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Bovinos de Corte

Pecuaristas de oito estados criam agenda territorial para fortalecer a pecuária brasileira

Movimento reúne dez territórios e 19,13 milhões de bovinos para apresentar propostas sobre segurança jurídica, infraestrutura, crédito, sucessão rural, meio ambiente e acesso a mercados


Publicado em: 28/09/2026 às 08:30hs

Pecuaristas de oito estados criam agenda territorial para fortalecer a pecuária brasileira

Produtores rurais de diferentes regiões do Brasil estão construindo uma agenda própria para enfrentar os principais obstáculos ao desenvolvimento da pecuária. Organizados pelo movimento Vozes da Pecuária, eles passaram a identificar os problemas de seus territórios, propor soluções e levar suas posições diretamente aos governos, ao mercado e à sociedade.

A iniciativa ganhou força nos últimos dois anos e entrou em uma nova fase no dia 10 de setembro, quando as agendas territoriais foram consolidadas durante um encontro realizado em Brasília.

O trabalho reúne dez territórios distribuídos por oito estados. Juntas, essas regiões concentram aproximadamente 19,13 milhões de bovinos em uma área de 640 mil quilômetros quadrados.

Entre os temas prioritários estão segurança jurídica, infraestrutura, sucessão rural, formação de mão de obra, crédito, assistência técnica, abertura de mercados e valorização dos serviços ambientais prestados pelas propriedades.

Produtores mapearam desafios durante 120 dias

Entre maio e agosto, o movimento realizou rodas de conversa em sindicatos rurais, fazendas e comitivas. Durante 120 dias, pecuaristas analisaram os fatores que limitam a atividade em cada uma das dez regiões participantes.

Os diagnósticos combinaram dados territoriais, informações produtivas e relatos dos próprios produtores. Uma metodologia comum permitiu comparar realidades diferentes sem eliminar as particularidades econômicas, sociais, ambientais e culturais de cada localidade.

Os pecuaristas foram estimulados a organizar as soluções em três frentes: aquilo que pode ser resolvido dentro da propriedade, as medidas que dependem do poder público e as mudanças que exigem diálogo com o mercado.

A proposta também considera os impactos da pecuária sobre as comunidades, o meio ambiente e a economia dos municípios.

“Nós, pecuaristas, estamos dispostos a transformar. Temos o conhecimento necessário e a experiência para contribuir e encurtar caminhos. Precisamos estar presentes nos ambientes onde se comunica e onde se define a pecuária”, afirmou Raul Moraes, produtor e integrante do Comitê Gestor do Vozes da Pecuária.

Infraestrutura assume significados diferentes em cada região

Embora alguns problemas apareçam em praticamente todo o País, os impactos variam conforme o território.

Em determinada região, a deficiência de infraestrutura pode representar a falta de uma ponte para escoar os animais. Em outra, pode impedir a chegada de insumos necessários à recuperação de pastagens e à implantação de projetos voltados à captura de carbono.

A sucessão rural também possui diferentes dimensões. Em algumas propriedades, o desafio está em convencer os filhos a permanecerem na atividade. Em outras localidades, a ausência de escolas, postos de saúde, estradas e serviços básicos impede que famílias de trabalhadores continuem no campo.

As discussões mostraram que o acesso à tecnologia e à assistência técnica, isoladamente, não resolve todos os problemas. Muitos produtores conhecem as práticas que poderiam elevar a produtividade, mas encontram dificuldades estruturais e financeiras para assumir os riscos dos investimentos.

Brasil possui diferentes realidades pecuárias

Uma das principais conclusões do levantamento é que não existe uma única pecuária brasileira. A atividade está presente em áreas alagáveis, regiões de fronteira, zonas de agricultura intensiva e localidades distantes das indústrias e dos grandes mercados consumidores.

Clima, logística, estrutura fundiária, acesso a frigoríficos, disponibilidade de mão de obra e presença do poder público alteram a forma como cada produtor organiza o sistema produtivo.

“Não existe a pecuária do Brasil, existem as várias pecuárias”, resumiu Cacau Guarnieri, facilitador do Vozes da Pecuária.

A divisão territorial adotada pelo movimento foi definida a partir da vocação pecuária identificada em cada região, não seguindo necessariamente os limites administrativos tradicionais.

Permanência do homem pantaneiro preocupa produtores

Nos territórios do Pantanal, as discussões concentraram-se nas condições necessárias para manter as pessoas, as propriedades e a cultura pantaneira.

Educação, saúde, estradas e oportunidades para os jovens foram relacionadas à sucessão rural, à disponibilidade de trabalhadores e à continuidade do modo de vida ligado à criação de gado. A preocupação está presente tanto em Mato Grosso quanto em Mato Grosso do Sul.

