Recuperação judicial no agronegócio cresce 21,9% e chega a 474 pedidos no 1º trimestre de 2026
Levantamento inédito da Serasa Experian mostra avanço das solicitações no setor, com produtores rurais pessoas jurídicas concentrando o maior crescimento e Mato Grosso na liderança
Publicado em: 19/08/2026 às 16:00hs
O agronegócio brasileiro registrou 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, alta de 21,9% em relação às 389 solicitações contabilizadas no mesmo período de 2025. Os dados inéditos são da Serasa Experian e reúnem produtores rurais que atuam como pessoas físicas (PF), pessoas jurídicas (PJ) e empresas ligadas à cadeia do agronegócio.
O resultado reforça a pressão financeira enfrentada por parte do setor diante de um cenário marcado por crédito mais seletivo, custos elevados de produção e maior alavancagem.
Segundo Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, a alta observada no início de 2026 mantém um movimento de deterioração financeira que já vinha sendo identificado entre produtores e empresas do setor.
A avaliação é de que a evolução dos pedidos ao longo do ano dependerá principalmente da capacidade de geração de receita, do comportamento das margens e das condições disponíveis para renegociação de dívidas.
Mato Grosso lidera pedidos de recuperação judicial no agro
Na distribuição por estados, Mato Grosso apresentou o maior número de pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026.
Considerando conjuntamente produtores rurais PF, produtores PJ e empresas relacionadas à cadeia do agronegócio, o estado acumulou 135 solicitações entre janeiro e março.
A concentração em Mato Grosso chama atenção pela relevância do estado na produção nacional de grãos e na atividade pecuária, segmentos que enfrentam forte exposição às oscilações de preços, custos de produção, crédito e condições de mercado.
Produtores rurais PJ registram maior avanço
Entre os três grupos analisados pela Serasa Experian, os produtores rurais que atuam como pessoa jurídica apresentaram o crescimento mais expressivo.
Foram 196 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, contra 113 no mesmo período do ano anterior. O aumento foi de 73,5%.
Na divisão por atividade, o cultivo de soja concentrou a maior quantidade de solicitações, com 137 pedidos. A criação de bovinos apareceu em seguida, com 42.
Na análise por estados, Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul ficaram nas primeiras posições entre os produtores rurais PJ com pedidos de recuperação judicial.
Pedidos de produtores rurais pessoa física recuam
O cenário foi diferente entre os produtores rurais que atuam como pessoa física.
O grupo registrou 182 pedidos de recuperação judicial entre janeiro e março de 2026, uma queda de 6,7% em comparação com as 195 solicitações do primeiro trimestre de 2025.
Por porte, os produtores classificados como “sem propriedades” apresentaram o maior número de pedidos, com 60 registros. Essa classificação pode incluir, por exemplo, arrendatários e integrantes de grupos familiares ou econômicos vinculados à atividade rural.
Na sequência apareceram os pequenos proprietários, com 44 solicitações; os grandes proprietários, com 41; e os médios proprietários, com 37.
No recorte estadual, Mato Grosso também liderou entre os produtores PF, seguido por Paraná e Goiás.
Empresas ligadas ao agronegócio somam 96 pedidos
As empresas que integram ou prestam serviços à cadeia do agronegócio registraram 96 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026.
O resultado representa crescimento de 18,5% frente aos 81 pedidos registrados no mesmo período de 2025.
Entre as atividades analisadas, as agroindústrias de transformação primária lideraram, com 23 solicitações. Em seguida apareceram as indústrias de processamento de agroderivados, com 19 pedidos, e os serviços de apoio à agropecuária, com 15.
Na distribuição por estados, Paraná, São Paulo e Mato Grosso concentraram os maiores volumes de solicitações entre as empresas relacionadas ao agronegócio.
Recuperação judicial exige atenção ao fluxo de caixa
Para a Serasa Experian, o aumento dos pedidos ocorre em um ambiente no qual produtores e empresas ainda enfrentam desafios para equilibrar receitas, despesas e compromissos financeiros.
A combinação entre custos de produção elevados, maior endividamento e restrição no acesso ao crédito pode pressionar o caixa, principalmente em atividades sujeitas à volatilidade das commodities e às condições climáticas.
Nesse contexto, a empresa recomenda que a renegociação de dívidas e o planejamento financeiro sejam priorizados antes que a situação alcance níveis mais críticos.
A recuperação judicial, segundo a avaliação apresentada pela Serasa Experian, deve ser encarada como uma alternativa extrema diante de dificuldades financeiras que não possam ser solucionadas por meio de outras estratégias.
Inteligência artificial ajuda a identificar risco financeiro no agro
A análise de crédito no agronegócio também vem incorporando ferramentas de inteligência artificial e modelos preditivos para identificar antecipadamente sinais de deterioração financeira.
Entre as soluções utilizadas pela Serasa Experian está o Agro Score, desenvolvido para considerar características específicas da atividade rural e aprimorar a avaliação de risco de produtores e empresas.
A ferramenta permite acompanhar diferentes informações financeiras e identificar padrões que podem indicar mudanças no perfil de risco com antecedência.
De acordo com análises realizadas pela empresa, produtores rurais pessoa física que posteriormente solicitaram recuperação judicial já apresentavam, em média, Agro Score significativamente inferior ao da população rural em geral três anos antes da formalização do pedido.
Dados podem tornar crédito rural mais seguro
A utilização de modelos preditivos pode ajudar instituições financeiras a diferenciar os níveis de risco entre produtores e empresas, evitando avaliações baseadas exclusivamente em critérios genéricos.
Para Marcelo Pimenta, a combinação entre dados, inteligência artificial e modelos específicos para o agronegócio permite identificar sinais que poderiam passar despercebidos em análises tradicionais.
O objetivo é antecipar possíveis problemas financeiros e, ao mesmo tempo, contribuir para uma concessão de crédito mais adequada às características de cada atividade.
Agronegócio começa 2026 sob pressão financeira
Os 474 pedidos de recuperação judicial registrados no primeiro trimestre de 2026 mostram que a saúde financeira continua sendo um dos principais pontos de atenção para o agronegócio brasileiro.
O crescimento de quase 22% no total ocorre principalmente pelo forte avanço entre produtores rurais PJ, enquanto os pedidos de produtores PF recuaram e as empresas ligadas à cadeia agro apresentaram aumento.
Para os próximos meses, a trajetória das recuperações judiciais deverá estar diretamente relacionada à rentabilidade das atividades agropecuárias, preços das commodities, custos de produção, disponibilidade de crédito e capacidade de renegociação das dívidas.
Recuperação judicial no agro em números
O agronegócio registrou 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, contra 389 no mesmo período de 2025, uma alta de 21,9%.
Entre os produtores rurais PJ, foram 196 pedidos, crescimento de 73,5% sobre os 113 registrados no primeiro trimestre de 2025.
Os produtores rurais PF contabilizaram 182 solicitações, queda de 6,7% em relação aos 195 pedidos registrados um ano antes.
Já as empresas relacionadas à cadeia do agronegócio somaram 96 pedidos, alta de 18,5% ante os 81 registrados no primeiro trimestre de 2025.
Fonte: Portal do Agronegócio
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