Confinamento perde lucratividade no Centro-Oeste mesmo com queda de 9,38% no custo alimentar
ICAP/Ponta Agro mostra que menor custo da dieta não foi suficiente para compensar aumento do tempo de cocho e queda na produção de arrobas; Sudeste alcança R$ 1.163,88 de lucro por cabeça
Publicado em: 21/09/2026 às 10:30hs
A redução do custo alimentar não foi suficiente para melhorar a rentabilidade do confinamento de bovinos no Centro-Oeste em agosto. Segundo o Índice de Custo Alimentar Ponta (ICAP), o custo da alimentação recuou 9,38%, para R$ 11,89 por cabeça/dia, mas o resultado econômico da atividade foi pressionado pelo aumento do tempo de permanência dos animais no cocho e pela menor produção de arrobas por cabeça.
O tempo médio de cocho passou de 99 para 107 dias, enquanto a produção caiu de 8,08 para 7,81 arrobas por animal. Como consequência, o custo da arroba produzida aumentou 11,07%, chegando a R$ 200,61, enquanto a lucratividade recuou 13,63%, para R$ 983,18 por cabeça.
Os dados do ICAP são calculados a partir de informações reais coletadas pela tecnologia de gestão de confinamento (TGC), utilizada em operações que representam mais de 57% das cabeças confinadas no país, segundo o Beef Report Abiec/2026.
Sudeste amplia vantagem sobre o Centro-Oeste
Apesar da perda de rentabilidade no Centro-Oeste, o cenário regional apresentou uma mudança importante em agosto.
O Sudeste manteve, pelo sexto mês consecutivo, o menor custo alimentar medido pelo ICAP. Ao mesmo tempo, a diferença de custo entre as duas regiões diminuiu significativamente.
Depois de atingir R$ 1,64 por cabeça/dia em julho, a vantagem do Sudeste caiu para apenas R$ 0,35 em agosto, menor diferença registrada desde o início da inversão regional, em março.
Na lucratividade da arroba produzida, entretanto, a distância aumentou.
No Sudeste, o lucro avançou 1,59%, para R$ 1.163,88 por cabeça, o maior resultado desde abril. Já no Centro-Oeste, a lucratividade caiu para R$ 983,18.
Com isso, a diferença regional chegou a R$ 180,70 por cabeça, a maior do ano.
Dieta de terminação fica mais barata no Centro-Oeste
A redução do custo alimentar no Centro-Oeste foi puxada principalmente pela queda do preço da dieta de terminação.
Em agosto, esse custo recuou 8,45%, para R$ 1.022,62 por tonelada de matéria seca (MS). Foi o maior alívio mensal registrado em 2026 na região.
Os ingredientes proteicos ficaram 24,85% mais baratos na ponderação, enquanto o DDG alcançou o menor preço do ano.
Com o movimento, a dieta de terminação do Centro-Oeste ficou, pela primeira vez desde fevereiro, abaixo do custo registrado no Sudeste.
No Sudeste, a dieta ficou em R$ 1.046,27 por tonelada de MS, com queda mensal de 1,96%.
Apesar da vantagem no custo da alimentação, o Centro-Oeste não conseguiu transformar a redução da dieta em maior margem.
Proteicos e energéticos puxam queda dos custos no Centro-Oeste
Na comparação com a média do trimestre de maio a julho, o custo da dieta do Centro-Oeste terminou agosto 9,77% abaixo.
O resultado foi favorecido principalmente pela redução dos ingredientes proteicos e energéticos.
- Energéticos: -4,99%
- Proteicos: -25,40%
- Volumosos: +19,45%
- Outros: -5,79%
Entre os energéticos, o milho em grão seco ficou 11,9% abaixo da média trimestral, mesmo diante da recuperação dos preços observada em agosto.
A polpa cítrica também contribuiu para reduzir os custos, operando 9,3% abaixo da média.
No grupo dos proteicos, o farelo de algodão apresentou preço 36,7% inferior à média trimestral. A maior participação do WDG, fonte proteica de menor custo, também ajudou a reduzir o valor ponderado da categoria.
Os volumosos apresentaram comportamento contrário e ficaram 19,45% acima da média trimestral.
A alta foi influenciada principalmente por:
- silagem de milho: +10,9%
- feno: +14,9%
- silagem de mombaça: +23,1%
Mesmo com essa pressão, os volumosos possuem menor peso relativo no custo total da dieta, o que permitiu que a redução dos demais componentes prevalecesse.
Sudeste registra queda de 5,04% no custo da dieta
No Sudeste, o custo da dieta terminou agosto 5,04% abaixo da média registrada entre maio e julho.
A principal contribuição veio dos volumosos, enquanto os energéticos também permaneceram abaixo da média trimestral. Já os proteicos apresentaram leve aumento.
- Energéticos: -2,86%
- Proteicos: +1,51%
- Volumosos: -12,53%
- Outros: -19,85%
Entre os energéticos, a polpa cítrica, com queda de 6,1%, e o sorgo em grão seco, com redução de 5,3%, contribuíram para diminuir o custo.
O milho, entretanto, permaneceu 16,8% acima da média trimestral.
No grupo dos proteicos, houve pressão de alta de itens como caroço de algodão, que avançou 10,6%, farelo de amendoim, com alta de 13,3%, e DDG, que subiu 3,1%.
Bagaço de cana reduz custo dos volumosos no Sudeste
A queda de 12,53% no custo dos volumosos no Sudeste esteve relacionada principalmente ao aumento da participação do bagaço de cana na composição das dietas durante a safra canavieira.
Embora o preço unitário do ingrediente esteja acima da média trimestral, o bagaço de cana continua sendo o volumoso mais barato e amplamente utilizado na região.
Com maior participação no mix, o ingrediente contribuiu para reduzir o custo ponderado da categoria.
