Chuvas comprometem qualidade da aveia-branca no RS e levam grãos para alimentação animal
Emater aponta apenas 22% da área colhida no Rio Grande do Sul, problemas de qualidade em Ijuí e perdas superiores a 50% em lavouras atingidas por temporais em Santa Rosa
Publicado em: 20/10/2026 às 17:30hs
As chuvas frequentes no Rio Grande do Sul estão prejudicando a colheita e a qualidade comercial da aveia-branca na safra 2026. Na região de Ijuí, parte dos grãos colhidos perdeu condições adequadas para atender à indústria alimentícia e está sendo destinada à alimentação animal, segundo o Informativo Conjuntural da Emater/RS-Ascar, divulgado em 15 de outubro.
O levantamento mostra que apenas 22% da área cultivada com aveia-branca no Estado havia sido colhida até a data de referência. Além das dificuldades provocadas pelo excesso de umidade, lavouras de diferentes regiões sofreram danos com ventos fortes e granizo, comprometendo o rendimento e a qualidade dos grãos.
A Emater estima uma área cultivada de 387.697 hectares e produtividade média de 2.322 quilos por hectare. Entretanto, os resultados variam significativamente entre as regiões produtoras, com registros de perdas expressivas em áreas atingidas pelos temporais.
Qualidade da aveia-branca preocupa produtores em Ijuí
Na região de Ijuí, as precipitações impediram o avanço da colheita durante a semana analisada pela Emater. Os grãos retirados anteriormente das lavouras permaneciam armazenados nas propriedades, mas apresentavam dificuldades para comercialização junto à indústria alimentícia.
O problema está relacionado à deterioração da qualidade comercial da aveia-branca. No início de outubro, a instituição já havia identificado grãos escurecidos, acidez elevada e peso do hectolitro (PH) inferior a 50 em parte da produção regional.
No levantamento mais recente, a situação passou a ter um efeito direto sobre a destinação comercial: lotes que enfrentam dificuldades para atender às exigências da indústria alimentícia estão sendo direcionados à alimentação animal.
A mudança evidencia como as condições climáticas durante a fase final do ciclo podem afetar não apenas o volume produzido, mas também os mercados aos quais os agricultores conseguem vender a produção.
O redirecionamento não significa necessariamente perda total de aproveitamento dos grãos. No entanto, pode limitar as alternativas comerciais disponíveis, dependendo das características do produto e das exigências de cada comprador.
Excesso de umidade afeta a classificação dos grãos
A qualidade da aveia-branca é um fator importante para sua comercialização, especialmente quando o destino é a indústria de alimentos. Parâmetros como coloração, acidez e peso do hectolitro ajudam a avaliar as características do produto e sua adequação às especificações dos compradores.
O peso do hectolitro, conhecido como PH, é um dos indicadores utilizados na classificação comercial dos cereais. Valores baixos podem dificultar o atendimento a determinados padrões industriais, embora a avaliação de um lote dependa de um conjunto de critérios, e não apenas desse indicador.
Até o levantamento divulgado em 15 de outubro, a Emater não havia quantificado o volume de aveia-branca redirecionado para alimentação animal nem a diferença entre os preços obtidos nos mercados industrial e de nutrição animal.
Dessa forma, ainda não é possível dimensionar o impacto financeiro específico da perda de qualidade sobre a renda dos produtores de Ijuí.
Temporais provocam perdas superiores a 50% em lavouras de Santa Rosa
Além dos problemas de qualidade comercial, os eventos climáticos também causaram perdas físicas na produção de aveia-branca no Rio Grande do Sul.
Na região de Santa Rosa, lavouras em final de ciclo e maturação, especialmente na porção leste, foram atingidas por ventos fortes e granizo. De acordo com a Emater, os ventos provocaram o acamamento das plantas, enquanto o granizo causou a debulha das panículas, levando à perda de grãos antes da colheita.
Nas áreas mais adiantadas do ciclo e atingidas pelos temporais, as perdas superam 50% da produção esperada.
O cenário, porém, não é uniforme. Segundo a instituição, lavouras com melhores condições de sanidade e nutrição apresentaram danos menos intensos, com expectativa de preservar mais de 70% da produtividade inicialmente projetada.
