Assuntos Jurídicos

Visão além da recuperação judicial: onde o médio agro vai lucrar

Por Ezequiel Douglas Wilbert, CEO da Safegold


Publicado em: 08/06/2026 às 08:00hs

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O avanço dos pedidos de recuperação judicial no Brasil tem sido tratado como o principal termômetro da saúde empresarial, mas essa leitura, embora correta, é incompleta. O mercado de 2026 já não opera mais sob a lógica da sobrevivência. Ele exige reposicionamento estratégico. No agro, especialmente entre médias empresas, o que se observa não é apenas um movimento defensivo, mas uma migração silenciosa para modelos mais eficientes, resilientes e rentáveis.

A questão central deixou de ser como evitar a crise e passou a ser onde capturar margem em um ambiente estruturalmente mais caro, mais competitivo e mais exposto a variáveis externas. É nesse contexto que emerge o que pode ser chamado de Agroestratégia 2026: uma combinação de eficiência operacional, especialização produtiva e captura de valor ao longo da cadeia.

O primeiro vetor dessa transformação está no custo. Em um cenário de insumos dolarizados e crédito pressionado, a rentabilidade deixou de ser função apenas de preço e passou a depender, de forma decisiva, da capacidade de produzir melhor com menos. A substituição parcial de fertilizantes químicos por bioinsumos é um dos movimentos mais relevantes nesse sentido. Além de reduzir a dependência de importações, essa transição pode gerar economias relevantes no custo de produção, funcionando como um amortecedor natural contra oscilações cambiais e choques de preço.

Mais do que uma agenda ambiental, trata-se de uma decisão econômica. O uso de bioinsumos não apenas reduz custos, como também melhora a resiliência do solo, especialmente em cenários de estresse hídrico, cada vez mais frequentes. Não por acaso, o mercado brasileiro de bioinsumos cresce em ritmo superior ao global e já se aproxima de uma escala bilionária, consolidando o país como o principal polo da América Latina nesse segmento.

Mas eficiência, isoladamente, não explica os ganhos mais expressivos. O segundo vetor é a especialização. O agro médio que permanece concentrado em commodities tradicionais, com baixa diferenciação, tende a operar com margens comprimidas. Em contrapartida, produtores que migraram para nichos específicos, com maior valor agregado e demanda internacional, já capturam níveis de rentabilidade significativamente superiores.

Frutas de exportação como o abacate Hass, a manga e o limão Tahiti ilustram esse movimento. São culturas que combinam demanda externa consistente, capacidade de diferenciação e menor exposição à lógica de preço das grandes commodities. Esse reposicionamento não é trivial, exige investimento, conhecimento técnico e acesso a mercados, mas redefine completamente a equação de margem.

O mesmo raciocínio se aplica ao avanço dos bioinsumos produzidos dentro da própria fazenda, o chamado modelo “on-farm”. Nesse caso, o ganho não vem apenas da substituição de insumos, mas da internalização de parte da cadeia produtiva, o que amplia o controle sobre custos e reduz a dependência de fornecedores externos. Em muitos casos, a eficiência produtiva passa a ser determinada majoritariamente pela capacidade de gestão interna, e não apenas pelas condições de mercado.

O terceiro vetor, talvez o mais subestimado, está na agroindustrialização. Em 2026, o lucro não está apenas na produção, mas no processamento e na venda direta. Setores como laticínios gourmet e proteínas especiais têm apresentado rentabilidade superior à de culturas tradicionais, justamente por capturarem valor em etapas mais próximas do consumidor final.

Esse movimento dialoga com uma tendência mais ampla de polarização de consumo. De um lado, há pressão por preço. De outro, cresce um mercado premium disposto a pagar por qualidade, rastreabilidade e diferenciação. O produtor que consegue acessar esse segundo segmento deixa de competir apenas por volume e passa a disputar valor.

O que se desenha, portanto, é um novo mapa de oportunidades no agro brasileiro. A recuperação judicial continuará sendo uma ferramenta relevante para empresas em dificuldade, mas ela não pode ser o centro da estratégia. As empresas que liderarão o próximo ciclo não serão necessariamente as maiores, mas as que conseguirem operar com eficiência, escolher melhor onde competir e avançar na captura de valor ao longo da cadeia.

Em um ambiente mais complexo, a vantagem competitiva deixa de estar apenas na terra ou na escala. Ela passa a residir na capacidade de tomar decisões estratégicas mais rápidas, mais técnicas e menos dependentes de ciclos tradicionais. Em 2026, lucrar no agro é, antes de tudo, uma questão de estratégia.

Ezequiel Douglas Wilbert é Sócio-Fundador e CEO da Safegold Capital, boutique de gestão empresarial fundada em 2010. Especialista em reestruturação empresarial, lidera negociações e mediações financeiras que já ultrapassaram R$ 4 bilhões em recursos e mais de R$ 2 bilhões em dívidas renegociadas.

Fonte: Assessoria de Imprensa Safegold

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