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Café

El Niño ameaça produtividade e qualidade do café na safra 2026/27

Irregularidade das chuvas, calor intenso e baixa umidade ampliam os riscos para florada, formação e enchimento dos grãos, principalmente nas lavouras de sequeiro


Publicado em: 15/09/2026 às 07:30hs

El Niño ameaça produtividade e qualidade do café na safra 2026/27

A possibilidade de ocorrência de um El Niño de forte intensidade acendeu um alerta para a safra brasileira de café 2026/27. A irregularidade das chuvas, o aumento das temperaturas e os períodos de baixa umidade podem comprometer diferentes etapas do ciclo produtivo, exigindo planejamento e manejo contínuo das lavouras.

O setor entra na nova temporada após enfrentar precipitações durante os meses de junho e julho, que dificultaram a colheita e a secagem dos grãos, especialmente nas áreas produtoras de café arábica de Minas Gerais e São Paulo. Além dos atrasos operacionais, o excesso de umidade provocou preocupações com a qualidade da bebida.

O engenheiro agrônomo, professor, pesquisador e consultor Ricardo Teixeira avalia que os preços do café continuam atrativos ao produtor, apesar da volatilidade observada no mercado. Para a temporada em andamento, a expectativa apresentada é de uma produção superior a 66 milhões de sacas de 60 quilos.

Nesse contexto, a atenção se desloca para a preservação da qualidade dos grãos e para as incertezas que cercam a produção futura.

“Os preços ainda são considerados bons, mas com uma safra que aponta maiores preocupações relacionadas à qualidade do café do que propriamente à quantidade produzida. Para o mercado futuro de longo prazo, no entanto, ainda existem muitas incertezas”, afirma Teixeira.

El Niño coloca cafeicultura de sequeiro em alerta

As lavouras de café conduzidas sem irrigação estão entre as mais expostas à distribuição irregular das chuvas. Embora os sistemas irrigados ofereçam maior controle sobre o fornecimento de água, eles também não eliminam os efeitos provocados por temperaturas extremas, baixa umidade do ar e outros desequilíbrios climáticos.

Caso se confirme um El Niño intenso, semelhante ao registrado entre 2023 e 2024, a produtividade da cafeicultura brasileira poderá sofrer uma pressão maior. Atualmente, conforme os dados apresentados pelo especialista, o rendimento médio nacional está próximo de 30 sacas beneficiadas por hectare.

“Se isso realmente acontecer de maneira mais intensa, podemos observar uma queda considerável de produtividade dos grãos em comparação à última safra”, alerta Teixeira.

O clima representa um dos principais fatores de risco para a produção porque está fora do controle direto do cafeicultor. Enquanto genética, nutrição e tratos culturais podem ser planejados e ajustados, as condições meteorológicas exigem que as plantas estejam preparadas para atravessar períodos de estresse ao longo de todo o ciclo.

“Hoje, entre os grandes fatores, as alterações climáticas representam aquele no qual temos a possibilidade de sofrer as maiores perdas e, ao mesmo tempo, temos menor capacidade de intervenção. Dessa forma, é necessário preparar as lavouras não apenas durante a florada, formação dos frutos ou enchimento dos grãos, mas ao longo dos 12 meses do ano”, explica.

Déficit hídrico pode comprometer florada e enchimento dos grãos

A falta de água e a má distribuição das precipitações podem prejudicar etapas decisivas da produção, como florada, pegamento das flores, formação dos frutos e enchimento dos grãos.

Em condições de déficit hídrico, o cafeeiro apresenta maior dificuldade para absorver e transportar nutrientes. A limitação de água também reduz a atividade fotossintética, responsável pela produção da energia necessária ao crescimento e ao desenvolvimento da planta.

O impacto pode se refletir tanto na quantidade produzida quanto na uniformidade e na qualidade dos grãos colhidos.

Temperaturas elevadas representam outro fator de preocupação. O calor excessivo pode provocar o fechamento prolongado dos estômatos, pequenas estruturas responsáveis pelas trocas gasosas e pela transpiração das plantas.

“O fechamento desses estômatos reduz a capacidade da planta de transpirar. A diminuição da transpiração eleva a temperatura interna do cafeeiro, dificultando a formação de diversas substâncias diretamente relacionadas não apenas à produtividade, mas também às características que determinam a qualidade da bebida”, detalha Teixeira.

Manejo do café deve ser realizado durante todo o ano

A preparação das lavouras para um cenário de maior variabilidade climática não deve ficar restrita aos momentos em que o estresse já está instalado. O manejo precisa acompanhar o cafeeiro durante os 12 meses do ano e considerar as necessidades específicas de cada fase fenológica.

Entre as medidas indicadas estão a manutenção da saúde do solo, o equilíbrio nutricional e, quando houver viabilidade técnica e econômica, o uso da irrigação. Essas estratégias podem ampliar a capacidade de recuperação das plantas e reduzir os efeitos de períodos prolongados de calor ou escassez de água.

“Entre os principais investimentos que podem ser recomendados aos produtores estão, quando possível, a irrigação e a adoção de um manejo voltado ao fortalecimento da planta diante das adversidades climáticas”, destaca Teixeira.

Bioestimulantes entram nas estratégias contra o estresse climático

Tecnologias destinadas ao fortalecimento fisiológico das plantas também ganham espaço no manejo do café. Entre elas estão bioestimulantes e soluções desenvolvidas para auxiliar a termorregulação e o uso mais eficiente da água.

Essas ferramentas podem contribuir para que o cafeeiro atravesse períodos de alta temperatura, baixa umidade e déficit hídrico com menor comprometimento de seu potencial produtivo. A recomendação, entretanto, deve considerar as condições da lavoura, a fase de desenvolvimento das plantas e as características de cada região produtora.

A Agroallianz mantém um programa de recomendações para a cafeicultura que reúne diferentes ferramentas de manejo ao longo das fases fenológicas. Segundo Renato Menezes, engenheiro agrônomo e gerente de Marketing Técnico da empresa, compreender os fatores ambientais limitantes é fundamental para selecionar tecnologias que ajudem as plantas a enfrentar condições adversas.

Para o especialista, a preparação do cafeeiro exige uma visão integrada, combinando nutrição, manejo fisiológico e acompanhamento das condições ambientais. O objetivo é manter as plantas em condições adequadas para expressar seu potencial produtivo mesmo diante de uma temporada marcada por maior instabilidade climática.

Fonte: Portal do Agronegócio

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