Pecuária brasileira deve entrar em nova era até 2040, com foco em eficiência, tecnologia e valor agregado
Pesquisador da Embrapa Gado de Corte aponta avanço da produtividade, rastreabilidade, sustentabilidade e tecnologia como fatores que devem transformar a pecuária de corte brasileira nas próximas décadas
Publicado em: 25/09/2026 às 14:00hs
A pecuária de corte brasileira deve passar por uma transformação estrutural até 2040, marcada pela busca por maior produtividade em áreas já utilizadas, avanço da tecnologia, rastreabilidade, sustentabilidade e agregação de valor à carne bovina.
Os principais desafios e oportunidades para o setor serão apresentados pelo pesquisador Guilherme Cunha Malafaia, da Embrapa Gado de Corte, durante o 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte, marcado para 6 de outubro, em Chapecó (SC).
A palestra, intitulada “O Futuro da Carne Bovina Brasileira: Visão 2040”, está programada para as 9h20 e integra a programação científica que antecede o 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL).
Promovidos pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), os eventos serão realizados entre os dias 6 e 8 de outubro e reunirão pesquisadores e profissionais para discutir os rumos da produção animal.
Pecuária terá de produzir mais em áreas já disponíveis
Uma das principais mudanças projetadas para as próximas décadas está relacionada à utilização da terra.
Segundo Malafaia, a área destinada às pastagens no Brasil diminuiu aproximadamente 11% nas últimas duas décadas, enquanto a produtividade praticamente dobrou e se aproxima de cinco arrobas por hectare ao ano.
Para 2040, a projeção apresentada pelo pesquisador aponta para uma produção superior a 13 milhões de toneladas de carne bovina, com participação crescente de sistemas intensivos e confinados.
O cenário indica que a expansão da pecuária dependerá cada vez menos da abertura de novas áreas e mais da capacidade de elevar a produtividade das terras já utilizadas.
Nesse processo, fatores como genética, nutrição, recuperação de pastagens, integração de atividades, manejo e gestão devem ganhar importância na definição da competitividade dos sistemas pecuários.
Modelo de produção deve migrar do volume para o valor
Na avaliação de Malafaia, a pecuária brasileira tende a deixar gradualmente um modelo concentrado na produção de grandes volumes para avançar em direção a sistemas baseados em eficiência, precisão, qualidade e diferenciação.
“A pecuária de corte brasileira passará por uma transição estrutural decisiva, abandonando o modelo de volume para se consolidar como uma pecuária de valor e precisão”, afirma o pesquisador.
Essa transformação envolve toda a cadeia produtiva, desde insumos, genética e manejo nas propriedades rurais até processamento industrial, comercialização e comportamento do consumidor.
A capacidade de medir resultados e utilizar informações para orientar decisões deverá se tornar cada vez mais importante para produtores e empresas.
Status sanitário amplia oportunidades para a carne brasileira
Outro fator apontado como estratégico para o futuro da pecuária é o avanço do status sanitário brasileiro.
O reconhecimento do Brasil, em 2025, como país livre de febre aftosa sem vacinação abriu novas possibilidades de acesso a mercados internacionais e pode contribuir para ampliar as negociações de produtos de maior valor agregado.
De acordo com a projeção apresentada por Malafaia, as exportações poderão representar mais de 40% da produção brasileira de carne bovina até 2040.
Nesse cenário, a competitividade internacional não deverá depender apenas da capacidade de ofertar grandes volumes.
Aspectos como origem, sanidade, sustentabilidade, bem-estar animal, qualidade e comprovação das práticas utilizadas na produção tendem a ganhar relevância nas negociações com compradores internacionais.
Rastreabilidade deverá ir além do controle sanitário
A rastreabilidade também deve assumir uma função mais ampla na cadeia da carne bovina.
A identificação individual dos animais poderá concentrar informações relacionadas à origem, genética, alimentação, manejo e indicadores ambientais.
Com o avanço da digitalização, esses dados poderão acompanhar o produto durante diferentes etapas da cadeia produtiva e servir como mecanismo de diferenciação comercial.
Para o produtor, isso significa maior necessidade de registrar informações e manter processos de gestão capazes de comprovar as características atribuídas ao animal e à carne.
Sustentabilidade ganha espaço na pecuária
A agenda ambiental será outro componente importante da transformação projetada para o setor.
Entre as alternativas destacadas estão a expansão dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a recuperação de pastagens degradadas.
A adoção dessas estratégias pode contribuir para melhorar a eficiência das áreas produtivas e combinar aumento da produção com práticas voltadas à redução dos impactos ambientais.
Programas relacionados à agricultura de baixo carbono também podem estimular a transformação de áreas de pastagem em sistemas mais produtivos e eficientes.
Gestão profissional será cada vez mais necessária
A transformação tecnológica e produtiva também deverá aumentar a exigência sobre a gestão das propriedades rurais.
Na visão apresentada por Malafaia, o produtor precisará administrar a atividade cada vez mais com uma lógica empresarial, acompanhando custos, indicadores produtivos, planejamento, investimentos e resultados econômicos.
A tendência também pode ampliar a diferenciação entre os sistemas de produção.
Enquanto algumas propriedades deverão priorizar escala e eficiência de custos, outras poderão direcionar a produção para mercados especializados, com atributos como certificações, origem, sustentabilidade e características específicas valorizadas pelos consumidores.
Inteligência artificial e automação chegam ao campo
A tecnologia será outro vetor de transformação da pecuária até 2040.
A automação de processos, a inteligência artificial, o monitoramento digital dos animais e a utilização de dados devem ganhar espaço nas propriedades à medida que aumenta a necessidade de eficiência e também a dificuldade de encontrar mão de obra especializada.
Nesse ambiente, o profissional rural deverá incorporar novas competências para operar equipamentos, interpretar indicadores e utilizar informações na tomada de decisões.
A digitalização, portanto, não deve ficar restrita aos grandes empreendimentos. A tendência é de que ferramentas tecnológicas passem a fazer parte de diferentes etapas da produção pecuária.
Quem é Guilherme Cunha Malafaia
Pesquisador da Embrapa Gado de Corte e coordenador do Centro de Inteligência da Carne Bovina (CiCarne), Guilherme Cunha Malafaia possui mestrado em Economia Rural pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e doutorado em Agronegócios pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O pesquisador também atua como consultor sênior do Banco Mundial em análises de riscos para o setor agropecuário.
Sua participação no Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte terá como foco justamente as mudanças que podem influenciar a cadeia da carne bovina brasileira até 2040.
Fórum e simpósio discutem futuro da produção animal
A palestra sobre o futuro da carne bovina integra a programação comemorativa dos 15 anos do Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite.
O encontro ocorre no mês em que a entidade responsável pela realização completa 55 anos.
Durante os três dias de programação, especialistas brasileiros e estrangeiros discutirão temas relacionados a sistemas de produção, sanidade, reprodução, gestão, qualidade do leite e nutrição de alta performance.
A agenda coloca em debate uma pecuária que deverá combinar produtividade, tecnologia, gestão, sanidade, sustentabilidade e capacidade de atender mercados cada vez mais exigentes.
Para a pecuária brasileira, o horizonte até 2040 aponta para uma mudança que vai além do aumento da produção: a eficiência com que cada hectare, animal e informação serão utilizados tende a ganhar peso crescente na competitividade da cadeia da carne.
Fonte: Portal do Agronegócio
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