Agricultura de Precisão reduz desperdícios ao otimizar uso de sementes, fertilizantes e defensivos
Tecnologia de aplicação combina mapas, sensores, máquinas e dados para direcionar insumos às áreas com maior potencial de resposta, mas exige diagnóstico agronômico e calibração correta
Publicado em: 17/09/2026 às 15:00hs
O desperdício de insumos agrícolas pode começar muito antes da entrada do pulverizador na lavoura. Amostras de solo que não representam adequadamente o talhão, recomendações que ignoram a variabilidade da área e máquinas desreguladas podem comprometer os resultados antes mesmo do plantio.
Nesse cenário, a tecnologia de aplicação integrada à Agricultura de Precisão ganha importância para melhorar o uso de sementes, fertilizantes e defensivos. O objetivo não é simplesmente reduzir a quantidade aplicada, mas utilizar cada insumo na dose necessária, no local adequado e no momento correto.
Segundo Marcelo Hilário, químico industrial, mestre em Agronomia e químico de Pesquisa e Desenvolvimento da Sell Agro, a eficiência depende de uma sequência que começa na qualidade do diagnóstico e termina na avaliação dos resultados alcançados no campo.
Agricultura de Precisão identifica diferenças dentro do talhão
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) define a Agricultura de Precisão como um conjunto de ferramentas e tecnologias destinado ao gerenciamento da variabilidade espacial e temporal da unidade produtiva. A estratégia busca elevar o retorno econômico e reduzir os impactos ambientais da produção.
Entre os recursos utilizados estão amostragem georreferenciada, mapas de diagnóstico e recomendação, aplicação em taxa variável, sistemas de posicionamento, sensores e plataformas de monitoramento.
O primeiro passo consiste em identificar as diferenças existentes dentro da propriedade. Dados sobre solo, relevo, histórico de produtividade, imagens e práticas de manejo podem revelar comportamentos distintos entre regiões de um mesmo talhão.
Quando essas diferenças são agronomicamente relevantes e apresentam estabilidade, elas podem orientar estratégias específicas para cada zona de manejo.
Taxa variável pode reduzir excesso de fertilizantes
Na adubação convencional, a aplicação de uma dose uniforme pode provocar excesso de nutrientes nas áreas que já apresentam fertilidade adequada e deficiência nos pontos com maior necessidade.
Um estudo conduzido durante cinco safras em dois pomares comerciais de citros, cada um com 25 hectares, em São Paulo, avaliou os efeitos da fertilização em taxa variável. As recomendações foram elaboradas com base em mapas de fertilidade do solo e de produtividade.
Os resultados indicaram redução de 34% e 29% na energia incorporada aos fertilizantes nos dois pomares. Também houve diminuição de aproximadamente 20% a 70% no excedente de nutrientes, conforme o elemento analisado.
O desempenho econômico, entretanto, não foi igual nas duas áreas. Enquanto um pomar registrou aumento de 34,7% no lucro, o outro apresentou redução de 8,5%. O estudo foi publicado em 2020 na revista Biosystems Engineering.
A diferença mostra que a adoção de tecnologia não produz economia automaticamente. Além de identificar a variabilidade, é necessário contar com diagnóstico confiável, recomendação agronômica adequada e retorno suficiente para compensar os custos da operação.
Semeadura variável amplia eficiência na distribuição de sementes
A tecnologia de aplicação também pode ser utilizada para ajustar a população de plantas às características de cada região do talhão.
Experimentos realizados pela Embrapa em propriedades comerciais de Mato Grosso e Paraná adaptaram a quantidade de sementes às diferentes condições das áreas. O trabalho foi conduzido em parceria com a Bosch, no formato on-farm, sob condições reais de produção.
Na safra de 2023, os ensaios registraram ganhos de produtividade de até 8% no milho e 3% no algodão.
Mais do que o percentual isolado, os resultados reforçam que elevar a população de plantas uniformemente em toda a propriedade não garante aumento de produção. A estratégia de precisão busca reconhecer onde determinado material ou população possui maior capacidade de resposta e ajustar a distribuição de sementes a esse potencial.
Máquinas precisam executar corretamente os mapas de aplicação
Um mapa de recomendação tecnicamente correto pode não gerar o resultado esperado quando o equipamento não consegue reproduzir a prescrição no campo.
