Investigação denuncia descarte de até 35 mil pintinhos por dia em incubatório no Brasil
Mercy For Animals documenta trituração de machos recém-nascidos na indústria de ovos e amplia debate sobre bem-estar animal, legislação e adoção da sexagem in ovo
Publicado em: 14/09/2026 às 10:00hs
Uma investigação conduzida pela organização Mercy For Animals (MFA) denunciou o descarte de pintinhos machos por trituração em um incubatório de grande porte localizado na Região Sul do Brasil. Segundo a entidade, aproximadamente 35 mil animais teriam sido mortos em apenas um dia na unidade investigada.
A organização afirma que esta é a primeira vez que o procedimento é documentado e divulgado publicamente no País por meio de uma investigação própria. As imagens e informações apresentadas reacendem o debate sobre os métodos utilizados pela indústria de ovos para eliminar aves consideradas sem viabilidade econômica.
Por que pintinhos machos são descartados pela indústria de ovos?
Nas linhagens selecionadas para a produção de ovos, os pintinhos são separados por sexo logo após a eclosão. As fêmeas são encaminhadas às granjas de postura, enquanto os machos costumam ser descartados porque não produzem ovos e não apresentam o desempenho zootécnico das linhagens desenvolvidas para a produção de carne.
De acordo com dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mencionados pela MFA, mais de 85 milhões de pintinhos machos seriam eliminados anualmente no Brasil.
Na unidade investigada, cerca de metade das aves nascidas era formada por machos, proporção natural do processo reprodutivo. Segundo a organização, os animais eram descartados nas primeiras 24 horas de vida por meio de maceradores mecânicos.
Investigação também relata descarte de fêmeas
A apuração da Mercy For Animals indica que o descarte não estaria limitado aos pintinhos machos. Fêmeas consideradas inadequadas para a produção também seriam eliminadas, incluindo aves com deformidades, anomalias, sangramentos ou nascimento prematuro.
Ainda conforme a investigação, também poderiam ser descartadas fêmeas excedentes, quando o número de aves nascidas superasse a demanda diária das granjas de postura.
A entidade questiona o uso dos maceradores e sustenta que falhas no procedimento podem impedir a morte imediata dos animais, prolongando o sofrimento. A denúncia coloca em evidência a necessidade de fiscalização, transparência e critérios técnicos nos incubatórios comerciais.
Constituição proíbe práticas cruéis contra animais
A Constituição Federal determina que o poder público deve proteger a fauna e proíbe práticas que submetam animais à crueldade. O Brasil, entretanto, ainda não possui uma lei federal específica que proíba o descarte de pintinhos machos na indústria de ovos.
A discussão já chegou ao Congresso Nacional. Conforme a MFA, os projetos de lei 783/2024 e 3.034/2026 tratam do tema e propõem mudanças relacionadas aos métodos de eliminação dessas aves.
Para a vice-presidente de Investigações da Mercy For Animals, Luiza Schneider, o problema não estaria restrito ao incubatório analisado, mas seria resultado da estrutura produtiva do setor de postura comercial. Segundo ela, tornar o procedimento conhecido é essencial para ampliar o debate público e estimular a adoção de alternativas.
Sexagem in ovo surge como alternativa ao descarte
Entre as tecnologias disponíveis está a sexagem in ovo, método que permite identificar o sexo da ave durante a incubação. Com isso, os ovos com embriões machos podem ser retirados do processo antes da eclosão, evitando o nascimento de animais destinados ao descarte.
Alemanha, França e Itália estão entre os países que adotaram medidas para restringir ou proibir a trituração de pintinhos vivos e estimular tecnologias de identificação antecipada do sexo.
Além dos possíveis avanços em bem-estar animal, a sexagem in ovo pode reduzir o uso de energia, espaço e outros recursos empregados na incubação de ovos que resultariam em machos posteriormente eliminados.
Tecnologia ainda avança lentamente no Brasil
No mercado brasileiro, a sexagem in ovo permanece em estágio inicial e está concentrada em iniciativas pontuais. De acordo com Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da Mercy For Animals, grandes empresas já discutem a implantação da tecnologia, enquanto o assunto também integra a agenda regulatória do Ministério da Agricultura e Pecuária.
A expansão da alternativa, contudo, depende de fatores como custo dos equipamentos, escala dos incubatórios, eficiência da identificação e estabelecimento de regras para orientar a transição produtiva.
Bem-estar animal influencia decisão dos consumidores
Pesquisas citadas pela entidade indicam crescente preocupação dos brasileiros com os métodos empregados na produção de alimentos. Levantamento da Ipsos aponta que 83% dos entrevistados se preocupam com o bem-estar dos animais na indústria de ovos.
Outro estudo, encomendado pela Innovate Animal Ag, mostrou que 73% dos participantes se sentem desconfortáveis com o sacrifício de pintinhos machos logo após o nascimento. Na mesma pesquisa, 76% defenderam que a indústria busque uma alternativa para eliminar essa prática.
Denúncia aumenta pressão por mudanças na cadeia de ovos
A divulgação da investigação tende a ampliar a pressão por transparência nos incubatórios, regulamentação dos métodos de descarte e investimentos em tecnologias capazes de evitar o nascimento de pintinhos sem destinação produtiva.
O avanço dessa discussão deverá envolver produtores, incubatórios, empresas de genética, indústria de ovos, órgãos fiscalizadores, pesquisadores, parlamentares e consumidores. Para o setor, o desafio será conciliar viabilidade econômica, segurança produtiva e padrões mais rigorosos de bem-estar animal.
Fonte: Portal do Agronegócio
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