Gumboro: variantes do vírus ampliam desafio sanitário e podem afetar desempenho das aves
Estudos apresentados pela Ceva apontam efeitos sobre a imunidade mesmo sem sinais clínicos; análises de campo reuniram dados de mais de 150 milhões de aves
Publicado em: 09/10/2026 às 08:00hs
A evolução do vírus da doença de Gumboro amplia os desafios de controle na avicultura brasileira, sobretudo pela possibilidade de comprometer o sistema imunológico das aves sem provocar sinais clínicos evidentes. Estudos apresentados pela Ceva Saúde Animal indicam diversidade genética entre os agentes circulantes e efeitos que podem persistir por mais de 11 dias após a infecção.
Os resultados foram discutidos durante o lançamento da vacina Nextmune, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. A programação reuniu especialistas para abordar o comportamento das variantes, as tecnologias de vacinação e os impactos sanitários e produtivos observados em condições comerciais.
Segundo o médico-veterinário Jorge Chacón, gerente nacional de Serviços Veterinários da Ceva Saúde Animal Brasil, conhecer as características dos vírus encontrados nos plantéis é fundamental para definir estratégias de prevenção compatíveis com os desafios do campo.
Infecção sem sinais evidentes pode comprometer a imunidade
O levantamento apresentado pela empresa identificou variantes resultantes de rearranjos genéticos entre diferentes cepas. Nos testes relatados, os vírus provocaram comprometimento prolongado do sistema de defesa das aves, mesmo sem manifestações clínicas imediatas.
Essa imunossupressão pode aumentar a vulnerabilidade dos lotes a outras infecções e contribuir para perdas de desempenho.
O médico-veterinário Luiz Sesti, responsável internacional pelos Serviços Veterinários da Ceva, explicou que as avaliações incluíram estudos de desafio. Nesse tipo de investigação, grupos de aves são expostos ao vírus em condições controladas para que os pesquisadores acompanhem os efeitos da infecção.
De acordo com Sesti, a ausência de sintomas visíveis não permite descartar prejuízos à imunidade. Por isso, a avaliação sanitária precisa considerar também os efeitos subclínicos da doença.
Evolução do vírus exige revisão das estratégias de controle
Conforme os dados históricos apresentados no encontro, a doença de Gumboro chegou a estar associada à mortalidade de 20% a 30% das aves nos anos 2000. O avanço da vacinação, do manejo e da biosseguridade contribuiu para reduzir esse impacto.
A evolução do agente, entretanto, manteve a necessidade de atualização dos programas de prevenção. O desafio envolve identificar os vírus circulantes e compreender como eles interferem na saúde e na produtividade dos plantéis.
Nivaldo Grando, vice-presidente da Ceva Saúde Animal Brasil, destacou que a empresa mantém investimentos em pesquisa e desenvolvimento para responder às mudanças no cenário sanitário da avicultura.
Vacinas utilizam diferentes tecnologias contra Gumboro
Durante a programação, Sesti apresentou as principais plataformas de vacinação utilizadas no controle da doença: vacinas de vírus vivo, vetorizadas em HVT e de complexo imune.
As vacinas de vírus vivo empregam uma cepa vacinal para estimular a resposta imunológica. As vetorizadas utilizam o herpesvírus de perus, conhecido pela sigla HVT, como veículo para apresentar componentes do agente ao sistema de defesa das aves.
Já a tecnologia de complexo imune associa o vírus vacinal a anticorpos específicos. Segundo a Ceva, a Nextmune utiliza essa plataforma, com a cepa Winterfield 2512 associada a anticorpos, e está disponível em todo o território nacional.
Estudos de campo avaliaram mais de 150 milhões de aves
Além dos ensaios controlados e das experiências internacionais, a empresa apresentou análises realizadas em condições comerciais no Brasil.
O médico-veterinário Tharley Carvalho, gerente de Marketing de Aves da Ceva Saúde Animal Brasil, detalhou 11 estudos de campo que reuniram dados de mais de 150 milhões de aves. Foram avaliados indicadores como conversão alimentar, ganho de peso, mortalidade e condenações no abatedouro.
As análises utilizaram a abordagem de evidências do mundo real, conhecida pela sigla RWE, com métodos estatísticos para considerar outros fatores capazes de influenciar os resultados.
Segundo a empresa, a intensidade das respostas variou entre as operações, mas os estudos apresentaram um padrão consistente de benefício nos grupos avaliados.
Empresa relata melhora na conversão alimentar e redução de condenações
Na conversão alimentar, a Ceva informou reduções entre 5 e 97 gramas, com melhora média de 24 gramas. Pela metodologia econômica apresentada, esse resultado pode representar aproximadamente R$ 144 por mil aves.
A companhia também relatou redução nas condenações ao abate, com impacto econômico estimado em cerca de R$ 270 por mil aves nos grupos que receberam Nextmune.
Esses valores correspondem às estimativas dos estudos apresentados pela empresa. A variação entre os resultados reforça a influência das condições de produção e dos desafios sanitários de cada operação.
Marco Aurélio Lopes, diretor global de Marketing e responsável pela Nextmune, apresentou experiências internacionais e destacou evidências de que os efeitos da doença podem ultrapassar as lesões tradicionalmente associadas à Bursa de Fabricius.
Aplicação correta integra o programa de prevenção
A qualidade dos procedimentos de vacinação também foi discutida no encontro. A médica-veterinária Isabel Minoli, gerente nacional de Serviços Veterinários – Autógenas da Ceva, abordou cuidados com vacinas liofilizadas e congeladas em incubatórios, incluindo aplicação subcutânea e in ovo.
Segundo ela, o resultado depende de uma sequência de procedimentos, desde a preparação até a aplicação. A escolha da tecnologia deve, portanto, estar integrada à execução adequada do programa de prevenção.
Especialistas destacam desafio de reconhecer o Gumboro subclínico
Profissionais que acompanharam as apresentações ressaltaram a dificuldade de identificar os efeitos silenciosos da doença no cotidiano das granjas.
O especialista em sanidade Antonio Guilherme Machado de Castro destacou a necessidade de atualizar os protocolos diante de quadros de baixo desempenho produtivo. O professor Paulo Lourenço Silva, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), enfatizou a importância de investigar a imunossupressão que pode passar despercebida nas avaliações usuais.
Ricardo Hummes Rauber, consultor de sanidade avícola da Vetinova e CEO do Instituto SAMITEC, apontou o reconhecimento das formas subclínicas como um desafio recorrente do setor. Já Alessandra Appel, consultora técnica da F&S Consulting, ressaltou a conexão entre as evidências apresentadas e os problemas enfrentados nas operações avícolas.
As discussões reforçaram a importância de combinar conhecimento sobre os vírus circulantes, vacinação, biosseguridade e acompanhamento sanitário para reduzir os impactos da doença de Gumboro nos plantéis.
Fonte: Portal do Agronegócio
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