Sistemas GNSS e RTK aumentam a precisão do posicionamento e a repetibilidade das operações. Controladores de taxa variável convertem as recomendações em comandos para as máquinas, enquanto sensores de vazão, pressão, rotação e população monitoram a execução.
A telemetria e os mapas de aplicação realizada, conhecidos como as-applied, permitem comparar o planejamento com o que efetivamente ocorreu na lavoura.
Nesse ambiente, a calibração passa a integrar diretamente a gestão dos desperdícios. Dosadores desregulados, sensores imprecisos, bicos desgastados ou divergências entre a velocidade real da máquina e a informação registrada pelo sistema podem prejudicar uma recomendação agronômica correta.
Regulagem do pulverizador reduz deriva e perdas de defensivos
Na pulverização, a eficiência não depende apenas da dose do defensivo. A calda precisa atingir o alvo em quantidade e cobertura adequadas.
Tamanho das gotas, modelo da ponta, pressão, velocidade de deslocamento, altura da barra e condições meteorológicas interferem diretamente na qualidade da aplicação. Regulagem, calibração e manutenção dos pulverizadores são fundamentais para limitar perdas por deriva e evaporação.
Um estudo publicado na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira avaliou a deriva e o espectro de gotas na aplicação de dicamba com diferentes pontas e formulações. Os resultados demonstraram que a interação entre a formulação e a configuração do equipamento altera as características da pulverização.
A tecnologia de aplicação deve, portanto, ser tratada como um sistema integrado. Um diagnóstico inadequado compromete a recomendação, enquanto falhas na regulagem da máquina impedem que uma prescrição correta seja executada com precisão.
Integração conecta tratores, implementos e sistemas de gestão
A comunicação entre máquinas e plataformas de gestão tende a ampliar a capacidade de controle das operações agrícolas. A norma ISO 11783 estabelece padrões para a troca de informações entre tratores, implementos e sistemas eletrônicos.
Essa integração inclui a comunicação entre o controlador de tarefas, conhecido como Task Controller, e os sistemas de gestão agrícola. Com isso, dados planejados e executados podem ser registrados, comparados e utilizados na avaliação dos resultados.
Sensores e inteligência artificial avançam no campo
A próxima etapa da Agricultura de Precisão envolve sensores em tempo real, algoritmos e inteligência artificial capazes de reduzir o intervalo entre identificar uma condição, tomar uma decisão e executar uma ação.
Um estudo publicado em 2023 na revista Computers and Electronics in Agriculture analisou um sistema automatizado que utilizava espectroscopia visível e infravermelha próxima para estimar a fertilidade do solo em tempo real e ajustar a taxa de semeadura.
O sistema alcançou eficiência de 87,5% no controle da taxa desejada. A semeadura variável utilizou 86,4 mil sementes por hectare, ante 90 mil no sistema uniforme, e proporcionou aumento de 4,4% na produtividade e de € 91 por hectare na margem bruta.
Os autores ressaltaram, porém, que o experimento foi realizado em uma única área e durante apenas um ano. Por isso, os resultados não podem ser automaticamente reproduzidos ou projetados para outras condições produtivas.
Automação não substitui conhecimento agronômico
O avanço das máquinas e dos sistemas digitais amplia a precisão das operações, mas não elimina a necessidade de conhecimento técnico. Um equipamento pode executar uma prescrição com alto nível de exatidão e, ainda assim, produzir um resultado insatisfatório se a recomendação estiver errada.
A principal contribuição da tecnologia de aplicação está na possibilidade de integrar quatro etapas: medir, decidir, executar e avaliar.
Com informações confiáveis, o produtor pode saber quanto aplicou, onde realizou a aplicação, qual foi a justificativa para determinada dose e qual retorno foi obtido. A propriedade deixa de ser manejada exclusivamente por médias e passa a adotar estratégias compatíveis com as características de cada área.
A redução do desperdício, portanto, começa na qualidade dos dados utilizados na tomada de decisão. Quanto mais preciso for o diagnóstico, maior será a possibilidade de direcionar cada semente e cada quantidade de fertilizante ou defensivo ao local em que o insumo pode oferecer melhor resposta agronômica e econômica.
Fonte: Portal do Agronegócio
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