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Conectividade e Digital

Tecnologia no campo avança, mas conexão com a realidade do produtor ainda é desafio

Painel da Fundepag no Campinas Innovation Week 2026 reuniu pesquisadores, empresas e especialistas para discutir inteligência artificial, agricultura digital, conectividade e práticas regenerativas


Publicado em: 22/09/2026 às 13:30hs

Tecnologia no campo avança, mas conexão com a realidade do produtor ainda é desafio
Foto: Miguel Luiz Menezes

A transformação tecnológica do agronegócio brasileiro avança em diferentes frentes, mas ainda enfrenta um desafio central: fazer com que as inovações desenvolvidas por empresas, universidades e centros de pesquisa sejam efetivamente incorporadas à rotina dos produtores rurais.

Essa foi uma das principais conclusões do painel “Agricultura do Futuro”, promovido pela Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa do Agronegócio (Fundepag) durante o Campinas Innovation Week 2026, em Campinas (SP). O encontro, realizado na terça-feira (15/9), reuniu pesquisadores, empresas, instituições de pesquisa e representantes do ecossistema de inovação para discutir os caminhos da agricultura diante do avanço da inteligência artificial, robótica, conectividade, análise de dados e sistemas produtivos regenerativos.

A programação foi organizada em três eixos: “Tecnologias de Futuro”, “Agricultura Digital Aplicada” e “Agricultura Regenerativa”.

Na abertura, o presidente do Conselho da Fundepag, Miguel Luiz Menezes Freitas, destacou a função das instituições de pesquisa na aproximação entre conhecimento científico e necessidades do setor produtivo.

“A Fundepag é uma ponte e sempre olha adiante, trazendo atualizações para um setor tão importante como a agricultura, que está em constante evolução”, afirmou.

Tecnologia precisa funcionar dentro da propriedade

No painel “Tecnologias de Futuro”, moderado pelo diretor-presidente da Fundepag, Álvaro Duarte, os participantes discutiram os critérios necessários para que uma inovação deixe o ambiente de desenvolvimento e passe a ser utilizada comercialmente no campo.

Participaram o professor associado da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Daniel Albiero; o coordenador de Inovação e Marketing do AgNest Farm Lab, Allan Daher; e o gestor de Inovação e Linhas de Fomento do Parque Tecnológico de Sorocaba, Eugênio Brito.

Um dos pontos destacados foi que a validação tecnológica não deve se limitar à comprovação de que determinado equipamento, software ou sistema funciona.

Segundo Daher, também é necessário avaliar se o produtor consegue utilizar a solução, se ela se adapta à operação da propriedade, se os dados produzidos contribuem para as decisões e se existe retorno econômico capaz de justificar o investimento.

A discussão também chamou atenção para as diferenças entre os perfis de produtores. Para Eugênio Brito, o desenvolvimento tecnológico precisa considerar a realidade da agricultura familiar e de pequenos e médios produtores, inclusive com soluções que apresentem custos compatíveis com diferentes níveis de produção.

Albiero, por sua vez, destacou que a agricultura digital já está presente no campo brasileiro. Entre as aplicações em expansão, citou robôs equipados com inteligência artificial como uma alternativa diante da menor disponibilidade de mão de obra em determinadas atividades.

“Não digo que é a agricultura do futuro. Hoje é a agricultura atual”, afirmou.

Dados e conectividade continuam entre os gargalos

A transformação digital também depende da capacidade de produtores e empresas de organizar, integrar e utilizar os dados gerados pelas atividades agrícolas.

Esse foi um dos focos do painel “Agricultura Digital Aplicada”, moderado pelo consultor Agtech e professor das Faculdades Pecege, Harven e CNA, Ricardo Campo.

O debate reuniu Júlio César Dalla Mora Esquerdo, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agricultura Digital; José Damico, CEO e cofundador da SciCrop; e Wellington Romero de Melo, chefe da Divisão de Projetos, Análise e Qualificação de Componentes Eletrônicos do CTI Renato Archer.

Os especialistas ressaltaram que a adoção de tecnologia deve partir dos problemas existentes no campo, e não apenas da disponibilidade de novas ferramentas.

