Vinícola do RS usa aspersão de água para proteger videiras contra geadas tardias
Sistema automatizado forma uma camada de gelo protetora sobre as gemas e ajuda a reduzir danos durante a brotação, fase decisiva para o potencial produtivo da próxima safra de uva
Publicado em: 08/09/2026 às 13:00hs
As baixas temperaturas registradas no Rio Grande do Sul elevaram o alerta entre os viticultores. O frio ocorre em um período particularmente sensível para os vinhedos, quando as videiras começam a brotar e ficam mais expostas aos danos provocados pelas geadas tardias.
Para proteger as gemas responsáveis pela formação dos futuros cachos, produtores recorrem a diferentes estratégias de manejo. Em Monte Belo do Sul, na Serra Gaúcha, a Casa Marques Pereira utiliza um sistema automatizado de aspersão de água instalado em 2024, além do apoio de tratores durante as madrugadas de maior risco.
A tecnologia produz uma névoa formada por pequenas gotas de água sobre as plantas. Quando ocorre o congelamento, uma camada de gelo envolve os tecidos jovens e ajuda a manter a temperatura próxima de 0 °C, evitando que as gemas sejam expostas a condições ainda mais severas.
Brotação antecipada aumenta vulnerabilidade das videiras
Antes do início da brotação, as gemas das videiras apresentam maior resistência às baixas temperaturas. Essa condição muda quando começam a surgir os primeiros tecidos verdes, mais suscetíveis ao congelamento.
De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o frio intenso pode provocar danos irreversíveis em folhas, brotos, ramos e estruturas reprodutivas. Dependendo da intensidade e da duração da geada, as perdas podem comprometer a formação dos cachos e reduzir o potencial produtivo da safra.
Na Casa Marques Pereira, o risco foi ampliado pelas ondas de calor registradas no final de julho. As temperaturas elevadas anteciparam a brotação das videiras, deixando as plantas mais vulneráveis à ocorrência posterior de geadas.
O cenário exige monitoramento constante das condições meteorológicas e rapidez para acionar os mecanismos de proteção antes que a temperatura alcance níveis críticos.
Como a água protege as videiras contra a geada?
Embora o uso de água durante uma noite de geada possa parecer contraditório, o método é baseado em um princípio físico conhecido como liberação de calor latente.
Quando a água aplicada sobre a videira congela, ela libera calor. Esse processo mantém a mistura de água e gelo próxima de 0 °C e reduz a possibilidade de os tecidos vegetais atingirem temperaturas ainda mais baixas.
Para que a proteção funcione, entretanto, a aplicação deve ser contínua durante todo o período crítico. Enquanto houver água líquida congelando sobre a planta, o calor liberado ajuda a proteger as estruturas mais sensíveis.
Se a aspersão for interrompida antes da elevação da temperatura, o efeito pode ser perdido e os tecidos vegetais ficam novamente expostos ao congelamento.
Camada de gelo funciona como proteção para as gemas
O sistema automatizado instalado na vinícola gaúcha distribui gotículas finas sobre as videiras. Ao entrarem em contato com as gemas, elas congelam e formam uma camada protetora ao redor dos tecidos.
“Os aspersores fazem uma névoa de água com gotículas bem finas. Quando essas gotículas chegam à gema, formam algo similar a um ‘iglu’, que protege a gema das videiras de queimar”, explica Felipe Marques Pereira, vinhateiro e empresário responsável pela Casa Marques Pereira.
Além da aspersão, a propriedade utiliza tratores como apoio às operações realizadas nas noites de maior risco. A combinação das estratégias amplia a capacidade de resposta da vinícola diante das diferentes condições de frio observadas nos vinhedos.
Geada após o inverno pode comprometer toda a safra de uva
O frio exerce uma função importante no ciclo da videira. Durante o inverno, a planta permanece em dormência e acumula as horas de frio necessárias para retomar seu desenvolvimento e iniciar uma nova brotação.
O maior risco surge quando as temperaturas voltam a cair após o aparecimento das gemas e dos primeiros tecidos verdes. Nessa fase, poucas horas de frio intenso podem causar prejuízos com reflexos durante todo o ciclo produtivo.
Além da temperatura mínima, a extensão dos danos depende do estágio de desenvolvimento das plantas, da duração da geada, da umidade e das características de cada área.
Por isso, o manejo preventivo e o acompanhamento das previsões meteorológicas tornam-se fundamentais. Tecnologias como a aspersão automatizada ajudam a reduzir os riscos, proteger a brotação e preservar o potencial produtivo dos vinhedos diante de eventos climáticos cada vez mais desafiadores.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias