Embalagem de papelão com composto do orégano triplica conservação de morangos em estudo
Tecnologia desenvolvida por pesquisadores brasileiros e franceses ampliou a vida útil dos frutos de três para nove dias sob refrigeração e apresentou ação contra fungos
Publicado em: 08/10/2026 às 12:30hs
Uma embalagem de papelão ondulado com carvacrol, composto natural presente no orégano, ampliou de três para nove dias a vida útil de morangos sob refrigeração, nas condições avaliadas por pesquisadores brasileiros e franceses. A tecnologia utiliza uma estrutura multicamada para controlar a liberação da substância, retardar a deterioração e preservar características de qualidade dos frutos.
O estudo reuniu cientistas da Embrapa Instrumentação, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Grenoble Alpes (UGA), na França.
Produzida com material celulósico, biodegradável e reciclável, a embalagem abre perspectivas para reduzir perdas após a colheita e desenvolver alternativas ao plástico na cadeia de frutas e hortaliças. O resultado corresponde a uma prova de conceito, etapa experimental de avaliação da tecnologia.
Estrutura multicamada controla liberação do carvacrol
Segundo Marcos David Ferreira, pesquisador responsável pelo trabalho na Embrapa Instrumentação, o desenvolvimento combinou diferentes papéis de revestimento nas superfícies interna e externa da embalagem. O carvacrol foi incorporado à camada intermediária do papelão ondulado.
O desafio foi controlar a velocidade com que o composto saía dessa estrutura e chegava ao ambiente ao redor dos morangos. A configuração dos revestimentos mostrou-se determinante para prolongar o efeito antimicrobiano durante o armazenamento.
“As melhores configurações retardam a liberação o suficiente para permanecerem eficazes durante o armazenamento, ajudando a atrasar a podridão fúngica e a preservar as características essenciais de qualidade da fruta”, explica Ramon Peres Brexó, pós-doutorando da equipe de Ferreira.
Experimento avaliou 120 morangos produzidos em Minas Gerais
A tecnologia foi testada em 120 morangos da cultivar San Andreas, produzidos em Bom Repouso, no Sul de Minas Gerais. Os frutos foram acondicionados em bandejas de papelão ativo e armazenados por nove dias, a aproximadamente 10 °C.
A avaliação combinou análises microbiológicas e físico-químicas. Os pesquisadores também utilizaram uma análise de agrupamento para acompanhar, de forma integrada, as mudanças na qualidade dos frutos ao longo do experimento.
Os morangos mantidos nas embalagens ativas preservaram melhor a cor vermelha, a firmeza da polpa e os parâmetros de acidez e sólidos solúveis, indicando desaceleração do processo de envelhecimento.
Papelão ativo inibiu fungo associado à podridão-mole
Nos testes de laboratório, o papelão contendo carvacrol inibiu o desenvolvimento de Rhizopus stolonifer, fungo causador da podridão-mole e um dos agentes que comprometem a conservação dos morangos.
A ação antifúngica do material foi observada mesmo após 14 dias de exposição ao ar livre, em temperatura ambiente. Esse resultado se refere ao teste do papelão em laboratório, enquanto a avaliação com os frutos ocorreu sob refrigeração.
De acordo com a equipe, os resultados demonstram que a estrutura multicamada pode atuar como embalagem ativa, com desempenho condicionado à forma de incorporação e liberação do composto.
Conservação pós-colheita pode ajudar a reduzir desperdício
A elevada perecibilidade do morango representa um desafio para produtores, transportadores e distribuidores. A atividade metabólica intensa, a sensibilidade a danos no transporte e o crescimento de fungos reduzem o período disponível para comercialização.
Para Ferreira, prolongar a conservação pode contribuir para diminuir perdas ao longo da cadeia. O experimento oferece uma base para avançar no desenvolvimento de embalagens que preservem os frutos durante o armazenamento e a distribuição.
O uso do papelão também amplia as possibilidades de substituição de embalagens plásticas em aplicações nas quais o material consiga atender às exigências de conservação e logística.
Próxima etapa vai aprofundar estudos sobre liberação do composto
Os pesquisadores pretendem aprofundar a análise da liberação e da difusão do carvacrol no papelão, buscando aprimorar a tecnologia e compreender melhor seu comportamento durante o armazenamento.
A pesquisa recebeu apoio da Cellulose Valley Chair, da Grenoble INP Foundation, do Institut Carnot PolyNat, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Fonte: Portal do Agronegócio
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