Menor eficiência produtiva pesa sobre o confinamento
Os números de agosto mostram que a redução do custo alimentar, isoladamente, não determina a rentabilidade do confinamento.
No Centro-Oeste, enquanto o ICAP caiu expressivos 9,38%, os animais abatidos permaneceram mais tempo no cocho e produziram menos arrobas.
O ciclo aumentou de 99 para 107 dias, enquanto a produção caiu de 8,08 para 7,81 arrobas por cabeça.
Esse movimento elevou o custo da arroba produzida para R$ 200,61, alta de 11,07%.
Ao mesmo tempo, o preço do boi físico subiu 1,56%, para R$ 326,50 por arroba.
O resultado foi uma redução de 13,63% na lucratividade, para R$ 983,18 por cabeça.
No Sudeste, o comportamento foi diferente.
Mesmo com três dias adicionais de cocho, a produção aumentou de 7,59 para 7,92 arrobas por cabeça.
O custo da arroba produzida ficou em R$ 194,05, alta de apenas 0,52%, enquanto o preço do boi físico caiu 0,87%, para R$ 341,00 por arroba.
Ainda assim, a combinação entre maior produção e controle dos custos permitiu que a lucratividade avançasse 1,59%, alcançando R$ 1.163,88 por cabeça.
Sudeste também mantém vantagem no boi China
A diferença regional também aparece quando considerada a cotação do mercado de exportação.
Na referência de boi China, a lucratividade alcançou R$ 1.235,16 por cabeça no Sudeste, contra R$ 1.026,13 no Centro-Oeste.
No mercado interno, o Sudeste também combinou uma cotação mais elevada da arroba com menor custo de produção, fatores que contribuíram para ampliar a diferença de rentabilidade entre as regiões.
Custo alimentar menor não significa lucro maior
Os resultados de agosto reforçam um ponto importante para a gestão do confinamento: reduzir o custo da alimentação é fundamental, mas não garante, por si só, maior margem econômica.
No Centro-Oeste, o custo alimentar por cabeça/dia caiu para R$ 11,89. Porém, quando considerado o resultado por arroba produzida, o cenário foi diferente.
O custo de nutrição por arroba aumentou apenas 1,33%, passando de R$ 160,75 para R$ 162,90.
Isso significa que grande parte da elevação do custo total da arroba produzida esteve relacionada aos demais componentes da produção e ao perfil dos animais abatidos durante o período.
A combinação de maior tempo de cocho e menor produção de arrobas acabou reduzindo a eficiência econômica da operação.
Relação de troca melhora no Centro-Oeste
A forte queda do ICAP também provocou uma melhora significativa na Relação de Troca do Centro-Oeste.
O indicador passou de 24,50 para 27,46 dias, alcançando a segunda melhor marca de toda a série histórica da região.
No Sudeste, a Relação de Troca permaneceu em nível elevado, chegando a 29,55 dias, muito próximo do recorde de 29,97 dias, registrado em julho.
Os dados mostram, portanto, que o ambiente de compra dos ingredientes ficou mais favorável ao confinador do Centro-Oeste, mas esse benefício não foi suficiente para compensar a perda de eficiência produtiva.
Margem do confinamento depende de custo e desempenho
O comportamento de agosto reforça a importância de acompanhar simultaneamente o preço dos insumos, o desempenho animal, o tempo de cocho e a produção de arrobas.
Uma dieta mais barata pode reduzir o desembolso diário do confinamento, mas o impacto final sobre a margem depende da capacidade do animal de converter alimentação e tempo em ganho de peso e arrobas comercializáveis.
No Centro-Oeste, essa relação ficou evidente em agosto: o custo alimentar recuou 9,38%, mas o maior período de confinamento e a menor produção por cabeça elevaram o custo da arroba e reduziram a lucratividade.
No Sudeste, por outro lado, a maior produção por animal ajudou a preservar a margem mesmo diante de uma cotação física ligeiramente menor.
Inteligência de dados ganha espaço na gestão do confinamento
O ICAP é elaborado com base em dados de confinamentos monitorados pelas tecnologias da Ponta, incluindo o TGC – sistema de gestão de confinamento utilizado em operações pecuárias no Brasil.
A base do índice reúne milhões de diárias de alimentação de bovinos e permite acompanhar mensalmente a evolução do custo alimentar nas principais regiões produtoras.
Segundo a Ponta, o indicador vem sendo utilizado como ferramenta de apoio para o planejamento de compras de insumos, avaliação da viabilidade econômica do confinamento e análise das margens da atividade.
A utilização de dados em escala permite aos produtores observar não apenas o preço individual dos ingredientes, mas também o impacto da composição das dietas sobre o custo final da produção.
O que os dados de agosto mostram para o confinamento?
O principal sinal do ICAP em agosto é que eficiência produtiva e gestão de custos precisam caminhar juntas.
No Centro-Oeste, a forte redução do custo alimentar não conseguiu compensar a queda no desempenho econômico por animal. Já no Sudeste, a maior produção de arrobas ajudou a sustentar a rentabilidade.
Para o confinador, o acompanhamento integrado de custo da dieta, dias de cocho, produção por cabeça, preço da arroba e demais custos de produção se torna determinante para avaliar a margem efetiva da operação.
Lucratividade da arroba produzida: cálculo realizado com base nos dados médios dos animais abatidos no mês de referência, utilizando a cotação da arroba balcão. O indicador considera o resultado das arrobas produzidas durante o confinamento e não contempla o ágio de compra do boi magro.
Estimativa de lucratividade realizada com cotação de arroba balcão da Scot Consultoria, sem considerar bonificações relacionadas à rastreabilidade, padrão de qualidade e protocolos de mercado.

Fonte: Portal do Agronegócio
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