Preço do trigo pode subir com safra brasileira 26% menor e importações em alta
Produção nacional deve cair para 5,8 milhões de toneladas, enquanto El Niño, guerra no Mar Negro e problemas na Argentina aumentam os riscos para a oferta, a qualidade e os custos do cereal
Publicado em: 03/09/2026 às 10:00hs
O preço do trigo poderá enfrentar novas pressões no Brasil durante a safra 2026/2027. A combinação entre queda expressiva da produção nacional, aumento da dependência das importações, valorização do dólar e incertezas no mercado internacional acende um alerta para a indústria moageira e para os consumidores.
O Sindicato da Indústria do Trigo de São Paulo (Sindustrigo) avalia que o cenário pode elevar os custos da matéria-prima e provocar reflexos nos preços de produtos como pães, massas, biscoitos e farinhas.
Segundo o presidente da entidade, Max Piermartiri, a redução da oferta brasileira ocorre em um período de maior instabilidade internacional, marcado por problemas climáticos, dificuldades logísticas e riscos geopolíticos.
“Temos uma combinação de fatores que exige atenção de toda a cadeia do trigo. A redução da produção brasileira ocorre justamente em um momento de maior instabilidade no mercado internacional, com impactos sobre preços, logística e disponibilidade do cereal”, afirma.
Safra brasileira de trigo deve cair 26%
Dados do 11º Levantamento da Safra 2026/2027, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), indicam que o Brasil deverá colher 5,8 milhões de toneladas de trigo.
O volume representa uma queda de 26% em relação à temporada anterior, equivalente a uma redução próxima de 2 milhões de toneladas.
A área destinada à cultura também recuou. O plantio foi estimado em 1,92 milhão de hectares, diminuição de 20,4% e menor extensão cultivada desde 2020.
Com uma demanda doméstica superior a 13 milhões de toneladas, a menor produção deverá ampliar a necessidade de compras externas para garantir o abastecimento da indústria brasileira.
El Niño ameaça produtividade e qualidade do trigo
As condições climáticas associadas ao El Niño aumentam as incertezas sobre o desempenho das lavouras na América do Sul. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) classificou a anomalia de temperatura como um El Niño de forte intensidade.
Projeções da consultoria StoneX indicam elevada probabilidade de o fenômeno ficar entre os mais intensos já registrados, com ápice esperado para o final de 2026.
Para a produção de trigo, um dos principais riscos é o excesso de chuvas no Sul do Brasil e em áreas produtoras da Argentina. A umidade elevada pode prejudicar o desenvolvimento das plantas, favorecer doenças e comprometer características industriais importantes dos grãos.
Paraná e Rio Grande do Sul enfrentam excesso de chuva
No Paraná, as primeiras áreas colhidas já apresentam preocupações relacionadas à ocorrência de doenças e aos efeitos das chuvas frequentes.
No Rio Grande do Sul, onde as lavouras ainda não chegaram à fase final do ciclo, o excesso de precipitações também prejudica o desenvolvimento da cultura. As condições poderão afetar tanto o rendimento das lavouras quanto a qualidade do cereal destinado à moagem.
“A preocupação não está apenas no volume produzido, mas também na qualidade do trigo que estará disponível para a indústria. As condições climáticas podem comprometer características importantes do cereal”, destaca Piermartiri.
A disponibilidade de trigo com qualidade adequada para panificação é considerada um ponto especialmente sensível. Caso parte da produção nacional não atenda às exigências industriais, os moinhos poderão precisar buscar volumes adicionais em outros países.
Argentina pode reduzir exportações de trigo
O cenário argentino também preocupa o mercado brasileiro. O país é um dos principais fornecedores de trigo para o Brasil e já registra problemas relacionados à perda de qualidade do cereal.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta uma redução de 19% nas exportações argentinas durante o ciclo 2026/2027.
Uma oferta menor de trigo de alta qualidade na Argentina poderá levar os compradores brasileiros a recorrer a fornecedores mais distantes. Essa mudança tende a elevar despesas com frete, seguro, logística e internalização do produto.
Guerra no Mar Negro aumenta incerteza no mercado mundial
Além dos problemas climáticos, a continuidade da guerra na região do Mar Negro mantém elevados os riscos para o comércio internacional de trigo.
A região concentra importantes países produtores e exportadores do cereal. Interrupções em portos, rotas marítimas e estruturas de armazenagem podem reduzir a previsibilidade dos embarques e ampliar a volatilidade das cotações.
No Brasil, os preços do trigo acompanham as oscilações das bolsas de Chicago e Kansas, utilizadas como referências internacionais. Com menor disponibilidade interna, o mercado brasileiro fica ainda mais exposto às variações externas e ao câmbio.
Alta dos custos pode chegar a pães, massas e biscoitos
A necessidade de importar mais trigo em um ambiente de dólar valorizado e preços internacionais pressionados poderá elevar os custos da indústria moageira.
Parte desse aumento poderá ser repassada gradualmente às demais etapas da cadeia, alcançando fabricantes de alimentos, varejistas e consumidores.
“O cenário pode repercutir sobre os preços dos produtos derivados do trigo, como pães, massas e biscoitos, diante da necessidade de repasse de parte dos custos ao longo da cadeia até o consumidor final”, alerta o presidente do Sindustrigo.
Diante desse quadro, a entidade recomenda atenção à evolução da colheita brasileira, à qualidade dos grãos, ao desempenho da safra argentina, ao comportamento do dólar e às cotações internacionais. Esses fatores serão determinantes para a formação do preço do trigo e dos seus derivados ao longo da temporada 2026/2027.
Fonte: Portal do Agronegócio
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