Publicado em: 31/03/2026 às 08:30hs
O agronegócio brasileiro inicia 2026 sob forte pressão financeira, marcada por crédito caro, margens comprimidas e regras bancárias mais rígidas. Esse cenário se reflete no aumento de processos de recuperação judicial, que evidenciam a vulnerabilidade financeira das empresas do setor e aceleram a migração do crédito rural para estruturas privadas e fundos especializados.
Casos recentes, como os processos envolvendo Amiu, Terra Santa e Raízen, destacam como ciclos adversos prolongados impactam a capacidade de pagamento e reduzem o apetite bancário por risco no campo.
Em 2025, o setor registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial, o maior número da série histórica, 56,4% acima de 2024. Isso coloca o agronegócio em um patamar seis vezes superior à média nacional, com 1,26% das empresas agropecuárias em recuperação judicial, enquanto a inadimplência rural atingiu 8,3%.
Diante da seletividade dos bancos, o financiamento da safra tem migrado para fora do sistema tradicional, com uso crescente de instrumentos como CPRs, fundos de crédito e estruturas de DIP Finance, que permitem a continuidade das operações enquanto as dívidas são renegociadas.
A escalada das recuperações judiciais tem levado grandes companhias a buscar alternativas que mantenham a produção sem comprometer a operação financeira. Em março de 2026, a Raízen, uma das maiores produtoras de energia e açúcar do país, iniciou um processo de recuperação extrajudicial para reorganizar um passivo de R$ 65 bilhões, um dos maiores já registrados no Brasil.
Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, essas estruturas de reorganização financeira são essenciais para atravessar períodos críticos sem interromper a produção. “Depois de uma quebra relevante, o banco precisa rever exposição e garantias. Só que a produção continua e os custos seguem. O objetivo é manter a operação funcionando enquanto o passivo é ajustado, evitando que um problema financeiro se torne um colapso operacional”, explica.
Apesar do crescimento de CPRs, fundos de custeio e DIP Finance, parte do passivo gerado pelas quebras recentes permanece concentrada em obrigações com fornecedores e contratos desalinhados ao fluxo de caixa.
A MA7 Negócios estruturou nos últimos anos mais de 80 operações no setor, movimentando cerca de R$ 750 milhões, assumindo dívidas com desconto e reorganizando prazos compatíveis com a realidade operacional do agronegócio. Esse modelo ajuda a reduzir efeitos cascata das quebras e garante maior estabilidade à cadeia produtiva.
O mercado de crédito rural tende a se tornar mais segmentado, com instrumentos específicos cumprindo funções ao longo do ciclo financeiro das empresas. A combinação entre crédito privado e reorganização de dívidas deve se consolidar enquanto as margens permanecerem pressionadas.
Segundo André Matos, a travessia do atual ciclo depende de coordenação financeira: “Quem consegue organizar o passivo primeiro preserva a operação e mantém portas abertas para o mercado. O crédito existe, mas exige leitura de risco precisa e decisões rápidas. Quem entende isso atravessa o ciclo; quem ignora tende a ficar pelo caminho”.
Fonte: Portal do Agronegócio
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