Trigo mantém preços firmes no Sul apesar de queda em Chicago; qualidade limita oferta
Chuvas, giberela e baixo PH restringem a disponibilidade de trigo para moagem no Brasil, enquanto expectativa de maior oferta global pressiona os contratos futuros nos Estados Unidos
Publicado em: 23/09/2026 às 11:30hs
O mercado do trigo apresenta movimentos distintos no Brasil e no exterior. Enquanto os contratos futuros recuaram na Bolsa de Chicago diante das expectativas de maior oferta global, os preços permanecem firmes no Sul do país, sustentados pela baixa disponibilidade de cereal com qualidade adequada à moagem.
Segundo a TF Agroeconômica, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná registram negociações seletivas. Os vendedores resistem a reduzir as pedidas, enquanto os moinhos avaliam com cautela os lotes disponíveis e acompanham os efeitos das chuvas, geadas e doenças sobre a nova safra.
Problemas como baixo peso hectolítrico (PH), grãos chochos, giberela, brusone e queda no falling number aumentam a diferenciação entre os preços pagos pelo trigo disponível no mercado.
Trigo no Rio Grande do Sul tem negócios restritos
No Rio Grande do Sul, a comercialização continua limitada, embora tenha sido registrada movimentação de até 18 mil toneladas no fim do dia.
As pedidas dos vendedores variam entre R$ 1.450 e R$ 1.550 por tonelada FOB, conforme a região de origem. Para aquisições com entrega nos moinhos, as referências dificilmente ficam abaixo de R$ 1.550 a R$ 1.570 por tonelada CIF.
A qualidade da produção começa a preocupar em algumas áreas. Colheitas pontuais realizadas no noroeste gaúcho apresentaram grãos chochos, PH reduzido e ocorrência de giberela.
Em Panambi, o preço de balcão pago ao produtor avançou para R$ 72 por saca.
Moinhos de Santa Catarina mantêm compras pontuais
Em Santa Catarina, as indústrias estão abastecidas e concentram suas operações no recebimento de volumes negociados anteriormente. Com isso, a liquidez permanece baixa e os negócios ocorrem de forma pontual.
As transações foram registradas próximas de R$ 1.520 por tonelada FOB. Os vendedores demonstram pouca disposição para negociar, diante da expectativa de valorização provocada pelos impactos das chuvas sobre a produção regional.
Ainda não há ofertas consolidadas para o trigo da nova safra. No mercado de balcão, as cotações permanecem estáveis, entre R$ 66,83 e R$ 78 por saca nas praças acompanhadas.
Qualidade do trigo preocupa no Paraná
No Paraná, alguns produtores procuram os moinhos para renegociar contratos, enquanto detentores de trigo tipo 1 mantêm pedidas entre R$ 1.550 e R$ 1.600 por tonelada FOB.
Do lado comprador, as indicações chegam a R$ 1.500 por tonelada CIF para entregas em setembro. A diferença entre as referências e as dúvidas sobre a qualidade dificultam o avanço da comercialização.
Lotes colhidos no estado apresentaram PH entre 72 e 73, falling number de até 200 e danos associados à brusone, giberela e ao excesso de umidade. Esse cenário reduz a oferta de trigo com padrão superior e reforça os prêmios pagos pelo cereal adequado à moagem.
Como alternativa, o trigo importado aparece entre US$ 310 e US$ 315 por tonelada, dependendo da origem e do destino da mercadoria.
Trigo cai em Chicago com perspectiva de maior oferta
Na Bolsa de Mercadorias de Chicago (CBOT), os futuros do trigo encerraram a sessão em baixa, pressionados pelas expectativas de maior disponibilidade mundial e por novas iniciativas diplomáticas relacionadas ao transporte de grãos pelo Mar Negro.
O contrato com vencimento em dezembro fechou a US$ 7,17¼ por bushel, recuo de 9,50 centavos de dólar, ou 1,30%. Para março de 2027, o trigo terminou cotado a US$ 7,33¼ por bushel, também com perda de 9,50 centavos, equivalente a 1,27%.
O Kremlin informou a realização de novos contatos sobre uma proposta da Turquia para assegurar a passagem de cargas agrícolas pelo Mar Negro. Apesar das tratativas, os ataques contra portos e embarcações continuam limitando as perspectivas de normalização dos embarques.
Paralelamente, a Rússia procura ampliar rotas alternativas de exportação. O porto de Murmansk, localizado no Ártico, prepara equipamentos para iniciar a movimentação de trigo a partir do próximo mês.
Chuvas podem atrasar colheita na Ucrânia
Na Ucrânia, a colheita de grãos atingiu 33 milhões de toneladas em 7 milhões de hectares até 22 de setembro. A área retirada corresponde a 61% do total semeado.
A previsão de chuvas intensas em grande parte do território ucraniano poderá atrasar a colheita de grãos tardios e oleaginosas nos próximos dias, segundo analistas da UAC.
Nos Estados Unidos, o Departamento de Agricultura do país (USDA) informou que a colheita do trigo de primavera chegou a 96% da área até 20 de setembro, em linha com o resultado do ano anterior e com a média dos últimos cinco anos.
Já o plantio do trigo de inverno alcançou 17% da área prevista, ritmo inferior aos níveis históricos de referência.
Qualidade deve continuar determinando os preços no Brasil
Mesmo com a queda dos futuros em Chicago, o mercado brasileiro encontra sustentação na oferta limitada de trigo com padrão adequado à indústria.
No curto prazo, a evolução da colheita no Sul, os efeitos das chuvas e a qualidade dos novos lotes devem permanecer como principais referências para a formação dos preços. Quanto maior a incidência de problemas como baixo PH, giberela e redução do falling number, maior tende a ser a valorização relativa do trigo de melhor qualidade.
Fonte: Portal do Agronegócio
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