Excesso de chuvas ameaça qualidade da cana-de-açúcar e reduz potencial de ATR na safra 2026/27
Alta umidade do solo prolonga ciclo vegetativo, atrasa maturação da cana e aumenta desafios para usinas e produtores na definição da melhor janela de colheita
Publicado em: 03/08/2026 às 15:00hs
O excesso de chuvas e a manutenção da alta umidade do solo estão criando novos desafios para o setor sucroenergético brasileiro na safra 2026/27. As condições climáticas, diferentes do padrão esperado para o período de maturação da cana-de-açúcar, estão atrasando o acúmulo de sacarose nos colmos e podem reduzir os níveis de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), indicador fundamental para medir a qualidade da matéria-prima destinada à produção de açúcar e etanol.
Tradicionalmente, o outono e o inverno no Centro-Sul do Brasil apresentam temperaturas mais baixas e menor volume de chuvas, cenário que favorece a concentração de açúcares na planta. Nesta temporada, porém, a persistência da umidade tem prolongado o crescimento vegetativo da cana, dificultando a maturação natural e tornando mais complexa a tomada de decisão sobre o momento ideal da colheita.
Clima irregular reduz previsibilidade da maturação da cana
Segundo especialistas do setor, a variabilidade climática aumentou a incerteza sobre o comportamento das lavouras e exige maior precisão no planejamento agrícola.
Para o engenheiro agrônomo e gerente de Marketing Regional da IHARA, Michel Tomazela, a definição da janela de colheita passou a ser um dos principais desafios da safra atual.
“O produtor precisa avaliar constantemente o comportamento da lavoura, as previsões climáticas e a estratégia operacional. Quando a previsibilidade diminui, aumenta o risco de perder parte do potencial de ATR acumulado pela cultura”, destaca.
A dificuldade está justamente em encontrar o equilíbrio entre esperar uma maior concentração de açúcar e evitar perdas causadas pelo avanço do ciclo, pelo excesso de umidade ou por problemas operacionais no campo.
Chuvas previstas para regiões produtoras mantêm setor em alerta
As projeções climáticas indicam que o cenário de instabilidade pode continuar afetando importantes polos produtores de cana-de-açúcar.
Segundo dados da Rural Clima, a segunda metade de julho deve registrar retorno das chuvas em áreas produtoras de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, com possibilidade de continuidade desse padrão no Centro-Oeste durante o início de agosto.
Embora a água seja essencial para o desenvolvimento da cultura, a manutenção da umidade em uma fase em que normalmente ocorre maior restrição hídrica reduz a capacidade da planta de direcionar energia para o armazenamento de sacarose.
Excesso de água mantém crescimento vegetativo e reduz ATR
O principal impacto fisiológico provocado pelo excesso de chuvas é a alteração do processo natural de maturação da cana.
Em condições favoráveis, a planta reduz o crescimento vegetativo durante períodos mais secos e frios, direcionando reservas para o acúmulo de sacarose nos colmos. Com a umidade elevada, esse processo é retardado.
“Em vez de concentrar açúcares, a planta continua crescendo, atrasando o ponto ideal de maturação. Se a colheita ocorre antes da hora para atender ao cronograma industrial, a cana pode chegar à usina com menor teor de sacarose e menor potencial de ATR”, explica Tomazela.
A redução do ATR impacta diretamente a rentabilidade da cadeia produtiva, já que o indicador determina a quantidade de açúcar recuperável por tonelada de cana processada.
Menor ATR aumenta custos e reduz eficiência industrial
A qualidade da matéria-prima tem influência direta no desempenho das usinas. Quando a concentração de açúcar é menor, a indústria precisa processar um volume maior de cana para produzir a mesma quantidade de açúcar ou etanol.
Esse cenário provoca:
- aumento dos custos industriais;
- menor eficiência no processamento;
- redução da rentabilidade das operações;
- maior pressão sobre produtores e usinas.
“O volume produzido deixou de ser o único fator determinante. A qualidade da cana é o que transforma produtividade em resultado econômico, e o ATR é o principal indicador dessa eficiência”, afirma o especialista.
Solo encharcado também prejudica operações agrícolas
Além dos impactos sobre a maturação, o excesso de umidade interfere diretamente no manejo das lavouras.
O encharcamento reduz a oxigenação das raízes, favorece o surgimento de doenças e dificulta a entrada de máquinas no campo. Como consequência, podem ocorrer atrasos na colheita, aumento do desgaste operacional e dificuldades no planejamento das usinas.
Em regiões onde a colheita depende de uma logística ajustada entre campo e indústria, qualquer atraso pode comprometer o aproveitamento da matéria-prima no melhor momento de qualidade.
Manejo da maturação ganha importância na safra 2026/27
Diante de um ambiente climático mais instável, estratégias de manejo da maturação passam a ter papel fundamental para preservar o potencial produtivo da cana.
No Centro-Sul, a maturação ocorre naturalmente entre o outono e o inverno, período em que temperaturas mais amenas e menor disponibilidade de água favorecem o acúmulo de sacarose. Entretanto, o excesso de chuvas desta safra alterou esse comportamento, tornando o processo mais lento.
O consultor da MS Fernandes Consultoria Agrícola, Dr. Michel da Silva Fernandes, destaca que o manejo da maturação deve estar integrado a outras práticas agrícolas, como:
- controle de plantas daninhas;
- manejo de pragas e doenças;
- equilíbrio nutricional;
- escolha adequada de variedades;
- planejamento estratégico da colheita.
Maturadores ajudam a preservar qualidade da matéria-prima
Entre as ferramentas disponíveis para enfrentar períodos de maior instabilidade climática estão os maturadores, utilizados para auxiliar no controle do desenvolvimento vegetativo e favorecer o acúmulo de sacarose.
- Essas tecnologias podem ser aplicadas em diferentes momentos da safra:
- Início do ciclo: ajudam a reduzir o crescimento vegetativo excessivo;
- Meio da safra: favorecem a maturação em períodos com maior ocorrência de chuvas;
- Final da safra: contribuem para manter níveis elevados de sacarose e ampliar a flexibilidade da colheita.
Com isso, produtores e usinas conseguem ajustar melhor o momento da retirada da cana do campo, reduzindo impactos causados pelas oscilações climáticas.
Planejamento será decisivo para preservar rentabilidade do setor
Para especialistas, o cenário atual reforça que a produção de cana-de-açúcar exige cada vez mais estratégias baseadas em monitoramento climático, manejo técnico e decisões rápidas.
“O desafio atualmente não é apenas produzir mais cana, mas colher no momento correto. O planejamento da maturação associado ao uso estratégico de tecnologias permite aproveitar melhor o potencial da lavoura, elevar o rendimento industrial e reduzir os impactos provocados pela variabilidade do clima”, conclui Tomazela.
Com a safra 2026/27 marcada por condições climáticas fora do padrão esperado, o acompanhamento do ATR e a definição precisa da janela de colheita serão fatores determinantes para a competitividade do setor sucroenergético brasileiro.
Fonte: Portal do Agronegócio
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