A organização dos dados aparece como uma etapa fundamental nesse processo. Damico destacou que a aquisição de equipamentos e softwares, por si só, não garante uma transformação digital eficiente.

“Pode-se ter o melhor hardware ou software, mas é preciso organizar os dados”, afirmou.

Outro desafio está na ampliação de projetos-piloto. Uma solução desenvolvida em determinada propriedade ou região pode encontrar obstáculos quando levada para áreas com infraestrutura, clima, sistemas produtivos e perfis de produtores diferentes.

Por isso, os participantes apontaram a necessidade de investimentos não apenas em tecnologia, mas também em capacitação, infraestrutura digital e formação profissional.

Agricultura regenerativa incorpora tecnologia ao manejo do solo

A terceira frente do evento abordou a agricultura regenerativa, com foco em recuperação de áreas, saúde do solo, recuperação de pastagens e integração entre diferentes sistemas produtivos.

O painel foi moderado por Denys Eduardo Biaggi, especialista de Parcerias e Inovação do Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú (ICTi), e contou com a participação de José Eraldo Xavier Korczak, sócio administrador da MPK Agrotech; Gabriel Moura, coordenador do programa REVERTE, da Syngenta; e William Marchió, diretor de Projetos da Associação Rede ILPF.

Entre os temas discutidos estiveram o monitoramento da produção, estratégias de manejo, recuperação de pastagens degradadas e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).

Nesse modelo, ferramentas tecnológicas podem apoiar o acompanhamento das áreas e fornecer informações para ajustes nas decisões de manejo.

Marchió destacou a importância de aproximar as iniciativas de sustentabilidade dos produtores e ressaltou o papel da Associação Rede ILPF na construção de parcerias entre diferentes segmentos para levar soluções ao campo.

Korczak defendeu uma abordagem da agricultura regenerativa baseada em princípios de manejo adaptados às condições de cada propriedade. Para ele, a proximidade com o produtor é necessária para compreender as demandas e avaliar como os benefícios das práticas podem alcançar os diferentes elos da cadeia.

Já Moura destacou a necessidade de ampliar as iniciativas e gerar mais informações sobre os resultados obtidos com práticas regenerativas. Entre os exemplos citados está o Programa REVERTE®, da Syngenta, voltado à recuperação de pastagens e áreas degradadas para transformá-las em áreas produtivas, evitando a necessidade de abertura de novas áreas.

Pesquisa, tecnologia e produtor precisam estar conectados

As discussões realizadas durante os três painéis apontaram para um mesmo desafio: reduzir a distância entre a pesquisa, o desenvolvimento tecnológico e a realidade das propriedades rurais.

Nesse processo, a participação dos produtores desde as etapas de desenvolvimento e validação pode contribuir para que novas soluções sejam ajustadas às condições encontradas no campo.

Para Álvaro Duarte, a aproximação entre ciência, tecnologia, empresas e sociedade está entre os objetivos da atuação da Fundepag.

“Participar da Campinas Innovation Week é uma oportunidade de discutir um tema que será cada vez mais determinante para o desenvolvimento do Brasil, que é a capacidade de transformar ciência, tecnologia e inovação em soluções para o futuro”, afirmou.

Segundo Duarte, a Fundepag mantém parceria com 16 instituições de ciência e tecnologia, buscando aproximar o conhecimento produzido nesses ambientes das empresas e da sociedade.

O Campinas Innovation Week 2026 segue até 18 de setembro, em Campinas (SP), com programação voltada a inovação, tecnologia e negócios.

Tecnologia no agro depende de aplicação prática

O debate reforçou que a modernização do agronegócio não depende exclusivamente do surgimento de novas tecnologias. A adoção de inteligência artificial, robótica, conectividade, sistemas de dados e práticas regenerativas também exige infraestrutura, capacitação, validação em condições reais e geração de valor para o produtor.

A tendência discutida no evento aponta para um modelo no qual universidades, centros de pesquisa, startups, empresas e produtores participam conjuntamente do desenvolvimento e da adaptação das soluções tecnológicas para o campo.

Fonte: Portal do Agronegócio

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