Preço do trigo dispara no Sul, atinge maior nível desde 2025 no Paraná e mercado acompanha pressão internacional de Chicago
Oferta restrita, impactos iniciais do El Niño, necessidade de recomposição de estoques e movimentações na Bolsa de Chicago mantêm o mercado de trigo em evidência no Brasil e no cenário global.
Publicado em: 05/08/2026 às 11:10hs
O mercado brasileiro de trigo iniciou agosto em um cenário de preços firmes, oferta limitada e crescente preocupação com os efeitos climáticos sobre a safra 2026. No Paraná, as cotações atingiram o maior patamar desde agosto de 2025, enquanto Rio Grande do Sul e Santa Catarina registram negociações pontuais, refletindo um ambiente de cautela entre produtores, moinhos e compradores.
Ao mesmo tempo, o mercado internacional apresentou forte recuo na Bolsa de Chicago (CBOT), pressionado pelo avanço da colheita nos Estados Unidos, melhora das lavouras de primavera e queda do petróleo, fatores que ampliam a volatilidade das cotações globais.
Preço do trigo no Paraná alcança maior nível desde agosto de 2025
Levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostra que os preços do trigo no Paraná retornaram, em termos reais, aos níveis observados em agosto de 2025.
O movimento é consequência da oferta extremamente restrita no mercado disponível. Com estoques reduzidos, indústrias moageiras passaram a elevar gradualmente suas ofertas na tentativa de adquirir lotes de melhor qualidade para recomposição dos estoques.
Apesar do aumento da demanda, produtores seguem comercializando apenas volumes pontuais da safra 2025, reduzindo a liquidez do mercado e sustentando a valorização do cereal.
Outro fator que elevou as cotações foi o início dos impactos climáticos associados ao fenômeno El Niño. Chuvas intensas e ventos fortes registrados no Sul do Brasil durante a última semana de julho aumentaram as preocupações quanto ao desenvolvimento das lavouras, especialmente entre os triticultores paranaenses.
O mercado de balcão no estado foi um dos mais afetados, registrando valorização significativa diante da combinação entre oferta reduzida e maior percepção de risco climático.
Mercado do trigo segue lento no Sul, mas preços permanecem firmes
Segundo análise da TF Agroeconômica, o mercado físico continua operando com negócios pontuais nos três estados da Região Sul.
No Rio Grande do Sul, os moinhos permanecem abastecidos até meados de setembro, porém a expectativa é que retomem as compras nas próximas semanas para formar estoques suficientes até pelo menos a primeira quinzena de novembro, cenário que tende a oferecer sustentação aos preços.
Para retirada em agosto e pagamento em setembro, o trigo disponível foi negociado ao redor de R$ 1.300 por tonelada no interior gaúcho, enquanto o trigo melhorador alcançou R$ 1.350 por tonelada.
No mercado CIF moinho, o trigo de melhor qualidade chegou a R$ 1.460 por tonelada, enquanto o produto padrão foi negociado próximo de R$ 1.380 por tonelada.
Já o trigo argentino nacionalizado avançou para US$ 292 por tonelada em Canoas.
Operadores também relatam preocupação com elevados índices de DON (Deoxinivalenol) nos últimos estoques remanescentes, fator que reduz a disponibilidade de lotes de qualidade superior.
Na safra nova, aproximadamente 60 mil toneladas já foram negociadas entre exportações e contratos com moinhos, volume inferior à metade do registrado no mesmo período do ano passado. A redução das vendas reflete principalmente as incertezas provocadas pelo avanço do El Niño. No porto, as indicações para dezembro permanecem próximas de R$ 1.250 por tonelada.
Santa Catarina mantém ritmo lento de comercialização
Em Santa Catarina, o mercado segue praticamente estável, influenciado pela moagem reduzida e pela demanda enfraquecida por farinha.
O trigo pão tem sido negociado entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada, enquanto os preços pagos ao produtor variam entre R$ 62,75 e R$ 73 por saca.
O plantio ainda avança lentamente no estado, contribuindo para um ambiente de pouca movimentação comercial.
Paraná mantém mercado ativo e demanda por trigo de qualidade
No Paraná, a procura por farinhas de maior qualidade continua sustentando a atividade comercial.
Os negócios para entrega CIF moinho na região de Curitiba atingem R$ 1.450 por tonelada, enquanto no Norte do estado há indicações próximas de R$ 1.550 por tonelada.
Para a safra nova, as referências variam entre R$ 1.400 e R$ 1.420 por tonelada, embora ainda sem registro de negociações efetivas.
As perspectivas estruturais também indicam forte dependência do mercado externo. A estimativa é que o Paraná necessite importar cerca de 1,5 milhão de toneladas de trigo em 2027 para atender sua demanda interna.
Bolsa de Chicago recua com avanço da colheita nos Estados Unidos
Enquanto os preços permanecem sustentados no mercado brasileiro, o cenário internacional seguiu direção oposta.
Os contratos futuros do trigo encerraram a sessão desta terça-feira em forte baixa na Bolsa de Chicago (CBOT), pressionados pelo avanço da colheita norte-americana e pela melhora das condições das lavouras de primavera.
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que a colheita do trigo de inverno alcançou 86% da área cultivada até 2 de agosto, avanço sobre os 81% registrados na semana anterior, mantendo ritmo semelhante ao observado no mesmo período de 2025 e à média dos últimos cinco anos.
Já o trigo de primavera apresentou melhora nas condições das lavouras. O percentual classificado entre bom e excelente subiu para 55%, ante 53% na semana anterior. A colheita dessa cultura também começou a ganhar ritmo, alcançando 5% da área.
Outro fator baixista foi a queda nas cotações internacionais do petróleo, impulsionada pelas expectativas de avanço nas negociações diplomáticas entre Estados Unidos e Irã. O movimento favoreceu liquidações em diversas commodities agrícolas, incluindo o trigo.
Com isso, os contratos para setembro fecharam cotados a US$ 6,38¼ por bushel, recuo de 1,95%. Já os contratos para dezembro encerraram a US$ 6,57 por bushel, com queda de 1,83%.
Mercado permanece atento ao clima e à oferta
A combinação entre estoques reduzidos no Brasil, riscos climáticos provocados pelo El Niño e necessidade de recomposição dos estoques industriais mantém o mercado doméstico sustentado, especialmente nos estados do Sul.
No entanto, o avanço da produção norte-americana e o comportamento das bolsas internacionais continuam influenciando a formação dos preços, aumentando a volatilidade e exigindo atenção redobrada dos agentes do setor nas próximas semanas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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