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Bovinos Leite

Produção de leite no RS tem potencial para dobrar, mas custos e falta de mão de obra desafiam produtores

Especialistas apontam que propriedades gaúchas produzem abaixo do potencial por hectare; gestão eficiente, qualidade do leite e expansão da escala são fatores decisivos para aumentar a competitividade do setor.


Publicado em: 20/10/2026 às 12:30hs

Produção de leite no RS tem potencial para dobrar, mas custos e falta de mão de obra desafiam produtores
Foto: Carolina Jardine

A produção de leite no Rio Grande do Sul ainda está distante de explorar todo o seu potencial produtivo. Apesar da concentração da atividade em propriedades de maior escala, grande parte das fazendas leiteiras do estado opera abaixo dos níveis que poderiam alcançar, indicando oportunidades de crescimento por meio de melhorias na gestão, na alimentação do rebanho e na eficiência dos sistemas de produção.

O diagnóstico foi apresentado durante o Milk Summit Mercosul 2026, realizado nos dias 14 e 15 de outubro, em Ijuí (RS). Na ocasião, o consultor e diretor da Transpondo, Wagner Beskow, destacou que a região da Metade Norte gaúcha tem capacidade produtiva estimada em 33 mil litros de leite por hectare ao ano em sistemas convencionais e de 50 mil litros por hectare ao ano em áreas irrigadas.

Segundo o especialista, esses índices superam em mais de duas vezes a produtividade média observada na região, evidenciando espaço para ampliar a produção sem depender exclusivamente da expansão da área utilizada.

Produção de leite no RS passa por consolidação

O avanço da produtividade ocorre em meio a uma transformação estrutural da pecuária leiteira gaúcha. De acordo com dados da Emater/RS, 55,2 mil produtores deixaram a atividade ao longo da última década.

Com menos propriedades na produção comercial, o setor passou a concentrar volumes maiores em unidades produtivas que permanecem na atividade. Para Beskow, essa mudança tende a favorecer a consolidação de fazendas de maior porte.

O consultor avalia que a escala produtiva e a eficiência operacional ganharam importância diante das mudanças na cadeia leiteira. Nesse cenário, propriedades com produção superior a 500 litros por dia tendem a contar com melhores condições para viabilizar a coleta logística pelos laticínios.

Beskow também recomenda estruturas mais simples e enxutas, com decisões que considerem o funcionamento integrado da propriedade. A organização das rotinas, tanto dos animais quanto das pessoas, é apontada como parte fundamental da eficiência produtiva.

Falta de mão de obra e desgaste do trabalho aceleram saída de produtores

A permanência na atividade leiteira, entretanto, não depende apenas da produtividade ou do tamanho do rebanho. A disponibilidade de mão de obra, as condições de trabalho e a sucessão familiar também influenciam a continuidade das propriedades.

Levantamento da Emater/RS identificou que 66,4% das famílias consultadas apontaram a penosidade do trabalho como um fator relacionado à saída da atividade. A falta de mão de obra familiar foi mencionada por 61,3%, enquanto 37,8% citaram o desinteresse dos filhos.

O assistente técnico estadual da Emater/RS, Jaime Ries, avalia que o abandono da produção comercial de leite deve ser compreendido como um processo multifatorial. Entre os elementos envolvidos estão as condições econômicas da cadeia, a organização do trabalho, a disponibilidade de mão de obra, a dinâmica entre gerações e as alternativas de geração de renda.

Os dados reforçam que a sustentabilidade da pecuária leiteira exige soluções que reduzam a sobrecarga das famílias e tornem a atividade mais atrativa para as novas gerações.

Qualidade do leite pode aumentar rentabilidade

Além de elevar a produção por hectare, os especialistas destacam a necessidade de melhorar a composição do leite e ampliar o retorno financeiro por litro produzido.

Um dos indicadores relevantes é o teor de sólidos totais, especialmente gordura e proteína, que pode influenciar bonificações pagas ao produtor conforme os critérios adotados pelos laticínios.

Segundo os dados apresentados por Wagner Beskow, o teor combinado de gordura e proteína do leite gaúcho varia entre 6% e 7,5%, enquanto a média da Nova Zelândia chega a 9,17%.

A diferença também aparece nos custos de produção informados durante o evento. O custo estimado por quilo no Rio Grande do Sul é de US$ 5,82, ante US$ 3,33 na Nova Zelândia.

Para Beskow, o estado tem condições de avançar nesse cenário, aproveitando vantagens como a eficiência de produção de forragens por hectare. O desafio está em transformar esse potencial em maior qualidade, produtividade e rentabilidade, com controle rigoroso dos custos.

Forragens e gestão ajudam a enfrentar concorrência internacional

Na avaliação do pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Glauco Carvalho, a disponibilidade de forragens e o envolvimento das famílias na atividade estão entre os diferenciais da produção gaúcha diante da concorrência de países como Argentina e Uruguai.

Essas características podem contribuir para a competitividade, mas precisam ser acompanhadas por melhorias na organização das propriedades e na eficiência dos sistemas produtivos.

Carvalho também observa um movimento de consolidação e crescimento das fazendas, em parte para otimizar a logística de coleta e melhorar a qualidade do leite. A concentração da produção em unidades maiores pode reduzir a necessidade de paradas em um número elevado de pequenas propriedades.

Por outro lado, a predominância de estabelecimentos rurais de pequeno e médio porte no estado pode limitar o ritmo dessa expansão, exigindo estratégias adequadas à estrutura fundiária regional.

Milk Summit Mercosul confirma edição em 2027

Além de discutir produtividade, custos e competitividade, o Milk Summit Mercosul 2026 reuniu representantes da cadeia leiteira para debater os desafios e as perspectivas do setor.

O evento contou com mais de 750 participantes ao longo dos dias 14 e 15 de outubro, além de 27 palestrantes e painelistas, quatro mesas de debates e 11 startups na Arena Láctea de Inovação.

Ao final da programação, Darlan Palharini, coordenador do evento e secretário-executivo do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (Sindilat), confirmou a realização de uma nova edição em 2027.

A iniciativa busca manter um espaço de diálogo entre produtores, indústria, pesquisadores, empresas de tecnologia e representantes do poder público sobre os caminhos para o desenvolvimento da cadeia leiteira.

O Milk Summit Mercosul 2026 foi realizado pelo Sindilat, pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul (Seapi), pela Prefeitura de Ijuí, pela Emater/RS-Ascar, pelo Sebrae/RS, pela Suport D’ Leite e pela Impulsa Ijuí.

O evento contou com o apoio de empresas e instituições ligadas à cadeia produtiva do leite, incluindo cooperativas, laticínios, fornecedores de tecnologia e organizações do setor agropecuário.

Eficiência será decisiva para o futuro do leite gaúcho

O cenário apresentado no Milk Summit Mercosul mostra que o aumento da produção de leite no Rio Grande do Sul depende de uma combinação de fatores: exploração do potencial produtivo por hectare, controle dos custos, melhoria da qualidade, organização da mão de obra e planejamento da escala operacional.

Embora a consolidação das propriedades possa contribuir para a eficiência logística, a permanência dos produtores também exige atenção às condições de trabalho e à sucessão familiar.

A capacidade de transformar potencial produtivo em rentabilidade será determinante para a competitividade do leite gaúcho diante de outros mercados e para a continuidade da atividade nas diferentes regiões do estado.

Fonte: Portal do Agronegócio

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