Publicado em: 28/01/2026 às 18:40hs
O Plano Safra 2025/2026 encerrou o primeiro semestre com desempenho abaixo do registrado na safra anterior em linhas de crédito voltadas à sustentabilidade. Segundo o Boletim Trimestral Crédito Rural em Jornada de Sustentabilidade, da consultoria Agroicone, entre julho e dezembro de 2025 foram desembolsados R$ 33,3 bilhões em recursos de custeio e investimento com potencial sustentável — o que representa 22,5% do total. O valor é quase R$ 10 bilhões inferior ao do mesmo período de 2024, quando o montante chegou a R$ 43,1 bilhões.
De acordo com os pesquisadores Gustavo Lobo e Lauro Vicari, da Agroicone, a retração está em sintonia com o desempenho geral do Plano Safra, que acumulou R$ 189,7 bilhões em contratações — uma queda de 16% frente aos R$ 220,3 bilhões de 2024.
A redução ocorre em um contexto de juros elevados e aumento do endividamento dos produtores rurais. Dados de novembro de 2025 apontam que 15% de todo o crédito rural ativo apresentou algum grau de inadimplência, somando R$ 123,6 bilhões — R$ 51,4 bilhões a mais do que em julho de 2024. “As taxas de juros mais altas encarecem as renegociações e ampliam o risco de um efeito bola de neve nas dívidas”, explica Vicari.
Os recursos destinados a investimentos foram os mais afetados pela retração: caíram de R$ 59,7 bilhões para R$ 43,3 bilhões — uma redução de 27,5%. Segundo Lobo, o cenário macroeconômico tem reduzido o apetite dos produtores por projetos de modernização e expansão, refletindo menor disposição em investir em melhorias estruturais.
A contração também impactou negativamente os investimentos em práticas de adaptação climática e resiliência produtiva. As linhas de investimento com foco sustentável caíram 35,1%, enquanto as de custeio recuaram 12,9%. Por segmento, agricultura e pecuária registraram reduções semelhantes: -22,4% e -23,4%, respectivamente.
Apesar do cenário adverso, o crédito sustentável no Pronaf manteve o mesmo patamar do ciclo anterior, com R$ 1,4 bilhão contratados, equivalente a 34,1% dos recursos de investimento do programa. O destaque foi o Pronaf Bioeconomia, que respondeu por R$ 1,3 bilhão — 92,8% das contratações sustentáveis do programa.
Entre médios e grandes produtores, porém, houve queda nas contratações de linhas rotuladas, especialmente no RenovAgro, que perdeu 1,7 ponto percentual de representatividade. O programa fechou o período com R$ 2,3 bilhões em contratações, sendo R$ 701,4 milhões no subprograma Plantio Direto e R$ 681,4 milhões em Recuperação e Conversão.
O boletim também apontou redução expressiva nos financiamentos voltados à “Correção Intensiva do Solo”, que somaram R$ 3,4 bilhões no semestre — queda de 38,2% em relação aos R$ 5,5 bilhões do mesmo período anterior.
Para a Agroicone, o dado acende um alerta: a menor alocação de recursos em práticas de melhoria do solo pode prejudicar a agenda de sustentabilidade do agronegócio, especialmente considerando o papel das pastagens e da capacidade de sequestro de carbono. “O solo é um ativo fundamental e estratégico para o setor”, reforça Lobo.
As principais fontes de financiamento sustentável no período foram: Recursos Obrigatórios (R$ 7,9 bi), LCA Controlados com Subvenção Econômica (R$ 7,8 bi) e Poupança Rural Controlada (R$ 3 bi). Em contrapartida, houve forte queda no uso de fontes do BNDES/Finame Equalizável (-60,7%) e de LCA Taxa Livre (-57,4%).
No campo regulatório, duas resoluções publicadas no fim de 2025 impactarão diretamente o crédito rural:
O relatório conclui que o primeiro semestre da safra 2025/2026 revela um cenário de atenção para o crédito sustentável. A combinação de juros elevados, endividamento crescente e menor capacidade de investimento tem comprometido a transição para sistemas produtivos mais sustentáveis.
Os estados que mais receberam recursos voltados à sustentabilidade foram Rio Grande do Sul (R$ 7 bi), Minas Gerais (R$ 4,9 bi), Paraná (R$ 3,4 bi), Mato Grosso (R$ 2,6 bi) e Espírito Santo (R$ 2,3 bi).
Fonte: Portal do Agronegócio
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