Avicultura

Cálcio e fósforo digestíveis: a nova fronteira na formulação de rações para aves

A adoção dos minerais digestíveis redefine o equilíbrio nutricional, melhora o desempenho produtivo e reduz o impacto ambiental na avicultura moderna


Publicado em: 02/03/2026 às 11:52hs

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A nutrição de aves está passando por uma transformação profunda, embora silenciosa. Após décadas formulando dietas com base em cálcio total e fósforo disponível, a indústria começa a migrar para um sistema mais preciso: cálcio e fósforo digestíveis. Essa mudança representa uma revolução na eficiência nutricional, econômica e ambiental da produção avícola moderna. 

O sistema tradicional de formulação apresenta limitações significativas que se tornaram mais evidentes com os avanços da ciência nutricional: o cálcio total não considera a real capacidade de absorção do animal, enquanto o fósforo disponível desconsidera o fósforo ligado ao fitato — mesmo quando enzimas fitase estão presentes na dieta. Essa abordagem pode levar à super ou subestimativa desses minerais essenciais. 

Um dos principais desafios na implementação do sistema digestível está na principal fonte de cálcio da ração: o calcário. Pesquisas recentes revelaram uma surpreendente variabilidade na digestibilidade prevista do cálcio entre diferentes fontes de calcário. Em um levantamento global com 35 amostras, a digestibilidade do cálcio variou drasticamente, com valores mínimos, médios e máximos de 27,4%, 45,9% e 68,5%, respectivamente. 

Na América Latina, um estudo com 123 amostras de calcário de oito países mostrou que a maioria apresentava granulometria fina e alta solubilidade inicial — características que impactam tanto a digestibilidade do cálcio quanto a eficácia da fitase. A correlação entre o diâmetro geométrico médio das partículas e a solubilidade foi significativa, mas moderada (r = -0,45), indicando que outros fatores, como morfologia da rocha e composição química, além de suas interações, também influenciam a disponibilidade mineral. 

Compreender a interação entre cálcio e fitato é essencial para otimizar o uso do sistema digestível. O ácido fítico possui 12 prótons substituíveis, seis dos quais são fortemente ácidos. A quelação entre cálcio e ácido fítico ocorre independentemente do pH, mas sua intensidade aumenta conforme o pH se eleva. No proventrículo e na moela (pH baixo), formam-se complexos solúveis de Ca-fitato, que precipitam à medida que o conteúdo digestivo avança para o intestino delgado (pH 6,0–7,0). 

Essa precipitação torna o complexo inacessível às enzimas fitase exógenas, reduzindo significativamente a digestibilidade do fósforo fítico. A velocidade com que diferentes calcários liberam íons de cálcio solúveis no ambiente ácido determina o grau dessa interferência na eficácia da fitase. 

Pesquisas de campo já demonstraram os benefícios tangíveis do cálcio e fósforo digestíveis. Em um estudo realizado na América Latina, frangos alimentados com dietas formuladas pelo sistema dCa/dP apresentaram melhor desempenho aos 37 dias (2.748,1 g vs. 2.703,6 g) e conversão alimentar superior (1,419 vs. 1,457) em comparação ao sistema tradicional. 

As vantagens econômicas também são evidentes. No mesmo estudo, os custos de produção foram reduzidos quando o sistema digestível foi utilizado, mostrando que a precisão nutricional se traduz em eficiência econômica. Outro estudo na África do Sul confirmou esses resultados, com melhor peso corporal aos 32 dias (1.945,1 g vs. 1.919,9 g) e redução significativa nos custos de produção. 

A transição para o sistema digestível requer um mapeamento robusto dos valores de digestibilidade dos ingredientes, determinação precisa das exigências nutricionais e validação em condições comerciais. O desenvolvimento e validação de equações preditivas baseadas nas características físico-químicas do calcário e nas interações na dieta representam um passo importante nessa direção. 

Além dos benefícios produtivos e econômicos, o sistema digestível oferece vantagens ambientais significativas. A formulação mais precisa reduz o excesso de minerais nas dietas, diminuindo sua excreção e, consequentemente, o impacto ambiental da avicultura. A menor dependência de fosfatos inorgânicos — recursos escassos e caros — também contribui para a sustentabilidade do sistema produtivo. 

Implementar o sistema de cálcio e fósforo digestíveis é uma necessidade estratégica para a avicultura moderna. Em um cenário de crescente pressão por eficiência produtiva, redução de custos e sustentabilidade ambiental, ignorar essa abordagem significa ficar fora de sintonia com as demandas do mercado. 

A transição exige investimento em pesquisa, treinamento técnico e adaptação dos sistemas de formulação, mas os benefícios comprovados justificam o esforço. A nutrição de precisão já não é uma aspiração futura — é uma realidade presente que redefine os padrões da produção avícola global. 

VENTER, K.; ANGEL, R.; KORVER, D.; CUNHA, M.; PLUMSTEAD, P. Implementação de um sistema de cálcio digestível: por que é necessário e onde estamos? In: Journal of Applied Poultry Research, Volume 34, Issue 2, 2025. 

Mauricio Cunha, agrônomo, é Líder Técnico de Vendas para Nutrição Animal na IFF na América Latina.

Fonte: 2PRÓ Comunicação

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