Brasil e Estados Unidos marcam reunião para negociar tarifaço sobre exportações brasileiras
Encontro virtual entre representantes dos dois governos será realizado em 31 de agosto e buscará reduzir os impactos das tarifas que atingem US$ 6,6 bilhões em produtos do Brasil
Publicado em: 27/08/2026 às 11:20hs
Brasil e Estados Unidos retomarão oficialmente as negociações sobre as tarifas aplicadas aos produtos brasileiros. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, participarão de uma reunião virtual na próxima segunda-feira, 31 de agosto, às 14h30, pelo horário de Brasília.
A data foi confirmada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). O encontro deverá concentrar as discussões sobre as sobretaxas impostas pelo governo dos Estados Unidos, que alcançam aproximadamente US$ 6,6 bilhões em exportações brasileiras.
A reunião representa o primeiro avanço concreto após os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump concordarem em reabrir o diálogo comercial entre os dois países.
Lula e Trump retomam diálogo sobre tarifas
A retomada das negociações foi definida durante uma conversa telefônica entre Lula e Trump na última sexta-feira (21). O telefonema durou cerca de uma hora e 20 minutos e, segundo o Palácio do Planalto, transcorreu de maneira cordial.
Os dois presidentes decidiram abrir um novo canal de diálogo entre Brasília e Washington, após o agravamento da disputa comercial provocado pelas tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos sobre mercadorias brasileiras.
Durante a conversa, Lula defendeu a retomada imediata das negociações e contestou as justificativas apresentadas pelo governo norte-americano para elevar as tarifas. Na avaliação brasileira, os argumentos utilizados para fundamentar as medidas não correspondem à realidade da relação comercial entre os dois países.
O presidente brasileiro também ressaltou que as barreiras prejudicam empresas, trabalhadores e consumidores de ambas as economias. Trump, por sua vez, concordou com a necessidade de preservar os vínculos comerciais e autorizou a retomada dos contatos entre as equipes governamentais.
Tarifaço atinge setores estratégicos da economia brasileira
Em julho, após aproximadamente um ano de análise, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, anunciou uma sobretaxa de 25% sobre diversos produtos originários do Brasil.
A medida atingiu exportações de ferro e aço, vestuário, calçados, açúcar, etanol, produtos farmacêuticos, máquinas agrícolas, equipamentos elétricos não destinados à aviação e outros bens manufaturados.
Posteriormente, o governo norte-americano aplicou uma tarifa adicional de 12,5% sobre novos produtos brasileiros. A justificativa apresentada foi a suposta ausência de mecanismos eficazes para impedir a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado na cadeia comercial brasileira.
As sobretaxas entraram em vigor no fim de julho e afetam cerca de US$ 6,6 bilhões em vendas do Brasil aos Estados Unidos, conforme levantamento do Mdic.
Estados Unidos questionam políticas brasileiras
Entre os argumentos apresentados pelo USTR para justificar as restrições estão questões relacionadas ao desmatamento, aos acordos comerciais preferenciais, à proteção da propriedade intelectual e ao combate à corrupção.
O governo norte-americano também incluiu nas discussões temas como o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos Pix, o mercado de etanol e as importações de mercadorias potencialmente associadas ao trabalho forçado.
Segundo o USTR, determinadas políticas e práticas adotadas pelo Brasil restringiriam ou tornariam mais oneroso o comércio para agricultores, trabalhadores, empresas inovadoras e exportadores dos Estados Unidos.
O governo brasileiro rejeita essas alegações e sustenta que as tarifas foram aplicadas sem fundamentos compatíveis com as regras internacionais de comércio.
Brasil recorre à Organização Mundial do Comércio
Paralelamente às negociações diplomáticas, o Brasil acionou o sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O governo apresentou um pedido formal de consultas, argumentando que as tarifas adotadas pelos Estados Unidos são inconsistentes com os compromissos assumidos pelos países no âmbito da organização.
Os Estados Unidos aceitaram participar das consultas, primeira etapa de uma disputa comercial dentro da OMC. O procedimento permite que os países tentem construir uma solução negociada antes da eventual abertura de um painel para avaliar o caso.
A iniciativa brasileira mantém aberta uma frente jurídica internacional, mesmo com a retomada do diálogo político e comercial entre Brasília e Washington.
Brasil destaca superávit comercial dos Estados Unidos
Desde o anúncio das novas tarifas, o governo brasileiro tem ressaltado que os Estados Unidos mantêm superávit na relação comercial bilateral, vendendo ao Brasil mais produtos do que compram.
Esse argumento deverá ocupar posição central na reunião de 31 de agosto. Na avaliação brasileira, a imposição de novas barreiras contraria os próprios interesses econômicos norte-americanos e pode comprometer cadeias produtivas integradas entre os dois países.
Além das consultas na OMC, o Brasil iniciou procedimentos relacionados à Lei da Reciprocidade Econômica, instrumento que permite a adoção de contramedidas diante de barreiras consideradas injustificadas contra produtos e empresas nacionais.
Apesar dessa possibilidade, o governo afirma que continuará priorizando a negociação para reduzir os danos provocados pelas tarifas à economia, às exportações e à renda dos brasileiros.
Reunião pode abrir caminho para revisão das sobretaxas
O encontro entre Márcio Elias Rosa e Jamieson Greer será decisivo para verificar se existe espaço político e técnico para revisar as medidas aplicadas pelos Estados Unidos.
A expectativa é que as equipes discutam os setores atingidos, as justificativas utilizadas pelo USTR e alternativas para retirar ou reduzir as sobretaxas. Também poderão ser definidos novos encontros e grupos técnicos para aprofundar as negociações.
Para o Brasil, a prioridade é restabelecer condições previsíveis de acesso ao mercado norte-americano e proteger exportadores afetados. A reunião também será acompanhada com atenção pelo agronegócio, especialmente pelos segmentos de açúcar, etanol e máquinas agrícolas, diretamente alcançados pelo tarifaço.
Fonte: Portal do Agronegócio
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