Publicado em: 06/07/2026 às 08:00hs
Aplicações inadequadas de produtos fitossanitários na agricultura têm colocado em risco os polinizadores, que são organismos responsáveis por movimentar bilhões de reais na produção agrícola brasileira. Um levantamento da Agência Pública e da Repórter Brasil estima que aproximadamente meio bilhão de abelhas foram mortas no país em decorrência da exposição a esses produtos, acendendo um alerta para impactos que vão além da biodiversidade e atingem diretamente a produtividade dos cultivos.
A importância dos polinizadores vai muito além da preservação ambiental. Diversas culturas agrícolas dependem da polinização, em maior ou menor grau, para alcançar maiores índices de produtividade, qualidade e uniformidade de frutos, sementes e grãos. Entre elas estão culturas de grande relevância econômica para o Brasil, como café, soja, maçã e maracujá.
Embora as abelhas sejam os polinizadores mais conhecidos, elas representam apenas uma parcela desse grupo. Estima-se que cerca de 350 espécies de vertebrados polinizadores e milhares de espécies de invertebrados desempenham essa função em diferentes ecossistemas. Além das abelhas, participam do processo beija-flores, morcegos nectarívoros e outros pequenos mamíferos, besouros, moscas, borboletas e mariposas.
Essa diversidade demonstra que a proteção dos polinizadores não se restringe à preservação das colmeias. Trata-se de conservar um conjunto amplo de organismos responsáveis pela reprodução de inúmeras espécies vegetais e pelo funcionamento adequado dos sistemas produtivos e ambientais.
O impacto econômico da atuação desses organismos é expressivo. Em estudo divulgado em 2019, a Embrapa apontou que a polinização agrega aproximadamente R$ 43 bilhões por ano ao agronegócio brasileiro. O mesmo levantamento revelou que cerca de 66% das espécies cultivadas no país dependem da ação dos polinizadores para expressar seu potencial produtivo.
Outro estudo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), demonstrou que os polinizadores contribuem, em média, com 16,14% da produção agrícola nacional. Os números evidenciam que a conservação desses organismos está diretamente relacionada à segurança alimentar, à rentabilidade das propriedades rurais e à competitividade do setor agropecuário.
Para o professor Marcelo da Costa Ferreira, docente de Tecnologia de Aplicação da Unesp de Jaboticabal e líder do Núcleo de Estudo e Desenvolvimento da Tecnologia de Aplicação (Nedta), os dados reforçam a necessidade de aperfeiçoar as práticas adotadas no campo. “A proteção dos polinizadores não é incompatível com a produtividade agrícola. Hoje temos conhecimento, tecnologia e ferramentas suficientes para produzir com eficiência e, ao mesmo tempo, minimizar os riscos para esses organismos tão importantes para os ecossistemas e para a agricultura”, afirma.
Segundo o especialista, a escolha adequada dos produtos é um dos primeiros passos. Entre as recomendações estão a priorização de ingredientes ativos de menor risco e mais seletivos aos organismos benéficos, além da adoção de produtos biológicos sempre que possível. O pesquisador também destaca a importância de evitar inseticidas não seletivos durante os períodos de florescimento.
O momento da aplicação também exerce influência direta sobre a exposição dos polinizadores. Ferreira explica que as pulverizações devem ocorrer fora dos horários de maior visitação das flores, preferencialmente no final da tarde ou durante a noite. Além disso, é fundamental respeitar os períodos de floração tanto da cultura principal quanto da vegetação existente no entorno das áreas agrícolas.
Outro ponto considerado decisivo é a tecnologia de aplicação. De acordo com o pesquisador, o objetivo deve ser sempre colocar o produto correto, no alvo correto, na dose correta e no momento adequado, reduzindo perdas e minimizando a exposição de organismos não alvo.
“A aplicação precisa ser planejada para que o produto chegue apenas onde é necessário. Quando utilizamos a tecnologia de aplicação de forma adequada, aumentamos significativamente a eficiência do controle e reduzimos a exposição dos polinizadores”, destaca Marcelo da Costa Ferreira.
A escolha de tamanhos de gotas adequados, por exemplo, evita a formação excessiva de gotas finas, mais suscetíveis à deriva. Nesse contexto, a correta calibração dos pulverizadores e a manutenção periódica dos equipamentos tornam-se atitudes importantes para aumentar a eficiência das aplicações.
As condições meteorológicas também devem ser monitoradas, priorizando operações em situações de vento reduzido, temperatura moderada e umidade relativa favorável. Essas medidas ajudam a permitir que os produtos atinjam o alvo desejado e reduzam os riscos de contaminação de áreas vizinhas e de organismos benéficos.
A comunicação entre agricultores e apicultores é outra prática recomendada. Ferreira destaca que informar aplicações com antecedência de 48 a 72 horas e mapear colmeias existentes nas proximidades permite que medidas preventivas sejam adotadas para reduzir a exposição das abelhas e de outros polinizadores.
A habilitação e a reciclagem contínua de informações e de conhecimento aos operadores completa esse conjunto de ações. Programas de educacionais, certificação e atualização periódica dos conhecimentos contribuem para o uso mais seguro e eficiente dos produtos fitossanitários, reduzindo erros operacionais que podem resultar em impactos ambientais.
Além das práticas diretamente ligadas à aplicação, a manutenção de áreas de vegetação nativa, faixas-refúgio, Áreas de Preservação Permanente (APPs) e corredores de biodiversidade criam ambientes favoráveis para a sobrevivência dos polinizadores ao longo do ano. Aliadas ao Manejo Fitossanitário Integrado (MFI), embasado no monitoramento dos cultivos, da meteorologia e dos alvos fitossanitários e ao avanço da ciência aplicada à agricultura, essas estratégias demonstram que é possível produzir de forma eficiente sem comprometer organismos fundamentais para a sustentabilidade do sistema produtivo.
“Proteger e até reproduzir os polinizadores é uma responsabilidade compartilhada. Produtores, técnicos, operadores e toda a cadeia agrícola têm papel fundamental na adoção de práticas que preservem esses organismos e garantam a sustentabilidade da produção no longo prazo”, conclui Marcelo da Costa Ferreira.
Fonte: Fábrica da Palavra
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