“A fauna e a flora são extremamente importantes, mas o homem pantaneiro precisa ser visto e valorizado. Se perdermos a cultura do homem pantaneiro, talvez estejamos perdendo o nosso maior valor ambiental”, afirmou Leonardo Barros, pecuarista do território Planície Pantaneira Norte.

José Feliciano, embaixador do mesmo território, chamou a atenção para a redução do tamanho das propriedades e para a venda de áreas por famílias sem condições financeiras de permanecer na atividade. Segundo ele, a transferência dessas terras para pessoas sem vínculo com as tradições regionais também representa uma questão de responsabilidade social.

Oeste da Bahia e Matopiba enfrentam déficit de assistência técnica

No Oeste Baiano, uma agricultura altamente tecnificada convive com propriedades pecuárias que ainda enfrentam limitações de assistência técnica. O diagnóstico regional aponta que a média dos rebanhos está abaixo de 100 cabeças.

Realidade semelhante foi identificada em áreas do Tocantins, Maranhão e Piauí que integram o Matopiba.

Para Maurício Puton, pecuarista e embaixador do Oeste Baiano, agricultura e pecuária precisam avançar de forma integrada. Ele defende que a criação de gado deixe de ser tratada como atividade secundária dentro das propriedades e passe a integrar os projetos de intensificação produtiva.

Fernando Penteado, embaixador do Matopiba Central, destacou a necessidade de aproximar campo e cidade. Segundo ele, o consumidor precisa compreender que a carne resulta de um processo que envolve criadores, recriadores, confinadores e outros profissionais durante aproximadamente três anos até a chegada do produto ao varejo.

Corredor do Boi debate mercado, gestão e padronização

No chamado Corredor do Boi, entre Goiás e Mato Grosso, os produtores apontaram dificuldades relacionadas à padronização dos animais, à concentração de compradores, à formação de trabalhadores, à infraestrutura e à regulação ambiental.

O diagnóstico também reconheceu responsabilidades dentro das propriedades. Para os participantes, os produtores precisam melhorar a eficiência, a gestão e o planejamento dos sistemas de produção.

“O pecuarista precisa ter um plano de produtividade que possa seguir com clareza. Quem não utilizar as tecnologias disponíveis vai ser empurrado para fora”, afirmou Ricardo Junqueira, embaixador territorial do Corredor do Boi.

No Alto-Médio Araguaia, o debate incorporou os efeitos da atividade sobre as comunidades e o meio ambiente. “O impacto não pode ser somente para o pecuarista. Precisamos pensar na sociedade como um todo e também no meio ambiente”, declarou o produtor Guilherme Jerônimo.

Alta Noroeste Paulista aposta em produtividade e nichos de mercado

Na Alta Noroeste Paulista, a valorização das terras aumenta a disputa entre a pecuária e outras atividades econômicas. Para permanecer competitiva, a produção de gado precisa gerar mais valor por hectare.

A agenda regional propõe intensificação, elevação da produtividade e desenvolvimento de nichos de mercado capazes de remunerar produtos diferenciados.

“É preciso colocar muito valor agregado dentro das áreas, porque é isso que vai manter o produtor na atividade. O nosso grande DNA hoje é a intensificação”, afirmou Thomas Rocco, pecuarista e embaixador da região.

Amazônia busca disseminação organizada de tecnologias

Nos territórios do bioma amazônico, a falta de assistência técnica estruturada para pequenos produtores aparece como um dos principais desafios.

A avaliação é de que a disseminação organizada de tecnologias pode elevar a eficiência das áreas existentes e fortalecer a pecuária como alternativa à abertura de novas áreas.

No território da Amazônia Oriental Paraense, os produtores também destacaram a necessidade de comunicar melhor o papel das pastagens e das propriedades nos projetos relacionados ao carbono.

“Quando falamos da questão do carbono, a pastagem é um sumidouro de carbono. Precisamos comunicar isso muito bem. Essa é uma das oportunidades que temos e que são maiores do que todas as adversidades”, disse Samuel Aguiar, embaixador territorial da região.

Insegurança jurídica aparece como problema nacional

Apesar das diferenças territoriais, a insegurança jurídica surgiu como um ponto comum aos produtores.

Os relatos incluem demora na análise de processos ambientais e fundiários, divergências de interpretação, dificuldades de regularização e situações nas quais notificações ou embargos comprometem o crédito e interrompem investimentos.

Os pecuaristas não rejeitam o uso de imagens de satélite e outras tecnologias de monitoramento ambiental. A proposta apresentada é combinar as informações obtidas remotamente com verificações presenciais, principalmente antes da aplicação de penalidades.

A segurança jurídica também possui efeito econômico. A incerteza aumenta o risco dos projetos, dificulta a obtenção de financiamentos e pode inviabilizar mudanças produtivas que dependem de capital de longo prazo.

