Trigo sobe no Brasil e em Chicago com oferta restrita no Sul e tensão no Mar Negro; preços seguem firmes
Mercado brasileiro mantém valorização diante da escassez de trigo no Sul, enquanto ataques a terminal de exportação da Rússia impulsionam as cotações internacionais e reforçam preocupações com o abastecimento global.
Publicado em: 31/07/2026 às 11:20hs
O mercado de trigo encerra julho sustentado por dois fatores decisivos: a oferta limitada no Sul do Brasil e o aumento das tensões geopolíticas na região do Mar Negro, que voltou a elevar as cotações na Bolsa de Chicago (CBOT). A combinação entre estoques reduzidos, custos elevados e incertezas sobre a logística global mantém o cereal valorizado e reforça a expectativa de preços firmes no início da nova safra.
No mercado doméstico, produtores seguem cautelosos nas negociações, enquanto indústrias enfrentam margens apertadas e dificuldades para recompor estoques. No cenário internacional, o conflito entre Rússia e Ucrânia voltou ao centro das atenções após ataques atingirem um importante terminal de exportação de grãos russo, reacendendo preocupações com a oferta mundial.
Oferta restrita mantém preços elevados no Sul do Brasil
Segundo levantamento da TF Agroeconômica, a disponibilidade de trigo segue limitada nos principais estados produtores da Região Sul, sustentando as cotações mesmo diante da aproximação da nova colheita.
No Rio Grande do Sul, os negócios permanecem pontuais, concentrados em retiradas durante agosto e pagamentos programados para setembro. Os preços médios alcançam cerca de R$ 1.300 por tonelada no interior do estado, enquanto o trigo melhorador é negociado em torno de R$ 1.350 por tonelada.
Para lotes de maior qualidade, as indicações chegaram a R$ 1.460 CIF moinho, enquanto o trigo padrão ficou próximo de R$ 1.380 CIF. O trigo argentino nacionalizado também registrou valorização, alcançando US$ 292 por tonelada em Canoas, avanço de aproximadamente 6,2%.
Além da escassez de oferta, moinhos relatam elevados índices de DON (deoxinivalenol) nos últimos estoques remanescentes, fator que aumenta a busca por trigo de melhor qualidade. Já no mercado do produtor, em Panambi, a referência recuou para R$ 69 por saca.
Santa Catarina praticamente encerra estoques locais
Em Santa Catarina, a disponibilidade de trigo praticamente chegou ao fim. O último negócio foi registrado a R$ 1.350 FOB, acrescido do frete.
Sem produto suficiente no estado, compradores passaram a buscar cereal gaúcho entre R$ 1.340 e R$ 1.400 por tonelada, além dos custos de transporte e ICMS.
O setor moageiro continua enfrentando dificuldades. O mercado de farinhas permanece lento, com elevados estoques e redução no ritmo de moagem. Em contrapartida, o farelo apresentou recuperação de preços.
No mercado de balcão, as cotações variaram entre R$ 64 e R$ 72,20 por saca, dependendo da região.
Paraná registra preços acima da margem da indústria
No Paraná, principal produtor nacional, os preços seguem acima do nível considerado confortável para a indústria de moagem.
Negócios foram registrados a R$ 1.450 CIF moinho em Curitiba, com indicações semelhantes nos Campos Gerais. No Norte do estado, as referências oscilaram entre R$ 1.530 e R$ 1.550 por tonelada.
O trigo argentino com 11% de proteína foi ofertado a US$ 310 por tonelada em Paranaguá.
Para a nova safra, os vendedores indicam valores entre R$ 1.400 e R$ 1.420 por tonelada, embora ainda não tenham ocorrido negociações expressivas.
O plantio da safra paranaense foi concluído em aproximadamente 727,5 mil hectares, área cerca de 11% inferior à cultivada em 2025. A produção está estimada em 2,38 milhões de toneladas, com 97% das lavouras classificadas em boas condições.
Mesmo com o bom desenvolvimento das lavouras, a redução da área plantada e o risco climático associado ao fenômeno El Niño seguem limitando as expectativas de aumento da oferta, cenário que pode manter o trigo acima de R$ 70 por saca no fechamento de julho.
Ataques à infraestrutura russa elevam trigo em Chicago
No mercado internacional, o trigo encerrou a sessão de quinta-feira em alta na Bolsa de Chicago, impulsionado pelo agravamento do conflito entre Rússia e Ucrânia.
Ataques com drones ucranianos atingiram um importante terminal de exportação de grãos localizado no porto de Taman, na região russa de Krasnodar, provocando danos significativos à estrutura pertencente ao grupo Demetra, um dos maiores operadores agrícolas da Rússia, com capacidade para movimentar cerca de 5 milhões de toneladas de grãos por ano.
Além do terminal cerealista, uma instalação destinada à exportação de óleo de girassol também foi atingida, embora os danos tenham sido considerados limitados.
A escalada do conflito manteve restrições à navegação no Mar de Azov e no Estreito de Kerch, obrigando a Rússia a redirecionar parte dos embarques para portos localizados no Mar Negro.
Analistas internacionais destacam que o trigo foi a commodity agrícola mais sensível ao episódio, devido à importância da Rússia no comércio mundial do cereal. Milho, óleos vegetais e outros grãos também podem sofrer impactos caso ocorram novos problemas logísticos.
Exportações dos EUA permanecem dentro das expectativas
O mercado também acompanhou os dados semanais divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
As vendas líquidas de trigo da safra 2026/27 totalizaram 285,2 mil toneladas na semana encerrada em 23 de julho, resultado compatível com as expectativas do mercado, que variavam entre 200 mil e 500 mil toneladas.
Entre os principais compradores, destacou-se o México, com aquisição de 70 mil toneladas.
Na Bolsa de Chicago, os contratos para setembro encerraram cotados a US$ 6,63½ por bushel, alta de 0,41%. Já os contratos para dezembro fecharam a US$ 6,81½ por bushel, avanço de 0,55%.
Perspectivas
A combinação entre a oferta restrita de trigo no Sul do Brasil, a redução da área cultivada no Paraná, a preocupação com a qualidade dos estoques remanescentes e as incertezas provocadas pelo conflito no Mar Negro mantém o mercado em posição de sustentação.
Enquanto produtores aguardam melhores oportunidades de comercialização, moinhos seguem pressionados pelos elevados custos da matéria-prima. No cenário internacional, qualquer nova interrupção nas exportações da Rússia poderá ampliar a volatilidade e oferecer suporte adicional às cotações nas próximas semanas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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