Pesquisas

Bactérias endofíticas fortalecem cultivo de pimenta-do-reino e reduzem uso de químicos

Estudo brasileiro mostra que linhagens de Priestia e Lysinibacillus aumentam enraizamento de estacas e produtividade de mudas


Publicado em: 08/04/2026 às 12:30hs

Bactérias endofíticas fortalecem cultivo de pimenta-do-reino e reduzem uso de químicos
Foto: Ronaldo Rosa
Microrganismos podem transformar o cultivo da pimenta-do-reino

Pesquisadores brasileiros identificaram duas bactérias endofíticas — Priestia sp. T2.2 e Lysinibacillus sp. C5.11 — com potencial para melhorar o crescimento e o enraizamento de estacas de pimenteira-do-reino, uma das especiarias mais importantes para a economia nacional.

A pesquisa foi conduzida entre 2023 e 2024 na Embrapa Amazônia Oriental, e os experimentos mostraram resultados expressivos no desenvolvimento de mudas da variedade Singapura, destacando-se pelo aumento do tamanho das plantas e da massa seca das raízes e parte aérea.

Estacas mais vigorosas garantem mudas produtivas

A estaquia, técnica de reprodução vegetativa que utiliza pequenos galhos da planta-mãe, enfrenta um desafio histórico: muitas estacas apresentam baixo enraizamento, prejudicando a produção de mudas uniformes e sadias.

Segundo Alessandra Nakasone, “um pimental produtivo se inicia com uma muda sadia. A descoberta de bioinsumos que aumentam o enraizamento traz mais segurança aos pequenos produtores e plantas mais vigorosas e produtivas.”

Resultados dos experimentos com bactérias endofíticas

Os experimentos mostraram que:

  • Priestia sp. T2.2 aumentou em até 75% a altura das plantas e 136% a massa seca da parte aérea.
  • Lysinibacillus sp. C5.11 promoveu crescimento de 333% na massa seca das raízes.
  • Uma terceira linhagem, Bacillus sp. C1.4, apresentou efeitos positivos na parte aérea, porém em menor escala.

Os efeitos positivos foram atribuídos à produção de ácido indolacético (AIA), hormônio natural que regula o crescimento vegetal, e sideróforos, compostos que tornam o ferro mais disponível para as plantas.

Sustentabilidade e redução do uso de químicos

O uso de microrganismos benéficos contribui para reduzir a dependência de fertilizantes e defensivos químicos, promovendo maior sustentabilidade na produção de pimenta-do-reino.

“Essas bactérias solubilizam nutrientes do solo, tornando-os mais disponíveis para absorção pelas raízes e garantindo plantas mais saudáveis”, explica Nakasone.

Produção nacional e relevância econômica

O Brasil é o segundo maior produtor mundial de pimenta-do-reino, com quase 125 mil toneladas em 2024, segundo o IBGE. O valor da produção nacional saltou de R$ 1,65 bilhão em 2023 para mais de R$ 3,67 bilhões em 2024, um aumento de 122% em apenas um ano.

Os estados do Espírito Santo e Pará concentram mais de 90% da produção nacional, com destaque para a agricultura familiar e práticas sustentáveis na produção paraense.

Microrganismos aliados do crescimento e enraizamento

Bactérias endofíticas vivem dentro dos tecidos das plantas sem causar doenças e podem desempenhar funções essenciais, como produção de fitormônios, fixação de nitrogênio, solubilização de nutrientes e aumento da resistência a estresses ambientais.

Em outras culturas, como cítricas, milho e cana-de-açúcar, esses microrganismos já demonstraram benefícios semelhantes. No caso da pimenta-do-reino, as novas linhagens detalham os mecanismos fisiológicos responsáveis pelo crescimento e enraizamento, reforçando a importância da biotecnologia no manejo sustentável.

Vantagens da propagação por estacas

A propagação por estacas mantém as características genéticas da planta-mãe e reduz o tempo até a frutificação, mas enfrenta o desafio do baixo enraizamento. A inoculação com bactérias endofíticas surge como solução para garantir mudas mais vigorosas, uniformes e produtivas, aumentando o retorno financeiro para os produtores.

Regulamentação de bioinsumos fortalece o setor

A Lei Federal nº 15.070/2024 trouxe mais segurança jurídica ao uso de bioinsumos no Brasil. Produtos biológicos desenvolvidos a partir de microrganismos, como Priestia e Lysinibacillus, não são classificados como pesticidas e podem ser utilizados na agricultura, desde que comprovada sua segurança.

Segundo Katia Nechet, essas linhagens poderão se transformar em produtos acessíveis para controle de doenças e promoção do crescimento das mudas, fortalecendo toda a cadeia produtiva da pimenta-do-reino.

Próximos passos e testes em campo

Os pesquisadores planejam testar as bactérias em campo, em diferentes variedades e sistemas de cultivo, como o plantio em tutor vivo de gliricídia. O objetivo é confirmar o desempenho das cepas em larga escala e verificar sua aplicação em diferentes condições agrícolas.

Segundo Oriel Lemos, “a biotecnologia se mostra como uma ferramenta estratégica para a agricultura familiar, promovendo sustentabilidade ambiental, econômica e social.”

Equipe de pesquisa

O estudo contou com a participação de pesquisadores de diversas instituições: Unifesspa, Embrapa Florestas, UFLA, UFRPE, UFPA e Embrapa Meio Ambiente.

A pesquisa reforça a importância da ciência aplicada na agricultura sustentável e no fortalecimento da produção de pimenta-do-reino no Brasil.

Artigo Completo

Fonte: Portal do Agronegócio

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