Publicado em: 11/03/2026 às 16:30hs
Pesquisadores da Embrapa Agroenergia, em Brasília, estão avaliando algas marinhas da costa brasileira como matéria-prima para bioestimulantes agrícolas capazes de aumentar a tolerância de culturas a períodos de déficit hídrico. Testes em casa de vegetação com canola e trigo cultivados no Cerrado registraram ganhos expressivos: até 160% no número de síliquas da canola e até 12% no crescimento radicular do trigo, características associadas à proteção da produtividade sob estresse hídrico.
O projeto, chamado Algoj, é conduzido com a parceria da empresa CBKK e recursos da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), e vem sendo desenvolvido desde 2023 pelas pesquisadoras Simone Mendonça e Patrícia Abrão.
Enquanto na canola o efeito se concentra na formação das síliquas, estruturas que determinam o potencial produtivo, no trigo o impacto é percebido no crescimento radicular, estratégia que fortalece a planta frente à seca. Segundo as pesquisadoras, os experimentos ainda precisam ser validados em condições de campo, uma vez que casa de vegetação mantém temperatura e umidade controladas.
“Mesmo que os números não se repitam integralmente em campo, conseguimos observar efeitos claros que indicam grande potencial de aumento da produtividade”, explica Simone Mendonça.
Além da função agrícola, as algas marinhas brasileiras são abundantes e representam fonte de emprego e renda para comunidades pesqueiras. “É uma oportunidade de trabalhar com recursos da biodiversidade nacional e contribuir para adaptação às mudanças climáticas”, ressalta Mendonça.
Nos dois primeiros anos do projeto, quatro espécies de algas foram estudadas, com três selecionadas para continuidade. O foco está na extração de metabólitos secundários — compostos em pequenas quantidades, mas com função de sinalizadores químicos que estimulam o crescimento e o desenvolvimento das plantas.
O desenvolvimento do bioestimulante começou com experimentos em mudas de tomate grape BRS Zamir, da Embrapa. Os extratos mais promissores foram então aplicados em trigo e canola do Cerrado, culturas de inverno submetidas a longos períodos de estiagem.
Nos ensaios, a canola tratada apresentou antecipação do florescimento e maior formação de síliquas em comparação a plantas tratadas com produtos comerciais de referência. No trigo, o crescimento das raízes aumentou entre 10 e 12%, reforçando a tolerância ao estresse hídrico.
Para viabilizar o produto, os pesquisadores desenvolveram um extrato seco (pó molhável) por spray dryer, garantindo estabilidade e transporte mais fácil. O processo protegeu os fitormônios sensíveis e atingiu rendimento de até 80%, com apenas 1,5% de umidade no produto final.
Com os experimentos em casa de vegetação concluídos em janeiro de 2026, o projeto busca agora ampliar os testes em campo, visando definir dosagem, período de aplicação e adaptação a diferentes regimes de chuva.
“Ainda precisamos entender se o melhor caminho é misturar as algas ou aplicar cada espécie separadamente, além de avaliar o desempenho em regiões com chuvas irregulares. Somente os testes em campo permitirão respostas concretas”, explica Mendonça.
O projeto Algoj aponta para uma alternativa tecnológica promissora para regiões de baixa chuva, oferecendo maior resiliência às lavouras frente a veranicos e secas prolongadas, além de valorizar a biodiversidade brasileira.
Fonte: Portal do Agronegócio
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