preços internos e aumenta a importância da próxima safra para o abastecimento nacional.
Produção brasileira de milho deve ficar estável
A produção de milho na safra 2025/26 deverá permanecer praticamente estável em relação ao ciclo anterior.
Embora a oferta não apresente crescimento relevante, o consumo interno continua renovando recordes. Essa diferença altera a composição do balanço brasileiro e amplia a disputa pelo grão entre fábricas de ração, usinas de etanol e exportadores.
O mercado doméstico tende a assumir maior protagonismo na formação dos preços. Com mais compradores disputando o milho dentro do país, as cotações passam a depender menos exclusivamente da paridade de exportação.
Esse movimento representa uma mudança estrutural no setor e deverá continuar influenciando as decisões de comercialização dos produtores.
Aves e suínos devem consumir 72 milhões de toneladas
As cadeias de aves e suínos permanecem como os principais destinos do milho no mercado interno, utilizando o cereal como base para a produção de ração animal.
O RaboResearch estima que esse segmento deverá consumir 72 milhões de toneladas em 2026, crescimento de quase 2% na comparação com o ano anterior.
A expansão da produção brasileira de carnes mantém a demanda por ração aquecida e garante um fluxo regular de compras. Essa necessidade reduz a disponibilidade de milho para outros segmentos e contribui para sustentar as cotações nas principais regiões consumidoras.
O desempenho das exportações de carnes também influencia diretamente o mercado do cereal, pois um aumento dos embarques tende a elevar a demanda por alimentação animal.
Etanol de milho amplia demanda em 2 milhões de toneladas
O avanço mais expressivo do consumo doméstico vem das usinas de etanol de milho.
Somente no primeiro semestre de 2026, a indústria utilizou 12,5 milhões de toneladas do cereal, crescimento de 2 milhões de toneladas em relação ao mesmo período de 2025.
Até o final do ano, a demanda do setor deverá alcançar cerca de 27 milhões de toneladas. O volume corresponde a aproximadamente um quinto da produção nacional e confirma a importância crescente do biocombustível para o mercado de grãos.
A expansão das usinas cria uma fonte permanente de consumo, especialmente nas regiões próximas às áreas produtoras. Além do etanol, as unidades geram coprodutos destinados à alimentação animal, ampliando a integração entre os setores de grãos, energia e proteína animal.
Consumo interno reduz competitividade das exportações
O fortalecimento da demanda doméstica altera a relação entre os preços praticados no Brasil e a paridade de exportação.
Com o milho valorizado no mercado interno, os exportadores encontram maior dificuldade para competir em alguns destinos internacionais. A menor competitividade deverá limitar os embarques brasileiros ao longo de 2026.
O Rabobank projeta redução de aproximadamente 3 milhões de toneladas nas exportações de milho em relação ao ano anterior.
Os volumes embarcados durante o primeiro semestre já indicavam essa desaceleração. A tendência é que uma parcela maior da produção permaneça no Brasil para atender às indústrias de ração e etanol.
Estoques de milho devem apresentar leve recuperação
A redução das exportações deverá permitir uma pequena recomposição dos estoques finais brasileiros na comparação com 2025.
Esse aumento, porém, não elimina as preocupações relacionadas ao abastecimento. O consumo doméstico continua crescendo, enquanto a produção apresenta estabilidade e a próxima safra enfrenta riscos climáticos.
A situação exige atenção porque uma eventual quebra de produção pode reduzir rapidamente essa margem de segurança. O mercado deverá acompanhar o avanço da demanda e as condições de plantio da safra 2026/27.
El Niño pode atrasar plantio do milho safrinha
A elevada possibilidade de ocorrência do El Niño está entre os principais riscos para a próxima temporada.
O fenômeno pode atrasar o início das chuvas e postergar o plantio da soja. Como grande parte do milho safrinha é semeada após a colheita da oleaginosa, qualquer atraso no primeiro cultivo tende a reduzir a janela ideal para a implantação do cereal.
O plantio tardio aumenta a exposição das lavouras a períodos de menor disponibilidade hídrica, especialmente durante as fases de floração e enchimento dos grãos. Também pode ampliar os riscos de frio ou geadas em determinadas regiões.
Esse cenário ganha relevância diante da expectativa de continuidade do crescimento da demanda, sobretudo das indústrias de etanol no primeiro semestre de 2027.
Preço do milho resiste mesmo com avanço da colheita
As cotações do milho apresentaram resistência apesar do avanço acelerado da colheita da segunda safra, período normalmente marcado por maior pressão de oferta.
Segundo dados do Cepea citados no relatório, os preços na região de Campinas, em São Paulo, ficaram em agosto de 2026 2% acima dos valores registrados no mesmo período do ano anterior.
O comportamento indica que a demanda doméstica está absorvendo uma parcela relevante da produção e limitando a pressão sazonal sobre o mercado.
Para os próximos meses, o Rabobank projeta preços sustentados pelo crescimento estrutural do consumo e pelas incertezas relacionadas ao clima na safra 2026/27.
El Niño pode afetar logística de exportação pelo Arco Norte
Os possíveis impactos do El Niño não estão restritos às lavouras. O fenômeno também pode comprometer a logística brasileira de exportação de grãos.
O relatório alerta para o risco de redução do nível e do calado de rios estratégicos utilizados no transporte de milho. Caso o cenário se confirme, a capacidade operacional do Arco Norte poderá ser afetada.
Restrições à navegação podem limitar os embarques, elevar os custos logísticos e aumentar o tempo necessário para transportar o cereal até os terminais portuários.
Embora a exportação deva perder espaço em 2026, dificuldades logísticas ainda podem provocar impactos regionais sobre preços, armazenagem e comercialização.
Guerra na Ucrânia adiciona pressão de alta ao milho
O mercado internacional também permanece atento aos ataques russos contra estruturas de transporte e armazenamento de grãos na Ucrânia.
Os danos aumentam as incertezas sobre a capacidade ucraniana de exportar milho e outros produtos agrícolas. Como o país ocupa uma posição relevante no comércio mundial, qualquer redução dos embarques pode alterar os fluxos internacionais e sustentar as cotações.
Esse fator adiciona um viés de alta ao mercado e pode beneficiar as exportações brasileiras caso a oferta da Ucrânia seja comprometida.
O impacto dependerá da evolução do conflito, da disponibilidade de rotas alternativas e do comportamento dos demais grandes produtores.
Mercado de milho entra em nova fase no Brasil
O cenário apresentado pelo AgroInfo 2026 mostra que o mercado brasileiro de milho passa por uma transformação estrutural.
A produção continua elevada, mas a demanda interna cresce em ritmo mais acelerado. A indústria de etanol deverá consumir 27 milhões de toneladas em 2026, enquanto as cadeias de aves e suínos devem utilizar 72 milhões de toneladas.
Esse avanço reduz o excedente disponível para exportação e fortalece o mercado doméstico. Ao mesmo tempo, o El Niño, o risco de atraso no plantio da safrinha, possíveis restrições logísticas no Arco Norte e as tensões na Ucrânia mantêm elevada a volatilidade.
Nesse ambiente, decisões relacionadas à comercialização, armazenagem e gestão de custos ganham importância para produtores, cooperativas, consumidores e exportadores de milho.
Fonte: Portal do Agronegócio
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