Hedgepoint reduz superávit global de café para 8,2 milhões de sacas e alerta para riscos do El Niño na oferta mundial
Revisão da consultoria considera menor produção em algumas origens produtoras e mantém mercado de café sob forte volatilidade, com atenção à safra recorde brasileira e às condições climáticas internacionais.
Publicado em: 03/08/2026 às 10:50hs
O mercado global de café segue marcado por elevada volatilidade, com novas incertezas envolvendo produção, clima e estoques. A Hedgepoint Global Markets revisou para baixo sua estimativa de superávit mundial da safra 2026/27, reduzindo a projeção de 9,9 milhões para 8,2 milhões de sacas.
Segundo a consultoria, a mudança ocorre após ajustes negativos nas estimativas de produção de alguns países produtores, principalmente devido aos padrões irregulares de precipitação registrados nas últimas semanas.
Apesar da redução do excedente global, a expectativa ainda é de uma temporada com oferta superior ao consumo, o que pode contribuir para uma recuperação parcial dos estoques. No entanto, fatores como custos elevados, comportamento das importações e estratégia dos países produtores podem limitar a disponibilidade efetiva do café no mercado internacional.
Clima e El Niño aumentam preocupação com oferta mundial de café
O principal fator de atenção para os próximos meses é o avanço do fenômeno El Niño, que pode afetar importantes regiões produtoras de café.
De acordo com a Hedgepoint, existe mais de 70% de probabilidade de que o fenômeno atinja intensidade muito forte entre agosto e novembro de 2026, elevando os riscos para a produção global.
No Vietnã, maior produtor mundial de robusta, as chuvas abaixo da média já provocaram uma redução marginal na expectativa de produção da safra 2026/27. A consultoria alerta que novas revisões podem ocorrer caso o cenário climático não apresente melhora.
Na Indonésia, a preocupação está concentrada no clima do segundo semestre, período fundamental para o desenvolvimento da próxima safra.
Entre os produtores de café arábica, países da América Central também enfrentam irregularidade nas precipitações associadas ao El Niño. Na Colômbia, por outro lado, as condições permanecem próximas da normalidade, favorecendo o desenvolvimento da safra atual, embora o fenômeno ainda represente um risco para a produção futura.
Mercado de café mantém forte volatilidade em julho
Os preços internacionais do café, especialmente do arábica, apresentaram movimentos intensos em julho, influenciados por uma combinação de fatores fundamentais, técnicos e financeiros.
Segundo a Hedgepoint, o rompimento de níveis importantes de resistência nos contratos futuros, aliado ao posicionamento dos fundos de investimento, impulsionou fortes oscilações nas cotações.
O aumento das margens exigidas pelas bolsas reduziu a liquidez do mercado e levou investidores a ajustarem posições, incluindo movimentos de cobertura de posições vendidas.
Após as recentes correções, o mercado perdeu parte da força compradora observada anteriormente, mas a consultoria destaca que novos períodos de volatilidade continuam possíveis diante dos riscos climáticos e dos baixos estoques certificados.
Estoques reduzidos sustentam preocupação no curto prazo
Os diferenciais entre contratos futuros também refletem a cautela dos agentes do mercado.
A ampliação dos spreads entre os contratos de setembro e dezembro do arábica indica preocupação com a disponibilidade imediata do produto, especialmente diante de:
- Atrasos na colheita brasileira;
- Oferta mais restrita em algumas origens produtoras;
- Possíveis impactos do El Niño;
- Redução dos estoques certificados pela ICE.
Esse cenário tende a manter os prêmios de curto prazo elevados, mesmo diante da expectativa de uma safra brasileira maior.
Colheita brasileira atrasa, mas safra recorde é mantida
No Brasil, principal produtor mundial de café, o excesso de chuvas em junho prejudicou o ritmo da colheita e dificultou a entrada dos trabalhadores nas lavouras.
Além do atraso nos trabalhos, a umidade afetou parte dos cafés que estavam em processo de secagem, com possíveis impactos sobre a qualidade da bebida.
Apesar das dificuldades, a Hedgepoint mantém a expectativa de uma safra recorde brasileira em 2026/27, indicando que as chuvas não comprometeram o potencial produtivo total.
A entrada de maior volume de café brasileiro no mercado deve aumentar o fluxo de exportações nos próximos meses e pode exercer pressão negativa sobre os preços internacionais.
Exportações brasileiras de café seguem abaixo da média
Mesmo com a expectativa de grande produção, o ritmo de comercialização permanece mais lento em comparação com temporadas anteriores.
As exportações de café arábica brasileiro continuam abaixo da média histórica recente, enquanto os embarques de robusta apresentam recuperação devido ao avanço da colheita.
Outro fator positivo para o setor foi a inclusão do café instantâneo brasileiro na lista de produtos isentos da nova tarifa de 25% aplicada pelos Estados Unidos, medida que pode favorecer as vendas externas para um dos principais mercados consumidores do produto nacional.
Cenário macroeconômico adiciona incertezas ao café
Além dos fundamentos de oferta e demanda, o ambiente macroeconômico internacional continua influenciando o comportamento das commodities.
As tensões envolvendo Estados Unidos e Irã seguem pressionando o mercado de energia e aumentando as preocupações com inflação global.
Nesse contexto, o Banco Central Europeu elevou suas principais taxas de juros, enquanto o Federal Reserve manteve os juros norte-americanos no intervalo entre 3,5% e 3,75%, sinalizando possibilidade de novos ajustes diante da resistência inflacionária.
No Brasil, o diferencial de juros em relação aos Estados Unidos continua favorecendo operações de carry trade, influenciando o comportamento do câmbio e, consequentemente, os preços das commodities agrícolas.
Perspectivas para o mercado de café
A Hedgepoint avalia que o balanço global de café continuará dependente da evolução climática nos próximos meses.
Embora a safra recorde brasileira indique um cenário de maior disponibilidade e possível recuperação dos estoques, os riscos relacionados ao El Niño forte podem alterar a produção em importantes países produtores.
Novas revisões nas estimativas ainda são esperadas, principalmente porque diversas origens só iniciarão a colheita entre outubro e novembro.
Para o Brasil, o avanço da colheita deve ampliar a oferta exportável e pressionar as cotações. Entretanto, estoques reduzidos nos países consumidores e incertezas climáticas globais podem limitar movimentos mais acentuados de queda nos preços do café.
Fonte: Portal do Agronegócio
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