Farinha de triticale pode substituir 100% do trigo em biscoitos, apontam testes
Avaliações da Vilma Alimentos com a Embrapa Trigo identificam aplicações na indústria alimentícia; em Minas Gerais, parcelas experimentais irrigadas superaram seis toneladas de grãos por hectare.
Publicado em: 19/10/2026 às 16:00hs
A farinha de triticale pode substituir integralmente a farinha de trigo em dois tipos de biscoitos, mantendo a qualidade dos produtos, segundo testes realizados pela Vilma Alimentos, em parceria com a Embrapa Trigo. As avaliações industriais de 2026 ampliam as perspectivas de uso do cereal na alimentação humana e abrem oportunidades para seu cultivo no Cerrado.
O trabalho analisou a aplicação da farinha em 11 produtos alimentícios. De acordo com Sérgio Gonçalves, diretor técnico da Vilma Alimentos, os resultados indicaram viabilidade de utilização em seis deles, com substituição total em dois tipos de biscoitos e parcial em outras formulações.
A pesquisa industrial utilizou a cultivar BRS Saturno, da Embrapa. Paralelamente, avaliações de campo em Minas Gerais buscam identificar materiais com desempenho agronômico adequado às condições de cultivo.
Indústria de biscoitos é um dos mercados potenciais
Entre os resultados apresentados, os biscoitos moldados permitiram substituir até 100% da farinha de trigo, com boa expansão e características semelhantes às da formulação convencional.
Nos biscoitos laminados doces, conhecidos como biscoitos de maisena, a substituição chegou a 30%, preservando os padrões de textura, cor e sabor.
Também foram identificadas possibilidades de uso parcial em wafers, bolos e pizzas. As proporções dependem das características exigidas por cada produto.
Segundo a pesquisadora Jane Machado, da Embrapa Trigo, a indústria de biscoitos representa um dos principais mercados potenciais para o cereal produzido no Cerrado. Ela destaca que o triticale contribui para a crocância e a firmeza e, nas aplicações avaliadas, pode dispensar aditivos utilizados para obter esses atributos.
Os grãos inteiros ou moídos também apresentam possibilidades de aproveitamento em cereais matinais e produtos dietéticos, conforme a pesquisadora.
Menor força de glúten exige ajustes na panificação
O comportamento da farinha de triticale varia conforme a aplicação. Nas avaliações de panificação relatadas, a mistura indicada foi de 50% de farinha de trigo e 50% de triticale, restrita à fabricação de pães de baixo crescimento.
As análises mostram que a farinha do cereal é mais escura e apresenta menor força de glúten, característica que exige mesclas com trigo para determinadas formulações.
A investigação industrial teve uma etapa inicial em 2024, quando uma carga de 20 toneladas da BRS Saturno foi enviada do Rio Grande do Sul para avaliação no Cerrado Mineiro. Na ocasião, os testes já apontavam possibilidades de uso em biscoitos, massas para pizza e misturas para bolo.
Os novos resultados ajudam a definir aplicações e limites de substituição de acordo com o alimento produzido.
Experimentos em Minas superam seis toneladas por hectare
Na Fazenda Lagoa, em Carandaí (MG), foram conduzidos experimentos em oito hectares de triticale em 2026, com um hectare destinado a cada cultivar avaliada.
O trabalho reuniu BRS Piapara, BRS Saturno, BRS Surubim, BRS Tambaqui, BRS TL 51 e BRS Zênite, da Embrapa e Fundação Meridional, além de IPR Aimoré e IPR Goitacá, do IDR-Paraná.
A semeadura ocorreu em maio e a colheita em setembro, sob irrigação. Segundo o engenheiro agrônomo Luiz Tarcísio Behm, o rendimento das parcelas ultrapassou seis toneladas por hectare, com boa sanidade e espigas bem formadas.
O desempenho ficou acima da faixa de três a quatro toneladas por hectare citada como referência para o cultivo irrigado do triticale no Cerrado. Os resultados, porém, correspondem às condições experimentais da propriedade.
Adaptação das cultivares ainda depende de avaliação
O pesquisador Osmar Conte, da Embrapa Trigo, destaca que o triticale também apresenta características favoráveis ao cultivo de sequeiro, como raízes profundas e tolerância à seca, além de adaptação a solos ácidos e arenosos.
Isso não significa que todos os materiais avaliados estejam indicados para produção de grãos no Cerrado. Segundo Conte, as análises após a colheita deverão fornecer informações para aprimorar as recomendações técnicas.
O cultivo regional ainda não aparece nas estatísticas oficiais. A adaptação de cultivares e o interesse da indústria alimentícia podem contribuir para mudar esse cenário nos próximos anos.
Cereal combina características do trigo e do centeio
O triticale é um cereal de inverno obtido pelo cruzamento entre trigo e centeio, por melhoramento genético. Seu desenvolvimento buscou combinar características de qualidade do trigo com a rusticidade do centeio.
A cultura chegou às lavouras brasileiras na década de 1980, com trabalhos da Embrapa Trigo para adaptar materiais provenientes do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo (Cimmyt), sediado no México.
Tradicionalmente utilizado no Sul do país como forragem e na alimentação de suínos e aves, o cereal amplia suas possibilidades de destino com as avaliações para consumo humano. A BRS Minotauro, lançada em 2005, foi a primeira cultivar desenvolvida no Brasil. Atualmente, são 24 cultivares cadastradas no Registro Nacional de Cultivares do Ministério da Agricultura, destinadas a diferentes usos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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