Nutrição contínua do cacau reduz perdas e aumenta eficiência da adubação em períodos de chuva e veranico
Alternância climática, diferentes fases produtivas na mesma planta e dificuldade de acesso às lavouras reforçam a necessidade de manter os nutrientes disponíveis ao cacaueiro ao longo do ciclo
Publicado em: 20/08/2026 às 10:20hs
A nutrição contínua ganha importância no manejo do cacau diante dos desafios provocados pela alternância entre chuvas intensas e períodos de veranico. Como o cacaueiro pode apresentar flores, frutos em formação e diferentes estágios de desenvolvimento simultaneamente, o fornecimento equilibrado de nutrientes ao longo do ciclo é considerado estratégico para elevar a produtividade e preservar o potencial produtivo das lavouras.
A necessidade de aprimorar a adubação torna-se ainda mais relevante diante das perspectivas para a produção nacional. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil deve colher 324,2 mil toneladas de cacau em 2026. A Bahia deverá responder por 137,4 mil toneladas, equivalentes a 42,4% do volume nacional.
A cacauicultura baiana atravessa um processo de recuperação e aumento da produtividade, apoiado pela adoção de tecnologias, pelo controle fitossanitário e por práticas mais sustentáveis. Embora o Sul da Bahia permaneça como principal região tradicional de cultivo, novas áreas produtoras avançam em outras partes do estado.
Clima interfere na disponibilidade dos nutrientes
A alternância entre períodos de elevada precipitação e intervalos prolongados com pouca chuva afeta diretamente a eficiência da adubação. Em épocas chuvosas, determinados nutrientes podem ser perdidos, deslocados para camadas mais profundas do solo ou permanecer indisponíveis para as raízes.
O nitrogênio, por exemplo, está sujeito a perdas por lixiviação e volatilização. O potássio pode ser transportado para outras camadas do perfil do solo pela movimentação da água. Já o fósforo apresenta baixa mobilidade e pode ter sua disponibilidade limitada por processos de fixação.
Esse cenário exige que o planejamento nutricional vá além da simples aplicação do fertilizante. O objetivo deve ser garantir que os elementos permaneçam disponíveis e sejam absorvidos nos períodos de maior necessidade fisiológica da planta.
“Quando fazemos a aplicação, o objetivo não deve ser apenas colocar o nutriente no solo, mas garantir que ele permaneça disponível para a planta. Em uma região em que podemos ter muita chuva em determinado período e depois passar um ou dois meses com pouca precipitação, essa eficiência faz muita diferença”, explica o engenheiro agrônomo Alan Veloso, da ICL.
Cacaueiro demanda nutrientes durante diferentes fases
Uma característica do cacau é a ocorrência simultânea de diferentes fases de desenvolvimento. Na mesma planta, podem existir frutos em formação, florescimento e outros processos fisiológicos que exigem energia e nutrientes.
Por isso, concentrar toda a adubação em um único período pode não atender adequadamente às necessidades do cultivo. O fornecimento precisa acompanhar o comportamento da planta e considerar que a demanda permanece ativa entre as principais colheitas.
“O cacau tem uma particularidade importante: diferentes fases de desenvolvimento podem ocorrer simultaneamente na planta. Enquanto há frutos em desenvolvimento, outros processos fisiológicos também estão acontecendo. Por isso, não basta concentrar a oferta de nutrientes em um único momento. A planta precisa de uma nutrição contínua e equilibrada”, afirma Veloso.
A cultura apresenta duas colheitas de maior concentração: a temporã e a safra principal, realizada no segundo semestre. No entanto, a necessidade de nutrientes não termina após uma dessas etapas, pois o cacaueiro continua sustentando novos ciclos produtivos.
Adubação do cacau é concentrada em duas janelas
No Sul da Bahia, as adubações costumam ser realizadas em duas épocas principais: entre fevereiro e março e entre agosto e setembro. O calendário acompanha o regime de chuvas e a sequência das principais colheitas.
