Fruticultura de exportação: estudo aponta informalidade e riscos à saúde dos trabalhadores
Levantamento da Molina Consulting e da Oxfam Brasil destaca desigualdades salariais, contratos sazonais e relatos de adoecimento nas cadeias da manga, uva e maçã
Publicado em: 02/10/2026 às 19:10hs
As cadeias brasileiras da manga, uva e maçã movimentam cerca de R$ 15 bilhões por ano, mas a relevância econômica dessas atividades contrasta com problemas de proteção social e condições de trabalho. Um levantamento conduzido pela Molina Consulting e pela Oxfam Brasil aponta elevada informalidade no setor agropecuário e descreve situações de vulnerabilidade em polos de fruticultura do Sul e do Nordeste.
Na análise nacional, 69,2% dos trabalhadores do setor agropecuário estão na informalidade, enquanto 52% dos assalariados rurais não contribuem para a Previdência Social. Os indicadores abrangem o mercado de trabalho agropecuário e não se restringem à produção de frutas.
Nas cadeias examinadas, o estudo destaca diferenças de remuneração por raça e gênero, concentração de empregos em períodos de colheita e relatos de exposição a condições que podem comprometer a saúde dos trabalhadores.
Desigualdade salarial marca o trabalho no campo
Segundo o levantamento, mulheres pretas recebem rendimento médio mensal de R$ 1.449, enquanto homens brancos alcançam R$ 2.494. Os valores evidenciam uma diferença expressiva entre os grupos analisados.
A escolaridade também aparece como uma limitação: mais da metade dos ocupados não concluiu o ensino fundamental, condição que pode dificultar o acesso a outras funções e oportunidades profissionais.
Para Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil, a geração de riqueza nas cadeias exportadoras convive com vulnerabilidades históricas. Ela ressalta a necessidade de ampliar a proteção dos trabalhadores, especialmente de mulheres negras e indígenas, e de enfrentar a falta de cobertura previdenciária.
Colheitas de maçã e uva concentram contratações no Rio Grande do Sul
Nas atividades de maçã e uva no Rio Grande do Sul, o levantamento registra o encerramento de 80,2% e 90,2% dos vínculos formais, respectivamente, antes do fim do ano civil.
As admissões se concentram em janeiro e fevereiro, enquanto os desligamentos ocorrem principalmente em março. Esse calendário evidencia a forte sazonalidade do emprego nas cadeias analisadas.
A demanda por mão de obra atrai trabalhadores de outras localidades, incluindo Mato Grosso e Paraguai. Conforme o estudo, indígenas representam 21,4% da força de trabalho na maçã gaúcha.
O material reúne relatos de cobrança intensa por produtividade e de exposição a temperaturas entre -8°C e -9°C nos pomares. Também descreve situações em que trabalhadores reduzem o consumo de água e as pausas para ir ao banheiro para cumprir metas.
A pesquisa aponta, ainda, possível subnotificação de problemas de saúde relacionados ao trabalho nos registros de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT).
Mecanização altera empregos no Vale do São Francisco
Nos polos irrigados de Pernambuco e Bahia, o levantamento associa o avanço da mecanização à redução de postos manuais na cultura da manga. Segundo o material, a substituição tecnológica teria eliminado mais de 40% dessas vagas na atividade local.
A pesquisa também relata que a operação das máquinas permanece concentrada entre homens. Parte dos trabalhadores que perde espaço nas funções manuais passa a integrar equipes informais remuneradas por diária, com menor proteção trabalhista.
O cenário descrito reforça o desafio de conciliar ganhos de eficiência com qualificação profissional e alternativas de ocupação para os grupos afetados pela mudança tecnológica.
Relatos apontam exposição a agrotóxicos e sobrecarga entre mulheres
A exposição a agrotóxicos é outro ponto abordado pelo estudo. Lideranças sindicais ouvidas estimam que apenas um caso de intoxicação seja formalmente notificado para cada cinquenta ocorrências reais. A proporção é uma estimativa dessas lideranças, não uma contagem oficial apresentada no material.
O levantamento também reúne denúncias de preparação das propriedades para auditorias, com suposta ocultação de práticas relacionadas ao uso de produtos químicos. Os relatos colocam em discussão a capacidade das certificações de identificar as condições cotidianas de trabalho.
Nos galpões de seleção e embalagem, a pesquisa descreve sobrecarga entre mulheres. Somados deslocamento, atividade remunerada e tarefas domésticas, a rotina pode alcançar 16 horas diárias. Há também relatos de infecções urinárias recorrentes, associadas no material às exigências contínuas das linhas de produção.
Sazonalidade dificulta a organização dos trabalhadores
A curta duração dos contratos e a migração entre regiões representam obstáculos à atuação sindical. Segundo o levantamento, a renovação frequente das equipes dificulta o acompanhamento das condições de trabalho e a continuidade da organização coletiva.
Ao reunir indicadores nacionais e relatos dos polos produtores, o estudo coloca a proteção social, a saúde ocupacional e as desigualdades no centro do debate sobre a fruticultura de exportação. Para a Oxfam Brasil, o crescimento econômico dessas cadeias precisa ser acompanhado de melhores condições para quem atua na produção.
Fonte: Portal do Agronegócio
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