Certificação da lã gaúcha impulsiona renda no campo e alcança quase 600 mil quilos em quatro safras
Programa da Arco fortalece a qualidade da lã produzida no Rio Grande do Sul, amplia valorização da fibra e eleva receita dos produtores em até 65%
Publicado em: 06/08/2026 às 11:55hs
A certificação da lã produzida no Rio Grande do Sul vem consolidando uma nova fase para a ovinocultura brasileira. Em quatro safras, o Programa de Certificação da Lã Gaúcha, coordenado pela Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), já certificou quase 600 mil quilos de lã, agregando valor à produção, melhorando a remuneração dos produtores e ampliando a competitividade da cadeia produtiva.
Os resultados foram apresentados durante o 3º Dia da Lã, realizado em Sant'Ana do Livramento (RS), reunindo produtores, especialistas, representantes da indústria e lideranças do setor para discutir o futuro da ovinocultura e os desafios da valorização da fibra natural.
Certificação fortalece a competitividade da lã brasileira
Na abertura do evento, o presidente da Arco, Edemundo Gressler, destacou que a certificação representa um marco para a recuperação da cadeia produtiva da lã, que durante muitos anos perdeu espaço na composição da renda das propriedades rurais.
Segundo ele, o programa alia o conhecimento tradicional dos criadores às exigências técnicas do mercado, incorporando critérios como classificação, identificação, padronização dos lotes e análise da qualidade da fibra.
Gressler lembrou que o Rio Grande do Sul responde por mais de 90% da produção brasileira de lã com potencial têxtil, tornando a certificação uma ferramenta estratégica para ampliar a competitividade nacional e atender mercados mais exigentes.
Mercado internacional da lã apresenta sinais de recuperação
O cenário global também mostrou evolução positiva.
Durante o encontro, especialistas destacaram que, após anos de instabilidade provocados pela guerra comercial entre Estados Unidos e China, pandemia, inflação elevada e conflitos internacionais, o mercado mundial voltou a registrar maior demanda pela fibra.
Segundo o presidente da União de Consignatários e Rematadores de Lã do Uruguai, Santiago Onande, os estoques globais diminuíram significativamente, enquanto a redução dos rebanhos ovinos em diversos países limitou a oferta.
Com menor disponibilidade de matéria-prima, compradores voltaram ao mercado em busca de diferentes tipos de lã, beneficiando produtores de diversas raças e padrões de fibra.
Programa já certificou quase 600 mil quilos de lã
Os resultados do programa demonstram sua rápida evolução desde o início das atividades.
De acordo com dados apresentados pela Arco, os volumes certificados foram:
- Safra 2022/23: 120.130 quilos;
- Safra 2023/24: 190.661 quilos;
- Safra 2024/25: 139.116 quilos;
- Safra 2025/26: 121.523 quilos.
Somadas, as quatro safras aproximam o programa da marca de 600 mil quilos de lã certificada, evidenciando a crescente adesão dos produtores.
Apesar dos avanços, os coordenadores do projeto ressaltam que o volume ainda representa apenas uma pequena parcela do potencial produtivo do Estado, já que muitos produtores continuam comercializando a fibra sem informações técnicas sobre finura, rendimento ao lavado e qualidade dos lotes.
Conhecimento técnico aumenta valor da produção
Segundo o coordenador técnico do programa, Leonardo Santos Farion, a certificação permite que o produtor conheça detalhadamente as características da sua lã e negocie com maior poder de mercado.
A espessura da fibra, medida em micras, continua sendo um dos principais fatores de formação dos preços internacionais.
Durante o evento foram apresentados valores de referência que variam conforme a qualidade da lã:
- 18 micras: US$ 10,00/kg;
- 20 micras: US$ 8,50/kg;
- 22 micras: US$ 6,50/kg;
- 24 micras: US$ 5,00/kg;
- 28 micras: US$ 2,60/kg;
- 31 micras: US$ 2,40/kg.
Segundo Farion, conhecer essas características permite separar corretamente os lotes e agregar valor ao mesmo rebanho.
Receita por ovelha cresce até 65%
Os resultados econômicos confirmam a eficiência do programa.
Dados apresentados durante o 3º Dia da Lã mostram que, em 2024, propriedades participantes registraram:
- aumento de 52,8% no valor líquido obtido com a comercialização da lã;
- crescimento de 65,1% na receita por ovelha em comparação ao ano anterior.
Os ganhos foram obtidos por meio da correta classificação, acondicionamento, análise laboratorial e comercialização de lotes certificados.
Setor busca ampliar adesão e qualificar mão de obra
Entre as prioridades para os próximos anos estão a expansão da certificação para um número maior de propriedades, o fortalecimento da presença da lã gaúcha nos mercados nacional e internacional e a formação de profissionais especializados para atender a crescente demanda da cadeia produtiva.
O programa também prevê novas ações de capacitação, atualização do Manual de Normas de Acondicionamento, desenvolvido em parceria entre o Senar e a Arco, além da ampliação do trabalho junto às comparsas responsáveis pela tosquia e preparação dos lotes.
Produção de carne e lã deve caminhar de forma integrada
Durante a mesa-redonda que encerrou o evento, representantes da indústria e das entidades do setor defenderam o equilíbrio entre a produção de carne ovina e a preservação das raças laneiras.
Segundo Edemundo Gressler, o crescimento dos cruzamentos industriais voltados exclusivamente à produção de cordeiros pode comprometer, no futuro, a oferta de lã de qualidade produzida no Rio Grande do Sul.
Para o dirigente, carne e lã são atividades complementares, e o fortalecimento da certificação representa um caminho para aumentar a rentabilidade das propriedades sem abrir mão da tradição e da qualidade da ovinocultura gaúcha.
Certificação consolida novo momento para a ovinocultura brasileira
Os resultados apresentados no 3º Dia da Lã demonstram que a certificação vem se consolidando como uma ferramenta estratégica para elevar a qualidade da produção, aumentar a renda dos criadores e fortalecer a presença da lã brasileira nos mercados mais exigentes.
Com maior rastreabilidade, padronização e valorização comercial, a iniciativa abre novas oportunidades para a cadeia da ovinocultura e reforça o potencial do Rio Grande do Sul como principal polo produtor de lã de alto padrão no Brasil.
Fonte: Portal do Agronegócio
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