Recuperação judicial no agronegócio muda de patamar com novas regras do CNJ e amplia exigências de governança
Provimento nº 216/2026 reforça transparência, gestão baseada em dados e eleva o nível de exigência para produtores rurais em meio ao recorde de recuperações judiciais e ao cenário de crédito restrito
Publicado em: 09/07/2026 às 10:00hs
O agronegócio brasileiro inicia 2026 diante de um cenário desafiador: enquanto a produção agrícola mantém níveis elevados, a pressão financeira sobre produtores e empresas do setor se intensifica. Em resposta a esse ambiente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou o Provimento nº 216/2026, medida que padroniza procedimentos nas recuperações judiciais e estabelece um novo padrão de transparência, governança e qualidade das informações apresentadas pelas empresas em crise.
Embora o provimento não altere a Lei de Recuperação Judicial, especialistas avaliam que a nova regulamentação transforma a forma como os processos serão conduzidos, exigindo documentação financeira mais robusta e maior profissionalização da gestão empresarial no campo.
Governança e transparência passam a ser decisivas
Segundo o especialista em reestruturação empresarial Benito Pedro Vieira Santos, da Avante Assessoria, a principal mudança está na valorização das informações técnicas que comprovam a real situação financeira das empresas.
Demonstrações contábeis, fluxo de caixa, registros financeiros e indicadores operacionais passam a ocupar papel central na análise da viabilidade econômica dos produtores que buscam recuperação judicial.
Na avaliação do especialista, o novo provimento representa uma evolução na condução dos processos ao aproximar o Brasil de práticas consolidadas de governança corporativa, reduzindo assimetrias de informação entre produtores, credores, instituições financeiras e investidores.
"O mercado passa a exigir informações estruturadas e confiáveis. Não será suficiente alegar dificuldades financeiras; será necessário demonstrá-las tecnicamente por meio de dados consistentes", destaca.
Recuperações judiciais no agro atingem recorde
A mudança regulatória ocorre em um momento de forte crescimento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio.
Dados da Serasa Experian apontam que, em 2025, foram registrados 1.990 pedidos, o maior volume desde o início da série histórica, em 2021. O número representa crescimento de 56,4% em relação ao ano anterior e quase quatro vezes mais do que o registrado em 2023.
Para especialistas, o aumento das recuperações não está relacionado à queda da produção agrícola, mas ao agravamento das condições financeiras enfrentadas pelas empresas rurais.
Juros elevados e crédito caro comprimem margens
O ambiente de juros elevados continua sendo um dos principais fatores que pressionam o caixa dos produtores rurais.
Segundo o especialista em recuperação empresarial Denis Barroso, o custo do crédito tornou-se um dos maiores desafios para o setor, dificultando tanto o financiamento das novas safras quanto o refinanciamento de dívidas contratadas nos últimos anos.
Na avaliação dele, a combinação entre insumos mais caros, crédito restritivo e volatilidade dos preços das commodities reduziu significativamente as margens de rentabilidade da atividade agrícola.
Além dos produtores, o impacto alcança toda a cadeia do agronegócio, incluindo cooperativas, tradings, transportadoras e instituições financeiras regionais.
Esse cenário também se reflete nos índices de inadimplência rural, que alcançaram 8,3% no terceiro trimestre de 2025.
Produção segue forte, mas saúde financeira preocupa
Apesar das dificuldades financeiras, o Brasil mantém elevados níveis de produtividade agrícola e continua competitivo no mercado internacional.
Entretanto, especialistas alertam para um paradoxo cada vez mais evidente: produzir mais já não significa, necessariamente, obter melhores resultados financeiros.
O ciclo de expansão do crédito observado nos últimos anos aumentou o nível de alavancagem de muitas empresas rurais. Com a mudança no cenário econômico, marcada por juros elevados e maior seletividade dos bancos, diversos produtores passaram a enfrentar dificuldades para manter o fluxo de caixa e honrar compromissos financeiros.
Ao mesmo tempo, as instituições financeiras adotaram critérios mais rigorosos na concessão de crédito, reduzindo a capacidade de investimento e capital de giro das empresas do setor.
Recuperação judicial começa antes do pedido
Na avaliação dos especialistas, o Provimento nº 216/2026 reforça um conceito cada vez mais presente na gestão empresarial: a recuperação judicial começa muito antes da formalização do processo.
O sucesso de uma eventual reestruturação dependerá da capacidade da empresa de manter controles financeiros organizados, informações confiáveis e indicadores que demonstrem sua real capacidade de geração de caixa.
Essa mudança também tende a aumentar a previsibilidade nas negociações com credores e instituições financeiras, favorecendo soluções de reestruturação mais eficientes.
Gestão preventiva ganha protagonismo
Com o novo ambiente regulatório e financeiro, especialistas recomendam que produtores rurais e empresas do agronegócio reforcem práticas de gestão preventiva para reduzir riscos e ampliar a capacidade de enfrentar períodos de instabilidade.
Entre as principais recomendações estão:
- manter demonstrações financeiras atualizadas e confiáveis;
- acompanhar continuamente o fluxo de caixa e a capacidade de pagamento;
- organizar a documentação contábil e fiscal;
- utilizar indicadores financeiros e operacionais para apoiar a tomada de decisões;
- realizar diagnósticos periódicos da situação econômica da empresa.
A adoção dessas práticas fortalece a governança corporativa e amplia a credibilidade junto ao mercado financeiro, investidores e fornecedores.
Novo cenário exige gestão profissional no campo
O avanço das recuperações judiciais e a nova regulamentação do CNJ sinalizam uma mudança estrutural no ambiente de negócios do agronegócio brasileiro.
Em um contexto de crédito mais seletivo, custos elevados e maior rigor na análise financeira das empresas, a governança deixa de ser apenas um diferencial competitivo e passa a ser requisito para o acesso a financiamentos, renegociações e processos de recuperação.
Mais do que manter elevados índices de produtividade, o desafio das empresas rurais passa a incluir gestão financeira eficiente, transparência e tomada de decisões baseada em informações consistentes, fatores considerados essenciais para garantir sustentabilidade e competitividade no agronegócio brasileiro.
Fonte: Portal do Agronegócio
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