Embrapa e instituições chinesas firmam parceria para levar inteligência artificial à agricultura familiar
Acordo de cinco anos prevê centro de cooperação Brasil-China, pesquisas conjuntas e unidades-piloto para adaptar máquinas inteligentes e ferramentas digitais às pequenas e médias propriedades.
Publicado em: 06/10/2026 às 14:00hs
A Embrapa e quatro instituições chinesas assinaram um Memorando de Entendimento para desenvolver e adaptar tecnologias de inteligência artificial voltadas à agricultura familiar. Firmado durante uma missão à China em setembro, o acordo prevê pesquisas conjuntas, capacitação, intercâmbio científico e implantação de centros-piloto de máquinas agrícolas inteligentes no Brasil.
Com vigência prevista de cinco anos, a parceria contempla a criação do Centro de Cooperação Brasil-China para Aplicação de IA. O objetivo é combinar o conhecimento brasileiro sobre agricultura tropical com a experiência chinesa em digitalização, automação e mecanização.
Além da Embrapa, participam a Universidade Agrícola de Nanjing (NAU), a Academia de Ciências Agrícolas de Jiangsu (JAAS), a Sinomach Digital Technology Corporation e a Associação Internacional para a Cooperação Popular (IAPC).
Inclusão digital busca reduzir distância entre produtores
Para a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, ampliar o acesso às tecnologias é necessário para evitar que a transformação digital aumente as diferenças entre os segmentos da agricultura.
“Se a gente não fizer uma inclusão digital do pequeno e médio produtor, da agricultura familiar, vai aumentar o gap entre eles e os grandes produtores”, afirma.
A proposta envolve o desenvolvimento conjunto das soluções e sua avaliação nas condições brasileiras. Segundo Massruhá, essa adaptação é essencial em um país com seis biomas e diferentes sistemas produtivos.
As tecnologias poderão atender cadeias como fruticultura, hortaliças, milho, soja e arroz. Entre as ferramentas previstas estão máquinas inteligentes, plataformas digitais, sensores, internet das coisas (IoT), análise de grandes volumes de dados e modelos de culturas.
Centros-piloto testarão máquinas inteligentes em assentamentos
Uma das frentes do acordo é a implantação de Centros de Serviços de Maquinário Agrícola Inteligente em assentamentos de agricultura familiar.
Essas unidades deverão demonstrar equipamentos e plataformas, além de permitir a avaliação das tecnologias em situações reais de produção. Sensores, dispositivos conectados e inteligência artificial poderão ser utilizados para monitorar as atividades e apoiar decisões no campo.
Também está em avaliação a integração das unidades às ações de assistência técnica e extensão rural, assim como a possibilidade de replicar as experiências em outros assentamentos.
As cooperativas participantes terão envolvimento na coleta e na gestão dos dados. O memorando prevê ainda intercâmbio de pesquisadores, técnicos e estudantes de pós-graduação, além de missões técnicas, cursos, workshops, seminários e colaboração remota.
Robótica chinesa será avaliada para uso na agricultura brasileira
Durante a missão, a delegação da Embrapa conheceu iniciativas chinesas que empregam robótica, automação e inteligência artificial na produção agrícola.
Entre os exemplos visitados estavam braços robóticos utilizados na colheita de morango, tomate, uva e outras frutas, além de sistemas que integram sensores para acompanhar informações do campo em tempo real.
Segundo Luciana Alvim Santos Romani, pesquisadora da Embrapa Agricultura Digital, a aproximação com a Sinomach abre possibilidades de adaptar essas inovações às necessidades brasileiras.
A pesquisadora cita robôs para monitoramento de plantas, contagem de frutos e estimativas de produção, além de tratores de menor porte potencialmente adequados às pequenas e médias propriedades.
Semear Digital orienta projetos a partir das demandas locais
A experiência do Semear Digital, coordenado pela Embrapa e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), deverá contribuir para a abordagem da cooperação.
O projeto atua em dez áreas-piloto, chamadas Distritos Agrotecnológicos (DATs), distribuídas por diferentes regiões do Brasil. As atividades abrangem café no Sudeste, fruticultura no Sul, açaí no Norte, mel e licuri no Nordeste e integração pecuária-floresta no Centro-Oeste.
O trabalho começa pela identificação das necessidades dos produtores, associações e cooperativas. A equipe avalia problemas de conectividade, capacitação e gestão para definir quais tecnologias podem contribuir em cada contexto.
Segundo Romani, essa metodologia pode orientar a parceria Brasil-China ao combinar conhecimentos dos dois países com as demandas da agricultura familiar.
Café, mel e licuri mostram importância da organização coletiva
Em Caconde (SP), a solicitação de uma máquina de torrefação compartilhada por produtores de café levou à identificação de outras necessidades, como energia, conectividade, capacitação e produção de bioinsumos.
A experiência contribuiu para a transformação da associação local em cooperativa e para a conquista do selo de café orgânico. A piscicultura também passou a integrar as alternativas de diversificação de renda, com aprimoramento de aplicativos para apoiar a gestão da produção de peixes.
Em Boa Vista do Tupim (BA), o projeto acompanhou a formação de duas cooperativas em setembro: Florada do Sertão e Raízes do Tupim, ligadas às cadeias do mel e do licuri.
Os agricultores participaram de formação em cooperativismo ao longo de dois anos. A atuação também inclui uma associação de mulheres dedicada à produção de mel, com orientações sobre estrutura e procedimentos produtivos.
Ferramentas digitais apoiam açaizais e pomares de maçã
Em Breves (PA), no Marajó, o Semear Digital combina conhecimentos sobre manejo de mínimo impacto de açaizais nativos e uso de abelhas nativas na polinização.
Na comunidade de Jupatituba, os ribeirinhos tiveram acesso à plataforma Infobee, voltada à meliponicultura, e ao aplicativo Manejatech-açaí. Segundo o projeto, resultados preliminares indicam aumento da produtividade e benefícios relacionados à biodiversidade, ao bem-estar social e à segurança alimentar.
Em Vacaria (RS), as pesquisas incluem um protótipo de robô para estimar a produção dos pomares de maçã. O trabalho também busca soluções para desafios como a escassez de mão de obra e contempla produtores de pequenas frutas, como amora e framboesa.
A capacitação acompanha os testes tecnológicos. Em uma oficina realizada em agosto, agricultores aprenderam a montar e operar miniestações meteorológicas, com acesso pelo celular a dados de chuva, temperatura e umidade para auxiliar o planejamento das operações.
Cooperação integra agenda de agricultura digital da Embrapa
Massruhá situa a parceria em uma estratégia que reúne agricultura de baixo carbono, produtos de base biológica e agricultura digital.
A expectativa é associar os dados e o conhecimento da Embrapa sobre sistemas tropicais às novas ferramentas para aprimorar a produção, apoiar políticas públicas e desenvolver modelos de negócio para os agricultores familiares.
A implantação dos projetos deverá priorizar a adaptação e a validação das soluções, considerando as condições produtivas, a infraestrutura e as necessidades de cada região.
Fonte: Portal do Agronegócio
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