Serviços ambientais podem ser reconhecidos pelo crédito

O pagamento por serviços ambientais foi incluído entre as propostas construídas nos territórios. A discussão, entretanto, não ficou limitada ao pagamento direto pela manutenção de áreas conservadas.

Os produtores sugerem que a conservação ambiental também seja reconhecida por meio de linhas específicas de financiamento, juros adequados e prazos mais longos para o pagamento dos investimentos.

Nesse modelo, a ampliação do período de pagamento melhora o fluxo de caixa da propriedade e pode viabilizar projetos de recuperação de pastagens, conservação do solo e da água, proteção da biodiversidade e redução das emissões.

A agenda territorial parte do princípio de que resultados ambientais duradouros dependem de condições econômicas e sociais que permitam produzir, investir e manter pessoas no campo.

Exigências do mercado precisam gerar retorno ao produtor

Qualidade, rastreabilidade, diferenciação e sustentabilidade estão entre as exigências que chegam com maior frequência às propriedades.

Os pecuaristas defendem que essas demandas sejam traduzidas em informações objetivas. O produtor precisa compreender o padrão solicitado, as mudanças necessárias no sistema e a remuneração que poderá receber pelo produto diferenciado.

Entre as propostas estão a criação de grupos para ampliar o poder de negociação, a capacitação e atração de profissionais e o desenvolvimento de protocolos destinados a nichos específicos.

A indústria também foi incluída na construção da agenda, especialmente nos debates sobre concentração de compradores, padrões de qualidade e retorno financeiro das práticas exigidas.

“A nossa carne precisa levar essa preservação ambiental como um instrumento de decisão do consumidor na gôndola do supermercado”, afirmou Stefano Rettore, pecuarista e embaixador da Planície Pantaneira Sul.

Sucessão rural passa por renda e qualidade de vida

A permanência dos jovens nas propriedades depende de rentabilidade, acesso à tecnologia e qualidade de vida nos territórios.

De acordo com os participantes, os sucessores demonstram interesse crescente por modelos produtivos eficientes e sustentáveis, mas precisam encontrar condições para construir uma carreira no campo.

“Os jovens sucessores aceitaram que têm o desafio de serem sustentáveis e querem ser sustentáveis. Eles têm muita facilidade para entender esse processo”, afirmou Fernanda Machado, pecuarista e embaixadora do território São Luiz e Trindade, em Mato Grosso.

O movimento avalia que políticas de sucessão não devem se limitar à transferência patrimonial. Também precisam considerar educação, conectividade, saúde, infraestrutura, assistência técnica e oportunidades de geração de renda.

Movimento prepara interlocução com governos e mercado

Depois da etapa de diagnóstico, o Vozes da Pecuária pretende envolver mais produtores, definir as bandeiras prioritárias de cada território e transformar os levantamentos em agendas permanentes de interlocução.

A comunicação terá papel central nessa nova fase. A percepção dos participantes é de que os dados e as discussões não podem permanecer restritos ao setor produtivo.

“Não é só um trabalho de escuta e de articulação, mas também um empenho para chegar a resultados. Queremos contribuir para ampliar o impacto e essa voz”, afirmou Luciana Barbetta, diretora-executiva da Terra Adorada.

O movimento também trabalha na criação do Instituto Vozes da Pecuária, com incentivo da organização Terra Adorada. A estrutura deverá preservar a participação direta dos produtores na definição dos temas e das posições apresentadas.

O objetivo não é substituir as entidades representativas do agronegócio, mas ampliar a presença dos pecuaristas nos espaços em que políticas, regras de mercado e percepções sobre a atividade são construídas.

Pecuaristas querem aproximar campo e sociedade

Os participantes defendem que o setor fale diretamente com a sociedade sobre sua realidade, seus desafios e as soluções que está disposto a desenvolver.

Para Amanda Purger, coordenadora dos embaixadores territoriais, planejar o futuro exige compreender com precisão o cenário atual. Ela ressalta que o trabalho envolve mais do que produção de bovinos ou carne: abrange pessoas, cultura, vínculos territoriais e dedicação à atividade.

Mauro Lucio Costa, pecuarista e integrante do comitê gestor, avalia que poucas atividades econômicas oferecem tantas oportunidades quanto a pecuária.

Segundo Renata Miranda, facilitadora do movimento, a iniciativa nasceu com a compreensão de que não existe uma resposta única para todos os produtores. As soluções precisam ser ajustadas às características de cada território.

Ao transformar os diagnósticos locais em propostas articuladas, os pecuaristas buscam participar diretamente das decisões sobre produção, mercado, meio ambiente e desenvolvimento rural — contando, com a própria voz, quem são, como trabalham e quais condições consideram necessárias para construir o futuro da pecuária brasileira.

pecuaristas-br

Fonte: Portal do Agronegócio

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