Mercado de trigo enfrenta baixa liquidez no Brasil enquanto tensão global mantém preços sob pressão
Oferta restrita em algumas regiões, demanda enfraquecida dos moinhos e riscos logísticos no Mar Negro deixam o mercado brasileiro de trigo em alerta diante das incertezas para a próxima temporada.
Publicado em: 30/07/2026 às 11:40hs
O mercado brasileiro de trigo segue marcado por baixa liquidez, preços firmes em algumas regiões produtoras e preocupação da indústria com os custos da matéria-prima. Enquanto estados como Santa Catarina já praticamente encerraram os estoques locais, compradores recorrem a outras origens para garantir abastecimento, em um cenário de demanda reduzida e margens apertadas para os moinhos.
No mercado internacional, o trigo também enfrenta um momento de equilíbrio delicado. Apesar da pressão causada pela ampla oferta global e pelo avanço da colheita no Hemisfério Norte, as tensões envolvendo a logística de exportação no Mar Negro continuam adicionando volatilidade às cotações.
Baixa demanda limita negócios no mercado brasileiro de trigo
Segundo levantamento da TF Agroeconômica, os negócios no Sul do Brasil permanecem pontuais, com compradores adotando uma postura mais cautelosa diante dos estoques e das condições da indústria.
No Rio Grande do Sul, as negociações seguem concentradas em lotes específicos, com retirada prevista para agosto e pagamento em setembro. O trigo comum foi comercializado próximo de R$ 1.300 por tonelada no interior do estado, enquanto o produto classificado como melhorador chegou a valores próximos de R$ 1.350 por tonelada.
Para os moinhos, o trigo de maior qualidade segue valorizado. Algumas referências indicam entrada de lotes especiais em valores próximos de R$ 1.460 por tonelada, enquanto o trigo considerado padrão apresenta cotações ao redor de R$ 1.380 por tonelada CIF.
Outro ponto de atenção está relacionado à qualidade dos estoques remanescentes. Indústrias relatam dificuldades com lotes finais apresentando níveis elevados de DON, uma toxina produzida por fungos que pode comprometer o uso industrial do cereal.
No mercado gaúcho, o preço de balcão ao produtor também apresentou ajuste, chegando a aproximadamente R$ 69 por saca em algumas praças.
Santa Catarina depende do trigo gaúcho para manter abastecimento
Em Santa Catarina, a oferta de trigo produzido no próprio estado praticamente chegou ao fim. O último negócio registrado com cereal catarinense ocorreu em torno de R$ 1.350 por tonelada FOB, sem considerar o frete.
Com a redução da disponibilidade regional, os compradores passaram a buscar trigo do Rio Grande do Sul, com indicações entre R$ 1.340 e R$ 1.400 por tonelada, acrescidas de custos logísticos e tributários.
A indústria de farinhas continua enfrentando dificuldades para realizar novos negócios, levando parte dos moinhos a avaliar redução do ritmo de moagem e estratégias para alongar estoques.
Em contrapartida, o mercado de farelo apresentou melhora, com comercializações do produto ensacado próximas de R$ 1,10 por quilo.
Paraná mantém preços elevados mesmo com demanda enfraquecida
No Paraná, um dos principais produtores brasileiros de trigo, o mercado segue travado pela baixa demanda, mas os preços permanecem acima dos níveis considerados ideais para preservar as margens da indústria moageira.
Negociações foram observadas próximas de R$ 1.450 por tonelada CIF moinho na região de Curitiba. Já no Norte do estado, as indicações variaram entre R$ 1.530 e R$ 1.550 por tonelada.
O trigo argentino também ganhou espaço nas negociações. O cereal com 11% de proteína foi ofertado em Paranaguá próximo de US$ 310 por tonelada, representando alta superior a 6% na comparação recente.
Para a nova safra, as referências de mercado apontam valores entre R$ 1.400 e R$ 1.420 por tonelada, mas ainda sem volume significativo de negócios realizados.
Trigo argentino e cenário internacional influenciam mercado brasileiro
A dependência brasileira das importações mantém o país atento ao comportamento dos principais fornecedores internacionais. Argentina, Rússia e Ucrânia seguem entre as origens mais relevantes para complementar o abastecimento interno.
O trigo argentino nacionalizado apresentou valorização recente, alcançando aproximadamente US$ 292 por tonelada para entrega em agosto em Canoas (RS), alta de 6,2%.
Esse movimento reforça a importância do cenário externo para a formação dos preços domésticos, especialmente em períodos de menor disponibilidade interna.
Chicago encerra sessão em baixa, mas Mar Negro mantém mercado em alerta
No mercado internacional, os contratos futuros do trigo encerraram a quarta-feira (29) com leves perdas na Bolsa de Chicago (CBOT), pressionados pela expectativa de ampla oferta global.
O contrato setembro/26 fechou cotado a US$ 6,59 por bushel, com recuo de 1,50 ponto. Já dezembro/26 terminou a US$ 6,76 por bushel, queda de 2 pontos, enquanto março/27 encerrou em US$ 6,91 por bushel, baixa de 2,25 pontos.
Mesmo com a correção negativa, investidores seguem monitorando os riscos relacionados ao Mar Negro, região estratégica para o comércio internacional de trigo.
Tensões entre Rússia e Ucrânia elevam preocupação com logística de exportação
Os conflitos entre Rússia e Ucrânia continuam afetando a movimentação de cargas agrícolas na região. Recentemente, restrições foram registradas em terminais russos devido ao aumento dos riscos envolvendo ataques a embarcações e estruturas portuárias.
O Mar Negro representa uma das principais rotas de exportação de trigo do mundo, e qualquer interrupção logística pode alterar custos, prazos e competitividade do cereal no mercado internacional.
Segundo analistas, embora os riscos geopolíticos ofereçam suporte às cotações, o excesso de oferta global limita movimentos mais fortes de valorização.
A colheita nos Estados Unidos avança, enquanto grandes exportadores continuam abastecendo o mercado, reduzindo o espaço para altas expressivas nos preços internacionais.
Oferta mundial elevada limita recuperação das cotações
De acordo com análises de mercado, os preços do trigo russo também perderam força recentemente em função do aumento dos custos de transporte no Mar Negro.
A elevação dos fretes reduziu parte da competitividade do cereal russo, embora as exportações permaneçam em ritmo relevante.
A consultoria SovEcon revisou para cerca de 1,6 milhão de toneladas sua estimativa de exportações russas de trigo em julho, reforçando a importância do país no comércio global do cereal.
Brasil acompanha clima, produção argentina e novos movimentos do mercado
Para os próximos meses, o mercado brasileiro de trigo deve continuar influenciado por três fatores principais: disponibilidade interna, comportamento das importações e evolução das safras dos grandes fornecedores internacionais.
A produção argentina ganha destaque, já que o país terá papel fundamental no abastecimento brasileiro durante a próxima temporada comercial.
Com estoques internos mais ajustados em algumas regiões, demanda cautelosa da indústria e cenário internacional marcado por incertezas geopolíticas, o trigo permanece como uma das commodities agrícolas mais acompanhadas pelo setor.
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Fonte: Portal do Agronegócio
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