Governo afasta risco de falta de fertilizantes na safra 2026/27, mas custos ainda preocupam o agro
Acordo para fornecimento de 3,8 milhões de toneladas de fosfatados, prioridade nos portos e retomada de fábricas nacionais reforçam o abastecimento; dependência das importações permanece como desafio estratégico
Publicado em: 22/09/2026 às 19:00hs
O risco de desabastecimento de fertilizantes para a safra brasileira 2026/27 está afastado neste momento, segundo o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula. A avaliação foi apresentada nesta terça-feira (22), durante a abertura do 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), em Belo Horizonte (MG).
De acordo com o ministro, o governo adotou medidas para ampliar as alternativas de fornecimento, acelerar a chegada dos produtos aos portos brasileiros e estimular a retomada da produção nacional de fertilizantes. Apesar desse cenário mais favorável, a elevada dependência externa e os custos dos insumos continuam pressionando a competitividade do agronegócio.
“Eu posso inclusive anunciar que não teremos qualquer preocupação em relação a abastecimento”, afirmou De Paula, em entrevista coletiva após a cerimônia.
Brasil ainda importa mais de 90% dos fertilizantes
Durante o congresso, André de Paula destacou que a dependência brasileira das importações permanece entre os principais desafios estruturais do setor agrícola. Segundo o ministro, mais de 90% dos fertilizantes utilizados no país vêm do exterior.
Esses produtos representam mais de 25% dos custos de diversas culturas agrícolas. Por isso, oscilações internacionais de preços, restrições comerciais, conflitos geopolíticos e problemas logísticos podem afetar diretamente o planejamento das lavouras e as margens dos produtores.
A vulnerabilidade ganha relevância na safra 2026/27 diante das tensões internacionais e da necessidade de garantir a chegada dos insumos dentro da janela adequada de plantio.
Acordo com Marrocos prevê 3,8 milhões de toneladas de fosfatados
Entre as iniciativas adotadas pelo governo está a busca por fornecedores alternativos. Na semana anterior ao congresso, uma missão brasileira esteve no Marrocos, onde o Ministério da Agricultura e Pecuária e a OCP Nutricrops assinaram um memorando de entendimento para o fornecimento de fertilizantes fosfatados.
O documento estabelece um volume de referência de 3,8 milhões de toneladas para a safra 2026/27. A quantidade equivale a aproximadamente 76% do déficit de 5 milhões de toneladas de fosfatados projetado pelo governo para o próximo ciclo agrícola.
O memorando, contudo, funciona como um pré-acordo. A efetivação das compras dependerá das condições comerciais negociadas diretamente entre a empresa marroquina e os operadores brasileiros.
Mesmo com essa ressalva, o ministro considera que a iniciativa amplia a segurança do abastecimento. “Eu diria que o fantasma do desabastecimento, neste momento, está afastado”, declarou.
Navios com fertilizantes terão prioridade nos portos
Outra medida anunciada envolve a logística portuária. Segundo André de Paula, o governo articulou com o Ministério de Portos e Aeroportos a priorização de embarcações carregadas com fertilizantes durante o início da safra.
A estratégia busca reduzir atrasos provocados pelo acúmulo de navios nos terminais brasileiros e evitar que os produtos cheguem às regiões agrícolas depois do período ideal de aplicação.
A operação exige coordenação entre portos, importadores, misturadoras e transportadoras, uma vez que o desembarque representa apenas uma das etapas até a entrega dos fertilizantes nas propriedades rurais.
Produção nacional de ureia volta a ganhar espaço
O governo também aposta na recuperação da indústria nacional de fertilizantes nitrogenados para diminuir gradualmente a dependência externa.
As fábricas da Petrobras na Bahia e em Sergipe retomaram as atividades entre o final de 2025 e o início de 2026. A Araucária Nitrogenados (Ansa), localizada no Paraná, também voltou a produzir ureia neste ano.
Segundo estimativas da Petrobras, as três unidades têm potencial para atender aproximadamente 20% do mercado brasileiro de ureia.
A companhia trabalha ainda na conclusão da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III), em Três Lagoas (MS). Com a entrada da nova fábrica, a estatal estima que sua participação possa alcançar cerca de 35% do mercado nacional.
Durante a coletiva, André de Paula mencionou a possibilidade de conclusão do empreendimento em meados de 2027. A previsão oficial divulgada pela Petrobras, entretanto, indica o início da operação comercial em 2029.
Custos de produção ainda pressionam o algodão
Embora o cenário de abastecimento tenha melhorado, o custo dos fertilizantes segue no centro das preocupações dos produtores.
Na abertura do Congresso Brasileiro do Algodão, o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Gustavo Piccoli, destacou que juros elevados, custo de capital, diesel, fretes e insumos agrícolas exigirão maior rigor na gestão da safra 2026/27.
As tensões comerciais e geopolíticas também permanecem no radar, especialmente por seus efeitos sobre o petróleo, os combustíveis, os fertilizantes e o transporte internacional.
Diesel também permanece sob monitoramento
André de Paula afirmou ainda que, até o momento, não existem indicações concretas de risco de desabastecimento de óleo diesel no Brasil.
O combustível tem peso significativo nos custos do agronegócio, desde o funcionamento de máquinas agrícolas até o transporte da produção. Uma eventual alta internacional do petróleo pode elevar as despesas com frete e reduzir a rentabilidade das culturas.
Segundo o ministro, o governo continuará acompanhando os conflitos internacionais e seus possíveis efeitos sobre o fornecimento e os preços dos principais insumos utilizados pelo setor rural.
Com as medidas adotadas, o abastecimento de fertilizantes para a safra 2026/27 apresenta maior segurança. O desafio agora será garantir que os produtos cheguem ao campo no prazo adequado e a preços compatíveis com a capacidade financeira dos produtores.
Fonte: Portal do Agronegócio
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