A concentração das aplicações também está relacionada às características das propriedades. Muitas lavouras estão instaladas em terrenos inclinados, com dificuldade de mecanização e acesso restrito. Nessas condições, cada entrada adicional representa maior demanda de mão de obra, tempo e custos operacionais.
O planejamento precisa, portanto, combinar eficiência agronômica e viabilidade operacional. Se o produtor realiza duas aplicações principais por ano, a estratégia nutricional deve buscar formas de manter os nutrientes disponíveis durante os intervalos.
“Existe uma tradição de manejo muito forte na região, construída ao longo de décadas pelos produtores. Ao mesmo tempo, temos hoje tecnologias que permitem trabalhar melhor cada uma dessas entradas na lavoura”, observa o agrônomo.
Fertilizantes de liberação gradual ampliam período de nutrição
Entre as alternativas disponíveis para o manejo estão os fertilizantes de liberação gradual. Essas tecnologias são desenvolvidas para disponibilizar os nutrientes ao longo do tempo, procurando reduzir perdas e aproximar a oferta das necessidades da planta.
Uma das soluções apresentadas pela ICL na ExpoCacau, em Ilhéus (BA), é o Polyblen. De acordo com a companhia, o fertilizante utiliza um sistema de encapsulamento que controla fisicamente a liberação dos nutrientes.
Após a aplicação, o nutriente é solubilizado dentro do grânulo e liberado de maneira gradual. Para culturas perenes, a empresa oferece uma formulação com período de disponibilização de até 180 dias.
A proposta é manter o cacaueiro nutrido durante o intervalo entre as duas principais janelas de adubação, diminuindo a necessidade de intervenções em períodos mais curtos.
“Se temos uma cultura que demanda nutrientes continuamente e uma realidade de campo em que o produtor faz duas aplicações principais no ano, uma tecnologia capaz de liberar esses nutrientes gradualmente por até seis meses pode se encaixar nesse manejo”, destaca Veloso.
Tecnologia deve integrar um programa nutricional completo
Apesar do potencial dos fertilizantes de liberação controlada, a adoção deve estar associada ao diagnóstico da lavoura. Análises de solo e de folhas, histórico produtivo, regime de chuvas, expectativa de colheita e características do terreno são fatores essenciais para definir doses, fontes e períodos de aplicação.
A nutrição foliar também pode complementar o manejo em momentos específicos, principalmente quando as condições do solo limitam temporariamente a absorção pelas raízes. Entretanto, as decisões precisam respeitar as necessidades de cada área e ser acompanhadas por assistência técnica.
Segundo a ICL, a tecnologia de liberação gradual já é utilizada em grandes propriedades produtoras de cacau, juntamente com programas de nutrição foliar. A empresa pretende ampliar a discussão com produtores de médio porte durante a ExpoCacau.
Eficiência nutricional pode elevar produtividade do cacau
A melhoria do manejo nutricional está entre os caminhos para elevar a produtividade da cacauicultura sem depender exclusivamente da expansão da área cultivada. Ao reduzir perdas, prolongar a disponibilidade dos nutrientes e atender às diferentes fases do cacaueiro, o produtor pode aumentar a eficiência do investimento em fertilizantes.
A escolha da tecnologia, entretanto, deve considerar as práticas consolidadas em cada propriedade. O conhecimento do produtor sobre o solo, o clima e o comportamento da lavoura continua sendo fundamental para a construção de um programa nutricional eficiente.
“Tecnologia não chega para substituir esse conhecimento. Ela precisa mostrar, na prática, onde pode tornar o manejo mais eficiente”, conclui Veloso.
Em um ambiente marcado por chuvas irregulares, veranicos e limitações operacionais, a nutrição contínua surge como ferramenta para aumentar a previsibilidade do manejo, reduzir a exposição a perdas e sustentar o desenvolvimento produtivo do cacau ao longo do ano.
Fonte: Portal do Agronegócio
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