A diferença reforça a influência do estágio de desenvolvimento das plantas e das condições de manejo sobre a capacidade de cada lavoura de enfrentar eventos climáticos adversos.
Colheita avança em ritmos diferentes nas regiões produtoras
O andamento dos trabalhos também varia entre as principais regiões produtoras de aveia-branca no Estado.
Em Frederico Westphalen, a colheita havia alcançado 53% da área cultivada. Outros 45% dos cultivos estavam em maturação e 2% permaneciam em fase de enchimento de grãos. A Emater identificou acamamento em diversas propriedades após episódios de chuva excessiva, granizo e ventos fortes, com reflexos sobre a produtividade e a qualidade da produção.
Na região de Soledade, apenas 3% da área havia sido colhida até a data do levantamento. Apesar das diferenças entre as lavouras, a avaliação da instituição indicava um padrão produtivo satisfatório, influenciado pelo nível tecnológico empregado pelos produtores.
Os dados mostram que a safra apresenta condições distintas conforme a localização, o estágio das plantas e a intensidade dos eventos meteorológicos.
Por isso, as perdas superiores a 50% registradas em áreas específicas de Santa Rosa não devem ser interpretadas como uma estimativa para o conjunto da produção estadual.
Produtividade estimada está abaixo da registrada em 2025
A safra 2026 também apresenta diferenças em relação à temporada anterior, especialmente quanto às condições de qualidade observadas em Ijuí.
No fim de novembro de 2025, quando a colheita da aveia-branca estava praticamente concluída no Rio Grande do Sul, a Emater estimava produtividade média de 2.445 quilos por hectare. Na região de Ijuí, a qualidade dos grãos era considerada excelente, favorecendo a comercialização para a indústria alimentícia.
Para a safra atual, a produtividade média estadual está projetada em 2.322 quilos por hectare, aproximadamente 5% abaixo da estimativa divulgada no fim de novembro do ano passado.
A comparação, contudo, exige cautela. O número referente a 2025 foi divulgado quando os trabalhos estavam praticamente finalizados, enquanto a estimativa de 2026 ainda considera uma colheita em estágio inicial.
Além disso, a produtividade média não reflete, isoladamente, os problemas de qualidade e as perdas localizadas provocadas pelos temporais.
O contraste mais evidente está nas condições comerciais de parte da produção de Ijuí. Em 2025, os grãos apresentavam características favoráveis ao processamento industrial; neste ano, lotes colhidos enfrentam dificuldades para atender a esse mercado.
Preços da aveia-branca variam entre regiões do RS
O informativo da Emater também apresentou referências regionais de preços para a aveia-branca em 15 de outubro.
Em Ijuí, o valor médio informado foi de R$ 50,40 por saca de 60 quilos. Em Soledade, a referência chegou a R$ 66,00, enquanto Frederico Westphalen registrou R$ 72,00 por saca.
Esses valores representam referências de mercados regionais distintos e não permitem calcular diretamente o deságio provocado pela perda de qualidade dos grãos. Para isso, seria necessário comparar produtos de características equivalentes, considerando também o destino comercial e as condições efetivas de negociação.
A Emater não apresentou, no levantamento citado, dados suficientes sobre volumes comercializados, contratos ou preços efetivamente recebidos pelos produtores para estimar o impacto financeiro dos problemas de qualidade.
Clima será decisivo para o resultado final da safra
Com apenas 22% da área estadual colhida até 15 de outubro, o resultado da safra de aveia-branca no Rio Grande do Sul ainda dependerá da evolução das condições meteorológicas e do avanço dos trabalhos no campo.
As chuvas frequentes dificultam a operação das máquinas e podem comprometer a qualidade dos grãos, enquanto os temporais já provocaram perdas expressivas em lavouras específicas.
Para os produtores, o desafio é preservar o volume restante da produção e identificar a destinação comercial mais adequada para cada lote colhido.
O cenário da safra 2026 demonstra que o desempenho da aveia-branca não será determinado apenas pela produtividade por hectare. A qualidade dos grãos, as condições de colheita e a possibilidade de atender às exigências dos diferentes mercados também serão fatores importantes para definir o resultado econômico da cultura no Rio Grande do Sul.
Fonte: Portal do Agronegócio
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