Publicado em: 16/01/2026 às 11:10hs
Um estudo conduzido por pesquisadores de Goiás e Mato Grosso, dentro do programa de melhoramento genético da Embrapa, identificou quatro linhagens de feijão carioca com alta eficiência na Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN).
As linhagens CNFC 15086, BRS Sublime, CNFC 15010 e CNFC 15003 foram selecionadas por apresentarem elevados índices de nodulação nas raízes, um indicativo de que a inoculação com microrganismos do gênero Rhizobium foi bem-sucedida. Essa característica permite que as plantas capturem o nitrogênio atmosférico e o convertam em amônia, reduzindo ou até eliminando a necessidade de fertilizantes químicos nitrogenados.
A descoberta representa um passo importante rumo a uma produção agrícola mais sustentável e de menor custo.
Segundo Helton Pereira, pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão, o estudo avaliou 19 linhagens de feijão carioca cultivadas em cinco localidades brasileiras — Anápolis e Santo Antônio de Goiás (GO), Tangará da Serra (MT), Ponta Grossa (PR) e Brasília (DF) — durante dois anos e três safras por ano (águas, seca e inverno).
Em cada local, foram realizados dois experimentos: um com adubação nitrogenada via ureia e outro com inoculação das sementes utilizando produtos comerciais à base de Rhizobium freirei e R. tropici.
As quatro linhagens com melhor desempenho serão agora cruzadas com variedades de alta produtividade no programa de melhoramento da Embrapa, com o objetivo de desenvolver novas cultivares de feijão mais eficientes e ambientalmente responsáveis.
A pesquisa é fruto de uma colaboração entre a Embrapa, o Instituto Federal Goiano (IF Goiano), a Universidade Federal de Goiás (UFG) e a Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer).
Essa integração entre instituições públicas de pesquisa tem acelerado o desenvolvimento de cultivares adaptadas às condições brasileiras e mais alinhadas aos desafios da agricultura de baixo carbono.
Apesar de a Fixação Biológica de Nitrogênio ser uma prática reconhecida como sustentável, ainda são poucos os programas de melhoramento genético que exploram seu potencial.
O pesquisador Enderson Ferreira, da Embrapa Arroz e Feijão, explica que, historicamente, os ciclos de melhoramento do feijão foram realizados com uso intensivo de fertilizantes químicos. Somente a partir de 2008 houve um aumento significativo nos estudos voltados exclusivamente à FBN.
“Os maiores avanços vêm da seleção de novas estirpes de rizóbio, mais estáveis geneticamente e resistentes a condições adversas, como altas temperaturas e solos ácidos”, destaca Ferreira.
Essas descobertas estão incentivando os programas de melhoramento a investir em cultivares que tirem melhor proveito da interação entre planta e microrganismo, reduzindo custos e impactos ambientais.
A Fixação Biológica de Nitrogênio é uma das principais estratégias da agricultura de baixo carbono, pois utiliza bactérias que transformam o nitrogênio do ar em nutrientes disponíveis para as plantas, sem causar danos ao solo, à água ou ao ar.
Diferente dos fertilizantes sintéticos, a FBN não contribui para o aumento da pegada de carbono nem para a emissão de gases de efeito estufa.
Além dos benefícios ambientais, o impacto econômico é expressivo. Os adubos nitrogenados, em grande parte importados, representam uma das parcelas mais caras do custo de produção agrícola.
Dados do Balanço Social da Embrapa 2023 mostram que o uso da FBN gerou uma economia de R$ 38 bilhões em importações de fertilizantes nitrogenados em 2021 e R$ 72 bilhões em 2022, um crescimento de 89% em apenas um ano.
O aumento do preço dos insumos, impulsionado por conflitos geopolíticos internacionais, reforçou a importância da autossuficiência tecnológica e da pesquisa nacional em alternativas como a FBN.
Mesmo em 2023, com a estabilização dos preços, a economia gerada pela tecnologia permaneceu em níveis altamente expressivos, demonstrando seu potencial econômico duradouro.
Com os resultados obtidos, a Embrapa e seus parceiros pretendem expandir os estudos genéticos e microbiológicos, acelerando a criação de variedades de feijão adaptadas a diferentes regiões brasileiras e que maximizem o uso de microrganismos fixadores de nitrogênio.
Esses avanços colocam o Brasil entre os líderes mundiais em pesquisas voltadas à agricultura regenerativa e sustentável, reduzindo a dependência de fertilizantes importados e fortalecendo a segurança alimentar.
Fonte: Portal do Agronegócio
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