Trigo: menor oferta no Brasil e tensão no Mar Negro sustentam preços, enquanto mercado do Sul segue com negócios pontuais
Com redução da produção nacional, riscos geopolíticos e incertezas climáticas, consultorias apontam viés de alta para o trigo no médio prazo, apesar da pressão técnica observada nas bolsas internacionais.
Publicado em: 03/08/2026 às 11:30hs
O mercado brasileiro de trigo continua operando em ritmo lento, com negociações pontuais nos principais estados produtores do Sul e atenção crescente aos fatores que podem restringir a oferta ao longo dos próximos meses. Enquanto os moinhos mantêm postura cautelosa diante dos estoques atuais, analistas destacam que a combinação entre menor produção nacional, riscos logísticos no Mar Negro e problemas climáticos em importantes países produtores pode impulsionar as cotações no médio prazo.
De acordo com levantamento da TF Agroeconômica, o cenário atual é de baixa liquidez no mercado físico, mas os fundamentos permanecem favoráveis para uma valorização do cereal nos próximos meses.
Rio Grande do Sul tem compras limitadas, mas necessidade futura pode sustentar preços
No Rio Grande do Sul, os moinhos estão abastecidos até meados de setembro, reduzindo o interesse por novas aquisições no curto prazo. Entretanto, a indústria deverá retornar ao mercado para garantir o abastecimento até pelo menos a primeira quinzena de novembro, fator considerado positivo para a sustentação das cotações.
As negociações para retirada em agosto e pagamento em setembro ocorreram, em média, a R$ 1.300 por tonelada no interior do estado, enquanto o trigo melhorador foi comercializado próximo de R$ 1.350 por tonelada.
No mercado CIF moinho, o trigo de melhor qualidade alcançou cerca de R$ 1.460 por tonelada, enquanto o trigo padrão ficou próximo de R$ 1.380 por tonelada. Já em Panambi, a cotação ao produtor recuou para R$ 69 por saca.
Lavouras enfrentam desafios climáticos no Sul
O plantio da safra gaúcha foi concluído, mas as condições climáticas seguem limitando o desenvolvimento das lavouras.
Atualmente:
- 95% das áreas encontram-se em desenvolvimento vegetativo;
- 5% já estão em fase de floração;
- a baixa incidência de sol reduziu o perfilhamento das plantas;
- há registros pontuais de perdas provocadas por deficiência nutricional e enxurradas.
Além disso, os negócios envolvendo a safra nova permanecem reduzidos. Aproximadamente 60 mil toneladas foram negociadas até o momento, volume inferior à metade do registrado no mesmo período do ano passado, reflexo das incertezas provocadas pelo comportamento do fenômeno El Niño.
Santa Catarina mantém mercado lento e baixa rentabilidade
Em Santa Catarina, o mercado segue praticamente estável, mas com baixa movimentação.
A indústria enfrenta dificuldades para recompor margens na comercialização da farinha, o que limita novas compras de matéria-prima.
Os preços do trigo para panificação variam entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada, enquanto o plantio da nova safra ainda está em sua fase inicial.
Paraná reduz área plantada e mantém lavouras em boas condições
No Paraná, os preços permanecem firmes e acima do patamar considerado confortável pelos moinhos.
As negociações foram registradas em aproximadamente R$ 1.450 por tonelada CIF Curitiba, enquanto no Norte do estado os valores variaram entre R$ 1.530 e R$ 1.550 por tonelada.
O estado concluiu o plantio em 727,5 mil hectares, área cerca de 11% menor que a cultivada na safra anterior.
Apesar da redução da área, o desenvolvimento das lavouras é considerado positivo:
- 97% das áreas apresentam boas condições;
- a produção estimada é de 2,38 milhões de toneladas;
- a necessidade de importação em 2027 pode atingir 1,5 milhão de toneladas.
Menor produção brasileira pode reduzir oferta interna
Segundo a TF Agroeconômica, a combinação entre a redução das áreas cultivadas no Paraná e no Rio Grande do Sul deverá diminuir significativamente a oferta nacional.
A produção conjunta dos dois estados está estimada em 4,71 milhões de toneladas, representando uma queda próxima de 26% em relação à safra passada.
Esse cenário tende a elevar a dependência das importações e manter sustentação para os preços internos durante o segundo semestre.
Mar Negro continua sendo principal fator de risco para o mercado mundial
No cenário internacional, o maior elemento de preocupação continua sendo o conflito no Mar Negro.
Ataques a portos, navios mercantes, terminais de exportação, estruturas de armazenagem e instalações de combustíveis mantêm elevado o risco para o comércio global de trigo.
Segundo a consultoria, uma eventual interrupção parcial ou total das exportações da Rússia poderia retirar entre 30 milhões e 35 milhões de toneladas do mercado internacional, alterando significativamente o equilíbrio entre oferta e demanda.
Clima preocupa Estados Unidos e Argentina
Além da tensão geopolítica, problemas climáticos seguem monitorados em importantes produtores mundiais.
Nos Estados Unidos, a seca avança sobre áreas produtoras de trigo de primavera, aumentando a incerteza quanto ao potencial produtivo.
Na Argentina, o excesso de umidade ainda atrasa a conclusão do plantio no sul da província de Buenos Aires, embora as áreas já implantadas apresentem boas condições de desenvolvimento.
Mercado segue pressionado no curto prazo, mas fundamentos indicam recuperação
A recente queda das cotações na Bolsa de Chicago foi atribuída principalmente ao movimento técnico de venda realizado por fundos de investimento, sem mudanças significativas nos fundamentos globais de oferta.
Para a TF Agroeconômica, o comportamento do mercado deve permanecer neutro ou levemente baixista no curto prazo, influenciado pelo fraco desempenho das exportações norte-americanas e pela atuação dos investidores financeiros.
No entanto, no médio prazo, fatores como a menor produção brasileira, os riscos logísticos no Mar Negro e os problemas climáticos em importantes regiões produtoras continuam sustentando um cenário potencialmente altista para o trigo.
Diante desse ambiente, a recomendação da consultoria é que produtores adotem uma estratégia de comercialização gradual, aproveitando eventuais recuperações nas cotações ao longo dos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
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