Publicado em: 26/05/2026 às 11:15hs
O desempenho do crédito rural com potencial sustentável no Plano Safra 2025/2026 segue abaixo do registrado na temporada anterior e reforça o impacto do cenário macroeconômico sobre os investimentos do agronegócio brasileiro. Levantamento divulgado pela Agroicone mostra que, entre julho de 2025 e março de 2026, foram desembolsados R$ 46 bilhões em recursos de custeio e investimento ligados à chamada jornada de sustentabilidade da agropecuária.
O valor representa 22,6% do total liberado para essas finalidades no período, mas revela uma retração de quase R$ 8,2 bilhões em comparação ao mesmo intervalo da safra anterior, quando os desembolsos atingiram R$ 54,2 bilhões.
De acordo com o boletim trimestral “Crédito Rural em Jornada de Sustentabilidade”, elaborado pelos pesquisadores Gustavo Lobo e Lauro Vicari, apesar de sinais recentes de recuperação nos indicadores, o desempenho ainda permanece aquém do observado no ciclo anterior.
Segundo os especialistas, o ambiente de juros elevados, mesmo com sinais de desaceleração da taxa básica, combinado ao aumento do endividamento no crédito rural, continua limitando a capacidade de produtores investirem em tecnologias e sistemas produtivos mais sustentáveis.
Os dados apontam que a retração foi mais intensa nas operações de investimento. O volume contratado caiu de R$ 79,02 bilhões para R$ 64,99 bilhões, representando redução de 17,7%.
Na avaliação da Agroicone, esse movimento evidencia cautela dos produtores diante do cenário econômico e menor disposição para ampliar investimentos em modernização, adaptação climática e melhorias estruturais nas propriedades rurais.
A queda dos recursos voltados à sustentabilidade também foi mais forte nas linhas de investimento (-18,4%) do que no custeio (-12,5%).
Para os pesquisadores, isso pode comprometer a capacidade do agro brasileiro de avançar em práticas ligadas à resiliência produtiva e à transição climática.
O levantamento mostra ainda diferenças importantes entre os segmentos da agropecuária.
Na agricultura, a retração dos recursos sustentáveis chegou a 16,2%, enquanto na pecuária a queda foi mais moderada, em 6,4%.
Entre os estados com maior volume de crédito enquadrado na jornada de sustentabilidade, destacam-se:
As principais fontes de financiamento sustentável utilizadas no período foram:
Entre as variações mais expressivas frente à safra anterior, o destaque positivo ficou para a modalidade LCA Controlada com Subvenção Econômica, que registrou crescimento superior a 6 mil%.
Por outro lado, modalidades como LCA de taxa livre e operações equalizáveis do BNDES/Finame apresentaram fortes retrações, com quedas próximas de 50%.
Na contramão da retração geral, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) apresentou avanço nas linhas sustentáveis.
Nos nove primeiros meses da safra 2025/2026, o volume contratado chegou a R$ 2,3 bilhões, acima dos R$ 1,9 bilhão registrados no mesmo período da temporada anterior.
A participação dessas linhas sustentáveis dentro do crédito de investimento do Pronaf também cresceu, alcançando 9,1%.
Segundo a Agroicone, o desempenho indica que os agricultores familiares sofreram impacto menor do encarecimento do crédito, especialmente devido à manutenção das taxas praticadas na safra passada.
O estudo também identificou queda nas contratações de subprogramas sustentáveis, principalmente do RenovAgro, reduzindo a participação dessas linhas no crédito de investimento.
Para os pesquisadores, o movimento sinaliza que produtores médios e grandes podem estar adiando investimentos em práticas sustentáveis devido ao aumento do custo financeiro.
Esse cenário preocupa especialistas ligados à agenda ESG do agronegócio, já que o crédito rural é considerado um dos principais instrumentos para financiar adaptação climática, recuperação ambiental e aumento da eficiência produtiva.
Outro ponto destacado no levantamento envolve as mudanças regulatórias previstas pelo Conselho Monetário Nacional.
A Resolução CMN nº 5.268/2026 prevê novas exigências relacionadas ao controle de desmatamento para contratação de crédito rural. Inicialmente prevista para abril de 2026, a medida teve cronograma adiado:
As regras exigirão comprovação de legalidade ambiental em imóveis acima de quatro módulos fiscais com conversão de vegetação após julho de 2019.
Em março de 2026, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima publicou uma lista com 99.941 imóveis rurais que apresentaram sobreposição com áreas desmatadas.
Segundo o levantamento, cerca de 27 mil desses imóveis contrataram crédito rural entre as safras 2018/2019 e 2025/2026.
A expectativa é que as novas medidas aumentem o rigor das instituições financeiras nos processos de monitoramento ambiental e análise de sustentabilidade para concessão de crédito no campo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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