Preço do arroz reage após meses de queda, mas importações limitam recuperação
Indicador da Safras & Mercado chega a R$ 83,79 por saca; menor oferta doméstica sustenta cotações, enquanto consumo e concorrência do Mercosul definem os próximos movimentos
Publicado em: 29/10/2026 às 10:35hs
O mercado brasileiro de arroz apresenta sinais de recuperação após um período prolongado de preços baixos e margens pressionadas no campo. A redução da oferta disponível e a reação das cotações internacionais ajudam a sustentar os valores, mas o ritmo de consumo e a competitividade do produto importado ainda limitam o avanço das negociações.
Esse cenário foi apresentado pelo analista Evandro da Silva Oliveira, da Safras & Mercado, durante webinar promovido pelo Sistema Faesc/Senar na segunda-feira (26). Especialista nos mercados de arroz e feijão, ele avaliou preços, comércio exterior, câmbio e perspectivas para a próxima safra.
Na análise apresentada, o indicador da Safras & Mercado atingiu R$ 83,79 por saca, em média ponderada pela representatividade das regiões acompanhadas. O movimento representa uma mudança em relação aos meses em que as cotações ficaram abaixo de R$ 60 e chegaram à faixa de R$ 50 a R$ 55 nas principais áreas produtoras do Sul.
Preço do arroz avança no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina
Segundo Oliveira, negócios pontuais no Rio Grande do Sul foram registrados entre R$ 80 e R$ 82 por saca, sobretudo na Fronteira Oeste. Os valores variam conforme a localização e a qualidade do cereal.
Em Santa Catarina, as indicações apresentadas no encontro ficaram entre R$ 72 e R$ 76 por saca.
A recuperação ocorre em um momento de menor disponibilidade de arroz para comercialização. Conforme o analista, uma parcela expressiva da produção foi vendida anteriormente a preços que geraram prejuízos aos agricultores.
Com estoques mais restritos, parte dos produtores passou a dosar as vendas e a buscar condições mais favoráveis. Esse comportamento, combinado à valorização internacional, reforça a sustentação das cotações.
Indústria enfrenta dificuldade para acompanhar as pedidas
Apesar da reação dos preços ao produtor, as negociações ainda encontram resistência na indústria. De acordo com Oliveira, compradores têm dificuldade para absorver as novas pedidas, especialmente quando superam R$ 80 por saca.
Um dos obstáculos está no varejo, que ainda comercializa estoques adquiridos a custos menores e apresenta reposição mais lenta. Essa dinâmica dificulta a transmissão da alta da matéria-prima ao longo da cadeia.
Durante o webinar, o analista citou promoções de pacotes de cinco quilos de arroz entre R$ 12 e R$ 14 nos supermercados. Na avaliação dele, esses valores estão desalinhados com o custo atual do cereal.
Oliveira apontou que preços próximos de R$ 18 por pacote poderiam favorecer um equilíbrio maior entre os diferentes elos da cadeia. Trata-se de uma avaliação apresentada no encontro, sem indicação de que esse patamar já predomine no varejo.
Consumo no fim do ano será decisivo para sustentar os preços
O desempenho das vendas domésticas será um dos principais fatores para a continuidade da recuperação. Segundo o especialista, cerca de 85% da produção brasileira de arroz é destinada ao mercado interno.
Por isso, o comportamento do consumo em novembro e dezembro terá influência direta sobre a demanda da indústria e a reposição dos estoques.
Uma aceleração das compras poderá abrir espaço para novas valorizações ou ajudar a reduzir o risco de recuos. Caso a demanda permaneça lenta, a resistência dos compradores tende a continuar limitando os negócios.
Importações acompanham crescimento das exportações de arroz
O avanço dos embarques brasileiros não se traduz, isoladamente, em uma redução expressiva da oferta interna. Isso ocorre porque as importações também cresceram, mantendo a concorrência com o arroz nacional.
Conforme os dados apresentados no webinar, entre março e setembro, o Brasil exportou 1,145 milhão de toneladas em base casca, alta de 24,2% em relação ao período comparável da temporada anterior.
No mesmo intervalo, as importações somaram 1,123 milhão de toneladas, crescimento de 26,5%. Os volumes próximos mostram por que a análise do comércio exterior precisa considerar os dois fluxos.
Oliveira destacou a participação do Paraguai e de outros fornecedores do Mercosul no abastecimento brasileiro. Quando os produtores nacionais restringem as vendas e elevam suas pedidas, o produto estrangeiro pode se tornar uma alternativa para a indústria.
Câmbio e mercado internacional influenciam a competitividade
O câmbio também contribuiu para tornar as compras externas mais atrativas. Na exposição, o analista mencionou momentos em que o dólar chegou a R$ 4,98 e períodos anteriores com valores inferiores a esse nível.
Um dólar mais baixo favorece a competitividade do arroz importado e amplia a pressão sobre o produto brasileiro.
No mercado internacional, Oliveira relacionou a reação dos preços às preocupações climáticas associadas ao El Niño, com possíveis efeitos sobre a produção no Mercosul e, principalmente, na Ásia.
A avaliação também considerou os dados de oferta e demanda divulgados em outubro pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), além dos primeiros indicativos para a nova safra.
Perspectivas para o arroz exigem atenção à oferta e à demanda
O cenário apresentado aponta para uma recuperação que depende da combinação entre disponibilidade interna, consumo, câmbio e comportamento das importações.
A menor oferta nas mãos dos produtores oferece suporte aos preços. Entretanto, a concorrência do Mercosul e a dificuldade de repasse ao varejo seguem como fatores de atenção para a cadeia.
Para Santa Catarina, segundo maior produtor nacional de arroz, acompanhar esses movimentos é especialmente relevante. O presidente do Sistema Faesc/Senar, José Zeferino Pedrozo, destacou que as análises de mercado ajudam produtores e técnicos a compreender os ciclos de preços e a orientar decisões na atividade.
Próximo webinar abordará os mercados de milho e soja
Os encontros do Sistema Faesc/Senar com a Safras & Mercado são realizados a cada dois meses e discutem segmentos importantes para o agronegócio catarinense.
A programação atende produtores rurais, dirigentes sindicais, equipes da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), profissionais do Sistema Faesc/Senar/Sindicatos e demais interessados.
A próxima edição está prevista para 15 de dezembro, às 19 horas, com análise das perspectivas de oferta e demanda global de milho e soja. O palestrante será Fernando Iglesias, analista de mercado sênior da Safras & Mercado.
As inscrições são gratuitas pelo site sistemafaesc.com.br.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias