Safra de trigo em Santa Catarina pode cair 37% e chuvas ameaçam qualidade dos grãos no Sul
Excesso de precipitações durante a colheita prejudica o cereal no Paraná e no Rio Grande do Sul, enquanto Santa Catarina prevê produção de 243 mil toneladas; dificuldade de abastecimento pressiona a indústria de moagem e os preços da farinha
Publicado em: 20/10/2026 às 18:00hs
A safra de trigo 2026/27 enfrenta desafios no Sul do Brasil, com excesso de chuvas durante a colheita, perda de qualidade dos grãos e dificuldades de comercialização. O cenário preocupa produtores rurais, cooperativas e indústrias de moagem, especialmente diante da oferta restrita de cereal com padrão adequado para a fabricação de farinha.
Em Santa Catarina, a produção está estimada em 243 mil toneladas, uma redução de aproximadamente 37% em relação ao ano comercial anterior. Além da queda no volume produzido, a menor disponibilidade de trigo com qualidade industrial amplia a pressão sobre o mercado regional.
A análise da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA) aponta que a qualidade do cereal será determinante para as negociações ao longo da temporada. A concorrência com o trigo argentino também limita as perspectivas de valorização do produto nacional.
Chuvas comprometem a qualidade do trigo no Paraná e no Rio Grande do Sul
No Paraná, a colheita havia alcançado 75% da área cultivada até 12 de outubro. Apesar do avanço dos trabalhos no campo, as precipitações provocaram perdas, sobretudo nas características comerciais dos grãos, dificultando a obtenção de trigo dentro dos padrões exigidos pela indústria.
No Rio Grande do Sul, os trabalhos atingiam 28% da área plantada no período analisado, também com registros de problemas de qualidade. Em âmbito nacional, a colheita chegava a 40,3% da área cultivada.
As condições climáticas durante essa fase são decisivas para o resultado comercial da safra. Mesmo quando o volume colhido é preservado, a deterioração da qualidade pode reduzir o valor recebido pelo produtor e restringir as possibilidades de venda para determinados segmentos da indústria.
Preços do trigo variam conforme a região e a qualidade do cereal
No mercado físico, o preço médio semanal recebido pelos produtores gaúchos ficou em R$ 74,15 por saca de 60 quilos, segundo levantamento da Emater. No Paraná, as referências de mercado permaneciam entre R$ 79 e R$ 80 por saca, conforme o boletim da CEEMA.
No Rio Grande do Sul, as negociações também apresentavam diferenças entre o trigo da safra anterior e o cereal recém-colhido. Para o produto da temporada passada, vendedores indicavam valores próximos de R$ 1.600 por tonelada FOB, enquanto compradores ofereciam cerca de R$ 1.550 por tonelada.
Já o trigo da nova safra registrava negócios pontuais a R$ 1.400 por tonelada, refletindo as condições de comercialização do produto disponível.
O cereal de qualidade inferior também apresentava cotações específicas. No porto, o triguilho era negociado próximo de R$ 1.100 por tonelada, abaixo dos valores atribuídos ao trigo com características comerciais superiores.
Trigo argentino aumenta a concorrência no mercado brasileiro
A oferta internacional é outro fator que influencia as negociações do trigo no Brasil. Segundo informações da TF Agroeconômica citadas pela CEEMA, o cereal argentino apresentava indicações de US$ 305 por tonelada em Rio Grande e US$ 310 por tonelada em Canoas.
A presença do produto importado aumenta a concorrência com o trigo nacional, especialmente em um momento em que parte da produção brasileira enfrenta problemas de qualidade.
Para os compradores, a decisão de aquisição considera fatores como preço, padrão industrial, disponibilidade e logística. Nesse contexto, o cereal importado pode ganhar espaço quando apresenta condições comerciais mais competitivas ou atende às especificações exigidas pelos moinhos.
Santa Catarina prevê redução de 37% na produção de trigo
Em Santa Catarina, a perspectiva é de uma safra menor em 2026/27. A área cultivada com trigo deve ter recuado aproximadamente 35%, enquanto a produção está estimada em 243 mil toneladas, queda de cerca de 37% em relação ao ano comercial anterior.
A redução da área plantada, combinada às dificuldades relacionadas à qualidade do cereal no Sul do país, reforça a preocupação com o abastecimento da indústria de moagem.
Conforme informações da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), moinhos catarinenses relataram reajuste de 11,5% nas tabelas de preços da farinha, em meio às dificuldades para encontrar trigo com características adequadas ao processamento.
O movimento evidencia como as condições da safra podem repercutir em etapas posteriores da cadeia produtiva, alcançando a indústria de alimentos e o mercado de derivados do cereal.
Qualidade será decisiva para o mercado de trigo na safra 2026/27
Com a colheita ainda em andamento nos principais estados produtores do Sul, o mercado acompanha a disponibilidade de trigo tipo 1 e a proporção da produção que atende às exigências da indústria.
O volume total colhido continua sendo um indicador importante, mas não determina sozinho o desempenho comercial da safra. A qualidade dos grãos influencia o preço, o destino da produção e a capacidade de atender à demanda dos moinhos.
A combinação de chuvas durante a colheita, redução da produção catarinense e concorrência do trigo argentino deverá continuar no centro das negociações da temporada 2026/27.
Para os produtores, o cenário reforça a importância de acompanhar as condições de comercialização e as diferenças de preço conforme a qualidade do cereal. Para a indústria, a disponibilidade de matéria-prima dentro dos padrões exigidos permanece um dos principais pontos de atenção.
Fonte: Portal do Agronegócio
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